Gestação

Mitos e verdades: o que pode ou não impedir o parto normal de acontecer

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O primeiro parto normal de uma mulher pode durar cerca de 12 horas, segundo especialista imagem: Getty Images

Thais Carvalho Diniz

Do UOL, em São Paulo

Os dados sobre a ocorrência de partos cesáreos no Brasil são alarmantes. Segundo informações da ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar), de julho de 2013, no SUS (Sistema Único de Saúde), 40% dos nascimentos ocorrem de forma cirúrgica. Nos hospitais privados, 84%. Os números estão muito acima dos 15% considerados aceitáveis pela OMS (Organização Mundial de Saúde).

Muitas mulheres são desencorajadas a terem seus filhos por meio de parto normal com justificativas médicas das mais variadas. Para esclarecer o que há de mito e verdade nelas, o UOL Gravidez e Filhos conversou com dois especialistas: Julio Elito Junior, professor do Departamento de Obstetrícia da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), e Alexandre Pupo Nogueira, ginecologista e obstetra do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo.

Falta de dilatação

MITO: a dilatação do colo do útero só acontece com as contrações uterinas, e, portanto, só não acontecerá se o médico não esperar o tempo suficiente –em média de 38 a 40 semanas, podendo chegar a 41–, segundo Julio Elito Junior, da Unifesp. Por isso, dizer que um parto normal ou vaginal não aconteceu por falta de dilatação é um mito. "O trabalho de parto é um processo e, de acordo com a intensidade e frequência das contrações, a dilatação acontece", afirma.

Bacia estreita

VERDADE: segundo o ginecologista e obstetra Alexandre Pupo Nogueira, o tamanho da bacia da mãe pode impedir um parto vaginal, mas é uma condição muito rara, identificável pelo exame de toque ainda no pré-natal. "É o chamado vício pélvico, quando a mulher possui uma má formação óssea, que não permite que a bacia tenha abertura suficiente para a passagem do bebê." Outra situação que pode impedir o parto natural é a desproporção entre a cabeça do bebê e a bacia da mãe. Para averiguar, a gestante passa pela chamada "prova de parto". Por meio de exames clínicos, durante o trabalho de parto, o obstetra avalia se a cabeça do bebê está descendo pelo canal vaginal ou não. "Acontece quando o bebê é muito grande."

Infográfico mostra exames que gestante deve fazer

  • Arte/UOL

Cordão umbilical enrolado

DEPENDE: de acordo com Nogueira, do Sírio-Libanês, essa situação impedirá o parto normal apenas quando o cordão estiver enrolado e apertado, a ponto de diminuir o fluxo de sangue da placenta para o bebê e os batimentos cardíacos dele, que são monitorados constantemente.

Placenta envelhecida

DEPENDE: uma gestante só não poderá passar por um parto vaginal se essa justificativa estiver atrelada a outros fatores de risco, como diminuição do líquido amniótico e bem-estar do bebê, e se a gravidez tiver passado das 40 semanas. "A placenta envelhece com o passar do tempo de gestação, então, é claro que, com 37 ou 38 semanas, por exemplo, durante um ultrassom, ela seja diagnosticada como dura ou velha", afirma o professor da Unifesp Julio Elito Junior.

Gestante não entrou em trabalho de parto

MITO: de acordo com o médico Julio Elito Junior, 80% dos partos acontecem entre a 38ª e a 40ª semana de gravidez. "Algumas pacientes podem demorar mais ou menos para entrar em trabalho de parto. É possível aguardar sob um acompanhamento mais rigoroso –de três em três dias quando passa da 40ª– para avaliar bem-estar de mãe e filho. Se a partir da 41ª, o trabalho de parto ainda não teve início espontaneamente, é hora de conversar com o médico responsável sobre a indução do parto, mesmo que pelos exames esteja tudo bem com ambos, pois os riscos aumentam consideravelmente", afirma.

Trabalho de parto demorado

MITO: não existe um número de horas de duração do trabalho de parto que inviabilize o nascimento via vaginal. "Não é o tempo que vai definir se aquela mulher vai poder ou não passar por um parto vaginal e sim outros fatores, que envolvem a saúde dela e a do bebê durante esse processo, que serão avaliados pelo médico nesse momento", afirma o ginecologista e obstetra Alexandre Pupo Nogueira. Ainda segundo o especialista, o primeiro parto normal de uma mulher pode durar cerca de 12 horas.

Bebê sentado ou atravessado no útero

VERDADE: a partir da palpação do útero ou ultrassom, é possível identificar a posição da criança. A partir daí, se ela estiver em uma dessas duas posições, a cesárea é necessária. "Apenas para o caso do parto pélvico (bebê sentado), quando é detectada essa condição, é feita uma avaliação do histórico da paciente. Caso ela já tenha passado por outros partos normais e todas as condições sejam favoráveis, damos o ok para o parto vaginal. Porém, na maioria das vezes, a cesariana é a melhor opção", fala Julio Elito Junior, professor do departamento de obstetrícia da Unifesp.

Duas ou mais cesáreas anteriores

VERDADE: segundo os especialistas, o risco de ruptura uterina durante o trabalho de parto é muito elevado após duas ou mais cesáreas, pela fragilidade que as cicatrizes causam na parede do útero. Dessa forma, a recomendação é repetir a cesárea, já que o parto normal torna-se muito arriscado. No entanto, após apenas uma cirurgia é possível tentar o parto normal com segurança.

Cirurgia para retirada de mioma uterino

VERDADE: "quando a mulher passa por esse tipo de intervenção, principalmente em casos de mioma intramural –localizado na parede interna do útero–, acontece uma incisão e, consequentemente, essa parede fica fragilizada. Qualquer área com cicatriz é mais frágil do que o tecido normal, o que pode fazer com que o útero rompa-se durante o parto e levar risco à mãe e ao bebê", declara Alexandre Pupo Nogueira, do Hospital Sírio-Libanês. Ainda segundo o médico, miomas pequenos e que crescem para fora da parede uterina não oferecem esse perigo.

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