Adolescência

Na adolescência, dormir e acordar mais tarde é necessidade biológica

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No adolescente, os hormônios responsáveis por vigília e sono demoram mais para serem liberados imagem: Getty Images

Juliana Zambelo

Do UOL, em São Paulo

Quando os filhos chegam à adolescência, o horário de dormir se torna, em muitas famílias, motivo de brigas constantes. Com as novas tecnologias, como computadores e aparelhos de telefone celular repletos de funções que mantêm os jovens ainda mais agitados, a disputa se acirrou. Mas o que a maioria dos pais não sabe é que a tendência de dormir mais tarde nessa fase da vida é biológica e faz parte das mudanças naturais do corpo durante a puberdade.

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Segundo os especialistas consultados pelo UOL Gravidez e Filhos, todo indivíduo, quando chega à adolescência, passa a sofrer um atraso no sono.

“Dois hormônios trabalham no processo do sono e da vigília. De manhã, há a liberação do cortisol, que age como uma substância de alerta para manter as atividades durante o dia. Ao anoitecer, temos a liberação de melatonina, que vai preparar o organismo para o sono. Nos adolescentes, há um deslocamento na liberação desses hormônios para mais tarde”, afirma Carlos Alberto Landi, hebiatra do Departamento de Adolescência da Sociedade de Pediatria de São Paulo.

Landi afirma que é por isso que o adolescente demora mais para acordar, sente muito sono, principalmente nas primeiras horas da manhã, e também começa a ter sono mais tarde.

O médico diz que esse atraso no relógio biológico é pouco conhecido pelos pais e professores dos jovens. “Todo mundo fica achando que o adolescente é preguiçoso e não é isso”, diz Landi.

O número de horas de sono necessárias para o descanso no dia a dia também é diferente para os jovens. Enquanto a recomendação para adultos é de oito horas por noite, para os adolescentes, os especialistas dizem que o período mais compatível com as necessidades da puberdade é de cerca de nove horas e meia.

De acordo com Gustavo Moreira, pediatra especialista em medicina do sono do Instituto do Sono, em São Paulo, a combinação desses fatores cria um problema social importante no Brasil, onde a maioria das escolas reserva o horário da manhã para os adolescentes, exigindo mais atenção dos jovens estudantes no período em que ainda estão sonolentos.

“É um contrassenso que crianças pequenas estudem à tarde e adolescentes, de manhã”, diz. “O adolescente não consegue dormir cedo, mas tem de acordar cedo porque precisa estar na escola às 7h ou 7h30, considerando que ainda tem o tempo de deslocamento até lá.” De acordo com o pediatra, já na segunda-feira, o jovem tem um déficit de sono, que se acumula ao longo da semana. “Na sexta-feira, ele está acabado.”


Em 1996, um estudo conduzido pela Universidade de Minneapolis, nos Estados Unidos, acompanhou a mudança de horário de início das aulas nas escolas locais das 7h20 para as 8h30, envolvendo cerca de sete mil estudantes.

Após a alteração, a pesquisa apontou que os estudantes apresentaram melhores resultados e relataram menos casos de depressão.

Consequências

O adolescente que dorme menos do que o necessário poderá ter seu desenvolvimento e seu aprendizado prejudicados.

“O sono é muito importante na adolescência porque a secreção do hormônio de crescimento é maior durante esse período”, fala Maria Fernanda Hussid, pediatra do Hospital Samaritano, de São Paulo.

Além disso, o jovem que dorme pouco tem mais dificuldade de atenção e de memorização dos conteúdos aprendidos na escola. “Os adolescentes já têm uma capacidade de concentração diminuída, porque estão sempre preocupados com tantas questões, tantos conflitos. Com déficit de sono, a coisa fica ainda mais complicada”, diz Maria Fernanda.

Para Carlos Landi, dormir poucas horas por dia também pode atrapalhar o humor. “O adolescente pode se tornar mais agressivo, mais irritado, e isso vai prejudicar a convivência dele com pais e amigos.”

Para saber se o jovem está sofrendo com o déficit de sono, Moreira, do Instituto do Sono, sugere calcular a média de horas que ele dorme durante a semana e a média do fim de semana. “Se tem muita diferença, quer dizer que ele está dormindo menos do que deveria.”


Rotina

Fazer o adolescente dormir cedo pode ser complicado e os especialistas reconhecem a dificuldade. “Adolescentes que acordam às 6h30 para ir à escola teriam de estar dormindo por volta das 21h, o que é muito difícil. Eles têm atividades à tarde, até chegar em casa, jantar com a família e se preparar para dormir, é muito pouco provável que ele vá dormir nesse horário”, diz Maria Fernanda, do Samaritano.

Para que os filhos tenham, na adolescência, noites de sono mais longas e melhores, é necessário que eles possuam uma rotina bem definida desde a infância. “Não adianta querer impor limites ao adolescente se, quando ele era criança, nunca teve rotina, nunca teve horário”, diz Carlos Landi.

Segundo os especialistas, atividades físicas mais intensas devem ser praticadas no máximo até as 17h, para impedir que a liberação de hormônios (como a adrenalina), provocada pelo exercício, interfira no sono.

Álvaro Pentagna, neurologista do Hospital São Luiz, de São Paulo, recomenda também que se evite comer comidas pesadas à noite e que o quarto seja silencioso e reservado apenas para dormir. “Não é para comer, assistir TV nem estudar”, diz.

E, para que o corpo perceba que é noite e se prepare para o sono, os especialistas dizem que aparelhos eletrônicos devem ser desligados cerca de uma hora antes de o jovem ir para a cama.

“À noite, os adolescentes tendem a ficar mais tempo na internet, na televisão, no celular, e a luz de tudo isso também vai retardando a liberação de melatonina”, declara Carlos Landi.

Cochilos

Para o neurologista Álvaro Pentagna, sonecas à tarde podem, para algumas pessoas, compensar o déficit das noites mais curtas. “Se o adolescente conseguir tirar um cochilo à tarde, diariamente, é melhor do que tentar compensar tudo no fim de semana”, fala o especialista.

Já Gustavo Moreira é contra esses cochilos. “Se tirar sonecas durante o dia, tem menos sono à noite”, fala.

Tirar o atraso todo no fim de semana também não é o mais indicado. “O adolescente vai quebrando o ritmo, se ele vai tirando cochilos ao longo do dia ou dorme 16, 17 horas seguidas no fim de semana, isso tira todo o ritmo de sono e é importante ter uma rotina diária”, diz Landi.

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