Adolescência

Antes da faculdade, retome temas como álcool e drogas com seu filho

Joyce Hesselberth/The New York Times
Quando os filhos saem de casa, a responsabilidade pela saúde deles muda imagem: Joyce Hesselberth/The New York Times

Perri Klass*

Do New York Times

Para mim, a coisa mais estranha dos formulários de saúde da faculdade do meu filho foi o fato de que eles não pediam a minha assinatura. De um ponto de vista médico, um jovem de 18 anos é considerado maior de idade. Sim, os pais podem fazer observações incisivas sobre quem e em que sentido é de fato um adulto, assim como sobre quem paga as contas.

Contudo, quando os filhos saem de casa e vão para a faculdade, não há dúvidas de que a responsabilidade pela saúde deles muda. Eles devem cuidar de si mesmos, em todos os sentidos, e, nesse momento, é preciso falar a respeito de como fazê-lo.

Na última consulta antes de um recém-universitário partir para a faculdade, pediatras como eu abordam temas de assistência médica, que vão desde vacinas até o cuidado com doenças crônicas, passando pelas vicissitudes do temperamento.

Além disso, claro, abordamos as questões de sexo, do abuso de substâncias e da falta de sono, perenes entre os estudantes. Para os jovens adultos, trata-se de uma oportunidade de pensar nas alegrias e nos riscos de sair de casa, viver com outras pessoas e, assim, crescer.


Os estudantes deveriam conhecer seus históricos médicos pessoais –se são alérgicos a algum medicamento, por exemplo, devem saber a que são alérgicos e como essa alergia se manifesta. Qualquer pessoa com um problema de saúde crônico –de asma a diabetes, passando por transtornos alimentares– deve considerar encaminhar seus registros médicos para o arquivo do serviço de saúde da faculdade.

"Uma grande quantidade de estudantes chega à universidade com históricos médicos significativos, de modo que temos de passar pelo processo de solicitação dos registros médicos", disse Marcy Ferdschneider, diretora médica do centro de saúde estudantil da New York University. O atraso pode dificultar a prestação de um bom atendimento em um momento de crise.

Qualquer jovem adulto que vai para a faculdade deve estar totalmente atualizado no que diz respeito à vacinação. Muitas das vacinas que são rotineiramente administradas nos adolescentes não existiam quando os seus pais estavam na faculdade. A vida nos dormitórios estudantis é reconhecida há bastante tempo como fator de risco associado a surtos de meningite, por exemplo.

O reforço de tétano-difteria-coqueluche, dado a adolescentes e adultos, protege contra a coqueluche, outra infecção relativamente comum entre os estudantes universitários. A vacina contra o papiloma vírus humano –que causa verrugas genitais e câncer de colo do útero, no pênis e anal– tem se mostrado responsável por uma grande diminuição nas taxas de infecção entre adolescentes.

Entretanto, apesar de um excelente histórico quanto à segurança, apenas metade das adolescentes elegíveis são imunizadas e bem menos meninos recebem a vacina, de acordo com os Centros para Controle e Prevenção de Doenças.

Os novos alunos devem, pelo menos, começar a série de injeções antes de chegar à faculdade. E devem saber que a vacina contra a gripe, logo que for disponibilizada no semestre, será outro imperativo para a vida universitária.


Os pais, assim como os médicos, devem discutir a contracepção e a segurança no sexo. Todavia, o ideal é que a conversa seja mais ampla. Fale sobre relacionamentos adultos e da bela possibilidade de encontrar o amor. Fale sobre o estupro e os perigos de tomar decisões quanto ao sexo sob a influência de álcool.

É provável que você já tenha falado de álcool com seu filho, mas puxe esse assunto de novo. Se houver um histórico familiar de alcoolismo e seu filho não estiver familiarizado com ele, esse seria um bom momento para explicar as suas preocupações. Tal como acontece com o sexo, comece falando de segurança, mas, em seguida, vá além.

A médica Megan A. Moreno, professora associada de pediatria na Universidade de Washington, afirma que os alunos recorrem a amigos se vão a festas e acham que vão beber. "Às vezes, os universitários reagem mais à ideia de proteger os amigos, porque, por conta própria, tendem a pensar: 'isso nunca vai acontecer comigo'.”

Discuta as decisões que o seu próprio filho deve tomar, mas também a experiência de assistir a outras pessoas fazendo escolhas diferentes –e de viver com as consequências. Para muitos jovens, a questão de o que fazer quando um amigo ou um vizinho parece estar em risco é, na verdade, uma maneira mais fácil de refletir sobre um tema difícil. Enfatize a importância do sono. Fale sobre como lidar com o estresse.

Além disso, considere suas expectativas quanto à comunicação. Até que ponto você espera ficar por perto? "Não fique rodeando seu filho", afirmou o médico Larry Neinstein, diretor-executivo do Centro Engemann de Saúde Estudantil da Universidade do Sul da Califórnia e autor do guia "The Healthy Student: A Parent’s Guide to Preparing Teens for the College Years" ("O Aluno Saudável: Guia para Preparar seus Filhos Adolescentes para a Faculdade", em tradução livre). Ele sugeriu a seguinte abordagem para os pais: "Não preciso saber de tudo a todo o momento na sua vida, mas, quando você realmente precisar de algum conselho, não hesite em me ligar a qualquer hora e vou tentar ajudar."

Para os pais, incluindo os pediatras, é isso que significa mandar um filho para a faculdade –ou iniciá-lo em qualquer nova fase da vida. Buscamos precauções razoáveis para mantê-los fisicamente seguros, mesmo no contexto de novas e inesperadas aventuras.

Retomamos todas as conversas importantes sobre como fazer escolhas razoavelmente inteligentes e como conseguir ajuda nos momentos difíceis. O importante é manter as linhas de comunicação abertas, ajudar a lidar com a papelada e depois respirar fundo e deixar a responsabilidade nas mãos desse filho que tanto amamos e que agora é um jovem adulto, cada vez mais dono de si mesmo.

* Perri Klass é médica pediatra.

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