Gestação

Mulher contesta excesso de regras colocadas por médicos na gestação

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O obstetra de Emily Oster dava ordens sem explicar as razões imagem: Thinkstock

Catherine Saint Louis

Do New York Times

Durante a gravidez, Emily Oster não gostava quando seu médico dava ordens muito categóricas: "não engorde mais do que 15 quilos", "não precisamos falar sobre amniocentese (exame que envolve a retirada de uma amostra do líquido amniótico do útero para avaliação em laboratório), você ainda não tem 35 anos", "não coma na sala de parto", entre outras.

A ordem de limitar o consumo de café a, no máximo, duas xícaras ao dia deixou Emily particularmente contrariada, pois o dia a dia da economista do setor da saúde, geralmente, é regado por "um fluxo constante de cafeína" na Universidade de Chicago. Seu obstetra dava ordens sem explicar as razões, assim como pais dizem "não" e esperam que os filhos obedeçam.

Emily –que é PhD formada em estatística, mas não é médica– não conseguia imaginar uma situação na qual precisaria tomar uma decisão informada sem receber todos os dados necessários. Seu novo livro, da editora Penguin, é o resultado de fins de semanas dedicados à busca de informações na PubMed (banco de dados americano que reúne informações médicas) e em outras bases de dados científicos; da leitura do manual "Obstetrics", de Steven Gabbe, e da reflexão sobre discussões com amigos da área de saúde para descobrir quais regras para as grávidas seriam sustentadas por evidências convincentes.

"Expecting Better: Why the Conventional Pregnancy Wisdom Is Wrong - and What You Really Need to Know" ("Esperando o Melhor: Por Que o Senso Comum sobre a Gravidez Está Errado – e o Que É Realmente Preciso Saber", em tradução livre, ainda não lançado no Brasil) será uma revelação para muitas futuras mães curiosas, cujos médicos não são capazes de apresentar os prós e os contras do café nas primeiras horas da manhã e, muito menos, de discutir ciência de verdade. Além disso, o livro é uma ótima lição de casa para ser feita antes das visitas ao obstetra, até mesmo para as pacientes sortudas que são capazes de conversar sobre as razões por trás de cada conselho.

Todavia, sua abordagem confrontadora pode afastar alguns leitores, sem falar em muitos médicos, o que levou uma série de especialistas a questionar a veracidade de seus conselhos sobre o consumo de álcool.

Alguns dos mitos que ela tenta detonar já estavam na corda bamba. Muita gente sabe que o repouso –recomendado para prevenir partos prematuros– não conta com o apoio de evidências sólidas e pode até causar problemas. Além disso, Emily, de 33 anos, destaca que "muito embora a fertilidade diminua com a idade, isso não ocorre com a rapidez que imaginamos". Por sorte, sua afirmação recebeu o apoio de um artigo publicado na "The Atlantic", que argumentava, com estatísticas, que havia uma boa dose de exagero no que se diz a respeito do declínio da fertilidade entre mulheres com mais de 30 anos.

A autora toma rumos mais atuais e analisa testes realizados com mulheres na fase final da gravidez. Se o exame de ultrassom revelar que o líquido amniótico está baixo demais, existem duas soluções possíveis. Garantir que o bolsão vertical mais profundo seja medido ou, então, beber dois litros de água antes do exame para elevar os níveis de líquido amniótico. Esse é um conselho útil, especialmente porque um volume baixo demais pode levar ao parto prematuro.

A gravidez semana a semana

Ainda assim, algumas de suas conclusões não são tão apoiadas pela pesquisa médica. Depois de revisar alguns estudos de pequeno porte que demonstram que a prática de esportes tem pouco impacto na região da cesariana, no crescimento do feto ou na duração do trabalho de parto, a autora conclui que tanto praticar exercícios quanto abster-se deles por nove meses é "bom" para as grávidas. Porém, a segunda possibilidade ignora os grandes benefícios trazidos pela prática de exercícios, esteja a mulher grávida ou não.

As conclusões de Emily sobre o consumo de álcool durante a gravidez geraram certa controvérsia. Segundo seu ponto de vista, não existem evidências científicas boas o bastante que comprovem que beber pouco possa afetar o feto. Mulheres grávidas podem beber confortavelmente "de um a dois drinques por semana no primeiro trimestre e um por dia após isso".

Afirmações similares têm sido feitas há muito tempo, mas a explicação dela pode ser surpreendente: mulheres que bebem devagar diminuem gradativamente os níveis de álcool e acetaldeído, um produto tóxico que pode chegar ao feto.

Boa parte das agências do governo e o Colégio Americano de Ginecologia e Obstetrícia afirmaram que nenhuma quantidade de álcool no sangue que chegue ao feto pode ser considerada segura, uma postura que Emily considera "ditatorial".

Bill Dunty, diretor de programa do setor de efeitos sobre o metabolismo e a saúde do feto, no Instituto Nacional de Pesquisa sobre o Uso de Álcool e o Alcoolismo, afirmou que sua explicação é "simplista" e que pode "levar as mulheres a pensarem que não estão expondo seus fetos ao álcool".

Cada mulher possui uma capacidade diferente de absorção e metabolização do álcool, de acordo com Dunty. "Não é realista crer que uma pessoa seja capaz de controlar a quantidade de álcool e metabólitos que chegam ao feto pelo simples fato de demorar mais tempo para consumir uma bebida alcoólica", afirmou.

Emily discorda e diz que o acetaldeído é processado "pelo fígado do bebê e não chega ao cérebro". Porém, o fígado do feto não está formado até a vigésima semana de gestação, no mínimo, e só está plenamente formado nas vésperas do parto, afirmou Jacquelyn Bertrand, cientista sênior do Centro de Prevenção de Deficiências Congênitas e de Desenvolvimento, nos Centros de Controle e Prevenção de Doenças.

Além disso, o etanol atravessa a placenta e se torna parte do líquido amniótico, afirmou Jacquelyn, PhD em psicologia e especialista em neurodesenvolvimento de crianças expostas ao álcool durante a gravidez. Até mesmo com um ritmo de consumo extremamente lento, o etanol se concentra no líquido amniótico, que cobre a pele do feto por um tempo considerável.

Ao longo do livro, Emily apresenta uma imagem negativa do relacionamento entre médico e paciente, exibindo o que vê como uma restrição na liberdade da mulher.

O médico Jeffrey L. Ecker, diretor do comitê de prática de obstetrícia do Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas, reconheceu que os médicos costumavam ter uma abordagem mais direta, na qual davam ordens como "faça isso e ponto final". Mas ele defende que o relacionamento com as gestantes evoluiu no sentido de se tornar um "modelo de tomada compartilhada de decisões".

"Não é possível dar um conselho –mesmo que essa recomendação esteja apoiada pelas evidências mais concretas– caso ele restrinja a liberdade da gestante", afirmou Ecker.

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