Gestação

Ao cuidar do bebê, pai cria vínculo mais forte com o filho e a parceira

Haroldo Sabóia/UOL
Gabriel Luiz do Lago quis participar ativamente da gestação da filha, Lara, e colocou um aplicativo em seu celular para acompanhar o desenvolvimento da menina na barriga da mãe imagem: Haroldo Sabóia/UOL

Marina Oliveira e Rita Trevisan

Do UOL, em São Paulo

A mãe carrega o bebê por nove meses. Experimenta as sensações típicas de cada fase da gestação e, mais do que isso, a partir dos seis ou sete meses, percebe o filho se movimentando dentro da sua barriga, durante a maior parte do dia. Nesse processo, os pais são espectadores, já que não passam por transformações físicas. Muitos só estabelecem uma relação com o filho após o nascimento.

“A chegada de um filho pode assustar alguns homens, que ficam tão preocupados com o futuro do bebê e com a responsabilidade assumida, que não conseguem relaxar o suficiente para curtir a criança. Muitos precisam de um tempo para elaborar e se reconhecer nesse novo papel”, afirma a psicóloga e pedagoga Elisabeth Monteiro, autora do livro “A Culpa É da Mãe” (Summus Editorial).

No últimos anos, esse cenário vem mudando significativamente graças a muitos homens que têm procurado se envolver tanto com a gestação da companheira quanto com os cuidados com o filho, desde seus primeiros meses de vida.

“Quando o pai se dispõe a acompanhar as consultas do pré-natal, ele começa a assimilar mais cedo a chegada do novo membro à família e o vínculo com o bebê começa a se formar”, afirma a pedagoga Luciana Belliboni, apresentadora do programa “Doces Momentos”, do canal pago Discovery Home & Health.

  • Reinaldo Canato/UOL

    Desde o nascimento da filha do casal, Lago assumiu algumas tarefas para que a mulher, Giovanna, pudesse descansar

Foi assim com o publicitário Gabriel Luiz do Lago, 29 anos. Ele não só marcou presença nas consultas e exames, como buscou ler livros a respeito da gestação e dos primeiros anos de vida do bebê. A vontade de curtir cada momento ao lado da mulher era tão grande que Lago chegou a instalar um aplicativo sobre gravidez nos celulares dos dois, que trazia informações e dicas sobre o andamento da gestação, diariamente.

“O pai precisa fazer um certo esforço para se envolver, coisa que para a mãe é natural. Eu, particularmente, gostava da ideia de participar de tudo, de aproveitar ao máximo aquele momento, que foi único”, fala Lago.

Uma forcinha da mãe

Nem todos os pais têm tanta iniciativa e, para envolver o parceiro, desde o início da gestação, a postura da mãe também é importante. Ela vai estimulá-lo a se fazer cada vez mais presente quanto mais puder transmitir ao companheiro a ideia de que ele é necessário e importante no processo.

“Quando o bebê nasce, ele exige muito mais da mãe. Então, é normal que o pai se sinta um pouco inseguro e enciumado e com isso se afaste”, diz a psicóloga Ana Merzel, coordenadora do serviço de psicologia do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo.

A partir do nascimento, as responsabilidades aumentam e a melhor coisa que a mãe pode fazer é contar com o apoio do pai. Não apenas para aliviar o seu cansaço, mas para reforçar, desde cedo, o vínculo entre o companheiro e o bebê.

“Quando os pais dividem as tarefas, a mãe fica mais calma e, em consequência, o bebê também cresce mais tranquilo. Nessas condições, a ligação entre o pai e a criança também se aprofunda”, afirma a psicóloga Elizabeth Monteiro.

Sem críticas e cobranças

A coordenadora de trade marketing Giovanna Fontes Ribeiro Lago, 29 anos, mulher de Gabriel, seguiu à risca essa recomendação. E, enquanto o marido se encarregava da filha do casal, Lara, ela aproveitava para se cuidar.

“Desde o segundo dia, ele começou a dar banho sozinho nela. Eu usava esse tempo livre para uma ducha relaxante, para me alimentar ou mesmo para descansar. Essa pausa sempre me fez muito bem”, conta.

Porém, para seguir o exemplo de Giovanna, é preciso que a mãe aceite a ideia de se afastar, pelo menos, por alguns minutos, do filho que acabou de gerar e que se desvincule da falsa crença de que ela é a única que sabe cuidar bem do bebê. Afinal, se não for dada ao pai a oportunidade de aprender, ele jamais poderá substituí-la nas tarefas diárias, para evitar a sobrecarga de tarefas.

“Se há alguma insegurança sobre as habilidades do pai, vale acompanhá-lo nas primeiras vezes em que vai dar banho ou trocar fralda, orientando-o, quando necessário”, diz Elisabeth. Só não vale exagerar nas críticas, o que pode fazer com que o pai se desinteresse dos cuidados com o bebê. “A melhor forma de estimular o pai a participar é mostrar reconhecimento pelo que ele faz.”

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Casal mais unido

Uma vez estabelecida essa dinâmica, que privilegia a compreensão e o afeto em vez da crítica e da cobrança, a relação conjugal sai ganhando. “Nos cuidados com o filho, os dois vão perceber qualidades e características que ainda não tinham sido vistas e que podem também ser valorizadas no relacionamento a dois”, afirma Luciana.

  • Reinaldo Canato/UOL

    Eduardo Marchiori Leite da Silva, a mulher, Flávia, e os filhos, João Henrique (à esq.) e Luís Fernando

A funcionária pública Flávia Marchiori Leite da Silva, 35 anos, conta que, na casa dela, as tarefas são divididas de acordo com as habilidades de cada um. “Gostamos muito de fazer as coisas juntos, mas temos dois meninos, e o meu marido é muito melhor entretendo eles do que eu”, diz ela, que é mãe de Luís Fernando, 2, e João Henrique, 9.

Para o marido, o advogado Eduardo Marchiori Leite da Silva, 36 anos, não se trata de participar dos cuidados com as crianças, mas sim de ser responsável. “Nós dois somos responsáveis por tudo o que diz respeito às crianças. Acho que, quando há uma divisão de responsabilidades, por igual, o vínculo entre o casal também se intensifica. Afinal, se um dos dois estiver sobrecarregado, a relação não anda.”

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