Infância

Lidar com estresse é desafio para pais preocupados com a saúde do filho

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Para os pais, o trauma emocional de ver um filho doente ou se machucar equivale a vivenciar uma guerra imagem: Getty Images

Perri Klass*

The New York Times

Uma doença infantil grave pode lançar uma sombra muito pesada sobre a família, muitas vezes, por anos após a crise ter passado.

Uma mãe se sentou em nossa clínica, recentemente, chorando porque o filho mais velho estava com problemas na escola. Ela se culpava. Anteriormente, o filho caçula adoecera com gravidade, e a mãe achava que tinha sido tão consumida pela preocupação –à época e desde então– que cometeu erros criando o mais velho. Ela insistia que os resultados foram problemas comportamentais e escolares, e não se deixava convencer do contrário.

Eu me perguntei se ela estava perturbada, ao menos em parte, porque a internação do caçula ainda a assustava –ainda que a criança, agora plenamente recuperada, estivesse correndo pelo consultório. Ou talvez –só fui pensar nisso mais tarde– a mãe se lamentasse porque qualquer cenário médico, com médicos, enfermeiros, cheiros e visões hospitalares, desencadeavam emoções intensas.

Os pais podem se ver assombrados por uma doença ou ferimento de um filho. No momento, eles são confrontados pela verdade apavorante de que um filho corre perigo ou sofre dor. Quando as respostas ao estresse normal dos pais causam esgotamento em casos extremos –e quando continuam muito além da enfermidade do filho– um prejuízo adicional pode advir sobre a família. O trauma emocional da experiência, no caso dos pais, o equivalente a vivenciar uma guerra, pode ecoar durante anos.

Pesquisadores que estudam o estresse parental costumam recorrer à metáfora da máscara de oxigênio: se você não respirar, não será capaz de cuidar de seu filho.

"Os pais precisam se sentir bem o suficiente para dar assistência ao filho doente e aos outros", disse Nancy Kassam-Adams, psicóloga que dirige o Centro de Estresse Traumático Pediátrico do Hospital Infantil da Filadélfia. "A pior parte é cuidar de si mesmo."

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  • Arte/UOL

Kassam-Adams é a principal autora de uma nova análise a respeito do estresse pós-traumático em crianças e pais depois de um ferimento infantil, cuja conclusão é a de que uma a cada seis crianças, e uma porcentagem parecida de pais, vivencia sintomas significativos e persistentes. Eles podem ter lembranças e sonhos inoportunos ou continuar evitando pessoas ou lugares que recordem as circunstâncias do ferimento ou enfrentar problemas de humor, como a depressão. Sem tratamento, isso pode prejudicar a recuperação física e emocional da criança.

As pesquisas a respeito dos efeitos do estresse parental surgiram enquanto o tratamento do câncer pediátrico resultava em mais e mais histórias de sucesso, vitórias médicas que devolveram as vidas às crianças. Assistentes sociais e funcionários das clínicas –além dos pais em si– começaram a fazer perguntas sobre como ajudar as famílias a tocar o barco com essas infâncias recuperadas de forma triunfal.

O que ajudou, em parte, foi dizer aos pais que eles foram alistados em uma guerra, afirmou Anne E. Kazak, psicóloga pediátrica e codiretora do Centro de Ciências da Saúde Pública, do Sistema de Saúde Pediátrica Nemours, de Wilmington, Delaware. Os pais se identificavam com essa metáfora: "Vocês foram parte da guerra contra o câncer, lutando a batalha”.

Parte das estratégias e descobertas obtidas com esse corpo de pesquisa é visível na maioria dos hospitais infantis: um lugar para os pais dormirem, mesmo na unidade de tratamento semi-intensivo, inclusão dos pais nos círculos centrados na família e equipes afinadas em interpretar um comportamento extremo de um pai como um grito de ajuda, e não uma fonte de irritação e de trabalho dobrado.

Porém, o que acontece depois que as crianças saem da zona de perigo médico? Muitos pais continuam a vivenciar os sintomas físicos do estresse, como pulso acelerado e boca seca. Eles ficam se lembrando do momento do diagnóstico de câncer, do instante do nascimento prematuro e da hora do acidente.

"Para mim, um pai traumatizado sempre está à espera de outro acontecimento, sempre de olho no horizonte", afirmou o médico Richard J. Shaw, professor de psiquiatria na Stanford.

Segundo artigo publicado, neste mês, na "Pediatrics", Shaw e colegas demonstraram que uma simples intervenção preventiva poderia reduzir de forma significativa os níveis de estresse traumático e de depressão vivenciados pelos pais de bebês prematuros na UTI. Sabe-se que tais pais –observando os nenéns tão minúsculos lutando em um dos ambientes mais perturbadores e de alta tecnologia da medicina– correm um risco elevado de sintomas de estresse severo, como pesadelos e crise de ansiedade.

"A esperança para o nosso estudo era que pudéssemos reduzir o trauma e a ansiedade dos pais e assim ajudá-los enquanto os filhos vão crescendo", explicou Richard Shaw.

Ele e seus colegas usaram muitas técnicas da terapia de comportamento cognitivo. Os pais descobriram maneiras pelas quais o estresse costuma se manifestar e modos para lidar com ele, como o relaxamento muscular. Eles também aprenderam formas de compreender e descrever o que lhes acontecia.

"Técnicas de reestruturação cognitiva ajudam as pessoas a reinterpretar e prestar atenção no positivo, sem descambar na catástrofe, desenvolvendo uma narrativa do trauma de sua experiência", disse o psiquiatra Shaw.

Um recado para os médicos é perguntar sobre a doença passada, e sintomas possivelmente relacionados, e garantir que as famílias em sofrimento sejam encaminhadas a serviços de saúde mental, nos quais as pessoas têm experiência com o estresse traumático.

"Enquanto pais, queremos a segurança dos nossos filhos. Depois que você passa por isso, sabe que eles nunca estarão 100% seguros, e não é fácil parar de pensar nisso", declarou Kassam-Adams.

* Perri Klass é médica pediatra.

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