Gestação

Para estimular a fala, converse com o bebê antes mesmo de ele nascer

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O desejo de se comunicar é motivado pelo prazer, por isso brincadeiras são estimulantes imagem: Thinkstock

Ludmilla Ortiz Paiva

Do UOL, em São Paulo

Uma criança saudável começa a desenvolver a capacidade de falar quando ainda está no útero da mãe. "Aos cinco meses, o feto entende o ritmo, a intensidade e o tamanho das palavras", diz a fonoaudióloga Aline Moreira Lucena, mestre em ciências da saúde da criança e do adolescente pela Faculdade de Medicina da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais).

A partir desse momento, todos os sons que ele capta, principalmente as vozes dos pais, serão importantes para formar o seu repertório ao longo dos meses após o nascimento. Por isso, para os especialistas, é imprescindível que os pais conversem com a criança antes mesmo de ela nascer.

"Estabeleça contatos sonoros harmoniosos na gravidez. Converse com o bebê e ouça música com ele. Mas que não seja o som por si só. A música tem de ser prazerosa para a mãe. Ela ajuda a liberar hormônios de prazer, que afetarão a criança no útero. Ao mesmo tempo, brigas, gritarias e ruídos relacionados ao estresse podem alterar o desenvolvimento da fala da criança", diz o neuropediatra Mauro Muszkat, da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).

Experimentações

As primeiras tentativas de falar de uma criança acontecem entre o primeiro e o terceiro mês de vida. Nessa fase inicial, segundo a fonoaudióloga Aline, o recém-nascido quer imitar os sons dos pais. "Ele tenta repetir a palavra dita pelo adulto, mas só sai um som gutural, como ‘gaaa’ ou ‘guuu’.”

Dos quatro aos seis meses, o bebê balbucia muito. A especialista explica que é o momento de experimentar mais. Começam a sair sons parecidos com palavras, e ele pode até dizer as primeiras, como "mã" (o equivalente a mamãe) ou "pá" (papai). Também é comum o balbucio com uma certa sonoridade, como se o bebê estivesse cantando. Essa fase de experimentação dura até os 11 meses. Quando a criança completa um ano, ela, geralmente, já diz suas primeiras palavras, que são relacionadas a desejos imediatos, como "água", "dá", "qué", "mãe", "pai".

Segundo Muszkat, uma criança de dois anos deve ter, no mínimo, um repertório com cerca de 50 palavras. "Isso é variável. Uma menina, por exemplo, pode conhecer mais palavras do que um menino", diz o neuropediatra. A partir dos três anos, a criança cria frases com verbos e o vocabulário aumenta para em torno de 300 palavras. "É nessa época que ocorre a explosão da linguagem", fala Muszkat.

Como identificar problemas

Além de observar o desenvolvimento de acordo com a faixa etária, descrito acima, o neuropediatra Muszkat destaca a importância de verificar não só a fala, mas toda a comunicação da criança. Ela deve compreender comandos, acompanhar objetos e pessoas com o olhar e dar atenção quando alguém conversa com ela. "Fique atento se a criança não tem tendência a imitar tudo", diz Aline.

"Se, por volta dos nove meses, a criança não atende pelo nome e não dá tchau, é um sinal de atraso, que pode estar relacionado ao autismo. Já em uma criança que ainda não fala, mas interage com os adultos e brinca, o atraso pode estar relacionado a outro problema, que deve ser analisado pelo médico que a acompanha", fala Muszkat.

O que pode atrapalhar a fala

De acordo com o neuropediatra, entre as várias condições que atrapalham o perfeito desenvolvimento da fala, as mais comuns são deficiência auditiva ou intelectual, má formação facial, problemas de cognição e síndromes genéticas. "Muitas vezes, o atraso da fala precede manifestações de problemas neurológicos, que só aparecerão mais tarde", afirma o médico.

Se a criança viveu alguma situação traumática, como uma internação em hospital, pode ter sua capacidade de falar afetada. "Às vezes, ela só fala em condições particulares. Os pais e filhos nessa situação precisam de um apoio importante para criar e sustentar conversas prazerosas. Existem muitos psicólogos especialistas no primeiro ano de vida que podem ajudar", declara a psicanalista Silvana Rabello, especializada em clínica de criança e professora da PUC de São Paulo.

Seja qual for a causa, Muszkat destaca a importância de um diagnóstico precoce, principalmente, porque, dependendo do caso, quanto mais cedo o tratamento começa, maior é a chance de recuperação.

"Os primeiros dois anos são muito ativos para a linguagem. Nessa fase, o cérebro é muito plástico e responde com várias modificações, aumentando a conexão entre os neurônios. Crianças até essa idade que tiveram lesões no cérebro se recuperam com muito mais rapidez do que um adulto. A capacidade de adaptação é maior e deve ser explorada", diz o neuropediatra.

Para a fonoaudióloga Aline, o primeiro especialista a ser procurado em situações de suspeita de problema é o pediatra que acompanha a criança. “Dependendo do caso, ele vai dar o primeiro alerta e depois encaminhar para o neurologista, o psiquiatra infantil, o otorrinolaringologista ou o fonoaudiólogo."

Dicas para ajudar o bebê a falar

Para a psicanalista Silvana Rabello, o desejo de se comunicar é uma função motivada pelo prazer. Por isso, o ideal é oferecer um ambiente de diversão sonora para a criança desenvolver plenamente a linguagem, sem se sentir pressionada.

Aline dá a primeira dica. "A partir do momento em que a criança começou a emitir sons, os pais devem incentivá-la, mantendo a conversa. Em certos momentos, imite os sons que ela faz e acrescente novos para que ela também imite."

"A musicalidade da mãe ao conversar com o bebê é um sinal do prazer, do encantamento e da surpresa que ela sente ao falar com o filho. Ao falar com ele, explicar, contar histórias, a mãe convence o filho de que ele é um ser da comunicação, um interlocutor. A criança vai se apropriando dessa condição e se coloca nesse lugar com prazer em atuar", afirma Silvana.

Outra maneira de ajudar a desenvolver a fala do filho é colocá-lo em contato com crianças da idade dele. "De creche a cantinho infantil de shopping, vale tudo. Assim é possível verificar se ele tem a habilidade de se relacionar com os outros", diz Aline.

Cantar músicas, mostrar como a papinha dele é feita, ver revistas e livros... Tudo é importante para o aprendizado de novas palavras. "Quanto mais você aguça a curiosidade de uma criança, mais ela vai querer saber. E quando ela aprende uma palavra nova, quer usá-la muito", diz a fonoaudióloga. E, por último, deixe-a livre para brincar. "É no brincar que a criança desenvolve a fala", fala Aline.

O que não fazer

Superproteger a criança só atrapalha. O excesso de cuidados impede que ela explore mais o mundo, veja as coisas ao seu redor e reconheça, por exemplo, que o carro que está passando na rua é o mesmo que viu no desenho animado da TV.

"Quando ela aprende uma coisa nova sozinha, quer falar sobre isso. Pensar em todos os fatores negativos de soltar mais o seu filho é esquecer o benefício que ele tem quando entra em contato com o mundo”, declara a fonoaudióloga.

Segundo a especialista, quando uma criança é superprotegida, ela é mais facilmente entendida pelos pais do que por outras crianças. Isso gera uma dependência que também afeta o desenvolvimento da linguagem.

"Na superproteção, os pais não deixam a criança nem apontar o que quer. Eles já entregam o objeto para o bebê. Tem criança que não aprende a pedir para ir ao banheiro, porque alguém sempre a coloca sentada no vaso sanitário até fazer cocô."

O uso de diminutivos em excesso é condenado por Aline. "Se o bebê só ouve "inho" no fim de todas as palavras, ele não consegue diferenciá-las. Isso afeta a compreensão do seu próprio nome.

Ficar o tempo todo na frente da televisão também não é indicado pelas duas especialistas. "Não precisa ser radical e banir a TV do cotidiano da criança. Mas também não é legal deixá-la sozinha na frente do aparelho. É interessante acompanhar, comentar as imagens, mostrar que o cachorro da TV também existe na vida real. A televisão funciona muito bem como um apoio da conversa", diz.

"É perigosa a quantidade de vídeos para pequenos que quase ocupam a cena da conversa com os pais. A televisão achata, simplifica o diálogo, principalmente para crianças que têm dificuldade em falar", diz Silvana.

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