Infância

Saiba como fazer a criança parar de dormir na cama dos pais

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Os pais precisam estar convictos da decisão de delimitar o espaço do casal e da criança imagem: Getty Images

Louise Vernier e Rita Trevisan

Do UOL, em São Paulo

Após um longo e cansativo dia de trabalho, e depois de cumprir outras tantas tarefas, a hora de descansar é sagrada –uma necessidade para recarregar as baterias. Porém, para muitas famílias, a noite nem sempre é um período de sossego e muitos pais têm seu repouso interrompido pelo choro do filho, no quarto ao lado, ou pelo chamado da criança, que aparece aos pés da cama, pedindo um espaço, de preferência bem no meio do casal.

Acontecimentos pontuais desse tipo não merecem tanta atenção. No entanto, quando a situação começa a se repetir, é necessário que os adultos pensem sobre a questão e que encontrem estratégias para ajudar a criança a se sentir segura em seu próprio quarto, independentemente da idade.

A primeira coisa a ponderar é se os pais estão, realmente, decididos a delimitar o espaço que é do casal e o que é da criança. “Muitos pais, para facilitar a vida ou mesmo por se sentirem satisfeitos e seguros tendo seus filhos tão próximos, criam nas crianças o hábito de dormir com eles. Os filhos, claro, percebem o quanto isso é agradável e querem repetir a experiência sempre que possível”, afirma a pediatra e neonatologista Sandra Frota Avilla Gianelo.

Depois, quando as crianças crescem mais, e compartilhar a cama se torna incômodo, as famílias passam a se mobilizar para estabelecer uma nova dinâmica. O que nem sempre é fácil. No entanto, segundo os especialistas, é fundamental ser firme e estabelecer a regra de que as crianças precisam dormir sozinhas, abrindo exceções apenas em ocasiões muito excepcionais.

“Se a criança está doente e requer cuidados especiais, por exemplo, é aceitável que a mãe ou o pai esteja mais próximo. Ainda assim, o adulto é quem deve migrar para o quarto do filho e dormir em um colchão separado, nunca o contrário”, fala a pediatra Sandra.

Tanto rigor tem razão de ser. Afinal, quando cada um dorme em seu próprio espaço, todo mundo descansa melhor. Outro ponto é a privacidade do casal, que deve ser preservada, tanto quanto a saúde da criança.

“O casal precisa ter o seu espaço para conversar sobre questões íntimas, discutir os problemas do dia a dia, deve ter a liberdade de levantar e acender a luz sem atrapalhar o sono do filho. E, claro, é indispensável que eles tenham um momento a sós para manter a vida sexual ativa”, diz a psicóloga Dora Lorch, autora de “Como Educar Sem Usar a Violência” (Summus Editorial).

O comportamento e a saúde da criança podem sofrer as consequências do costume de dormir com os pais. Ela pode se tornar insegura, dependente e, de acordo com o pediatra Mauro Borghi, médico do Hospital São Luiz, em São Paulo, ter até o seu desenvolvimento físico prejudicado, por não dormir bem como deveria. “O rendimento escolar também pode sofrer impacto", afirma o especialista.

Da teoria à prática

A partir dos seis meses, ou até antes, as crianças já devem ser acostumadas a adormecer em seu próprio quarto, e ali ficar durante toda a noite. “Até os seis meses, é aceitável que o bebê permaneça mais próximo da mãe, por causa da amamentação. Nesse período, o filho pode dormir no mesmo cômodo em que os pais, mas sempre em seu berço. Dessa fase em diante, a criança deve ser ninada em seu próprio quarto”, afirma o pediatra Gustavo Moreira, da Unifesp.

Estabelecer um horário para a criança ir para a cama, todos os dias, ajuda nessa transição, tanto para bebês quanto para os maiores habituados a dormir entre os adultos. “O ideal é criar um ritual, que deve ser mantido inclusive nos finais de semana. É importante ficar de olho no relógio e ir desacelerando o ritmo da casa, aos poucos”, diz Moreira.

Então, deve-se dizer à criança que está na hora de dormir, levá-la para escovar os dentes, colocar o pijama e, em seguida, ajeitá-la na cama ou no berço. Bebês adormecem mais fácil ao serem embalados com uma canção de ninar, enquanto as crianças mais velhas costumam apreciar uma boa história. “O mais importante é colocar o filho para adormecer sozinho, sem segurar na mão ou balançar no colo”, fala o pediatra.

Outra dica é, ao perceber que a criança está cansada, interromper a música ou a história, dar um beijo de boa noite e deixar o quarto. “A criança vai se habituar a pegar no sono sozinha. Dessa forma, se ela acordar no meio da noite e não encontrar um adulto por perto, não vai se desesperar, vai acabar dormindo de novo, sem precisar despertar os pais”, afirma o pediatra Gustavo Moreira.

Por outro lado, se mesmo com o esforço dos pais em criar um ambiente propício ao sono no quarto da criança, ela continuar resistente à mudança, será imprescindível assumir uma atitude mais firme. À revelia das crises de choro ou de birra do filho.

“As crianças encontram os pontos fracos de seus pais e usam isso a seu favor. Muitos adultos caem nessas armadilhas e acabam superprotegendo seus filhos, com medo de frustrá-los ou fazê-los sofrer. Porém, ao agir assim, eles contribuem para a formação de indivíduos inseguros, sem iniciativa e despreparados para lidar com as adversidades naturais da vida”, declara o psicólogo Caio Feijó, especializado em psicologia da infância e adolescência pela UFPR (Universidade Federal do Paraná).

Em vez disso, explique com amor, paciência e de forma coerente, os motivos pelos quais ela deve dormir no próprio quarto, lembrando sempre de usar uma linguagem apropriada para a idade. E persista. A orientação é que a criança seja mantida em seu próprio quarto a todo custo e que seja levada de volta ao seu espaço tantas vezes quanto acordar. É lá que os pais devem tentar fazê-la adormecer novamente.

“Na prática, muitos adultos acabam desistindo de usar essa tática, rendem-se ao cansaço e dormem com o filho, na cama deles ou na da criança. É compreensível. Porém, é preciso levar em conta que, nas próximas noites, a criança voltará à cama dos pais ainda mais determinada a ficar com eles”, afirma Sandra Gianelo. 

Durante as tentativas de ajudar a criança a pegar no sono, jamais acenda a luz ou fale alto, pois isso pode despertá-la ainda mais. “Ainda no escuro e com voz suave, explique que está tudo bem, que ainda é noite e é hora de dormir. Fique um pouco no quarto da criança até ela se mostrar sonolenta novamente. Avise que estará por perto caso ela venha a precisar, mas saia antes dela adormecer”, diz Moreira. A repetição dessa rotina é que vai consolidar o novo hábito e garantir bons sonhos para todos.

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