Gestação

Lei antifumo faz cair número de partos prematuros, diz pesquisa

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No mundo, 40% das crianças são frequentemente expostas ao tabagismo passivo imagem: Getty Images

Catherine Saint Louis

The New York Times

O número de nascimentos prematuros e de visitas de crianças ao hospital por conta de asma diminuiu significativamente em partes dos Estados Unidos, do Canadá e da Europa, quase um ano após entrarem em vigor leis antifumo, relataram pesquisadores da revista científica "The Lancet", na semana passada.

A nova análise combinou os resultados de 11 estudos, que abrangem mais de 2,5 milhões de nascimentos e aproximadamente 250 mil ataques de asma. Especialistas disseram que essa é a melhor evidência até então de que a criação de uma legislação antifumo, em lugares públicos e locais de trabalho, melhora a saúde das crianças, até mesmo quando ainda estão no útero.

"Os resultados são bastante impressionantes", disse Brian Mercer, presidente de obstetrícia e ginecologia no Centro Médico MetroHealth, em Cleveland, que mencionou que meio milhão de bebês prematuros nascem por ano nos Estados Unidos.

"Se pudéssemos evitar apenas 10%, teríamos, aproximadamente, 50 mil nascimentos prematuros a menos por ano, apenas nos Estados Unidos”, afirmou Mercer, que não participou do estudo.

"Mais de um milhão de bebês no mundo morrem anualmente por terem nascido prematuros. Podemos avançar mais nesse sentido, diminuindo esse número com leis antifumo", disse Vincenzo Berghella, presidente da Sociedade para o Tratamento Maternal e Fetal (do inglês Society for Maternal-Fetal Medicine).

Após um levantamento exaustivo de estudos relevantes de um período de 38 anos, os pesquisadores analisaram cinco deles, que avaliaram a saúde perinatal e infantil após leis antifumo entrarem em vigor na América do Norte, e seis estudos realizados após leis nacionais terem sido decretadas na Europa. Atendimentos hospitalares relativos tanto à asma na infância quanto a nascimentos prematuros caíram cerca de 10% no ano seguinte ao decreto das leis antifumo.

Os pesquisadores também coletaram dados de dois estudos e verificaram uma redução, após o surgimento das leis antifumo, de 5% no número de crianças nascidas muito pequenas para sua idade gestacional.

Uma análise anterior sobre o efeito dessas leis na saúde de adultos demonstrou redução de 15% em ocorrências cardiovasculares. O novo relatório mostra "outra ótima razão para que as leis antifumo sejam instituídas em lugares públicos", segundo Muktar Aliyu, professor associado de políticas de saúde e medicina na Universidade Vanderbilt, que fez um estudo relacionando o resultado dos nascimentos e gestantes que fumam. Apenas 16% da população mundial está protegida por leis antifumo abrangentes, e 40% das crianças em todo o mundo são, frequentemente, expostas ao tabagismo passivo.

Quando era criança, contou Aliyu, ele perdia o ar de tanto tossir quando seu pai fumava dentro do carro. “Adultos podem, simplesmente, ir embora ou mudar de ambiente”, disse. “A criança não.”

Apesar dos temores de que leis antifumo poderiam fazer com que se fumasse mais dentro de casa, os estudos mostraram que o oposto está ocorrendo.

“Leis antifumo rigorosas modificam normas sociais quanto ao ato de fumar, e, consequentemente, as pessoas aplicam essas políticas antitabagismo em suas próprias casas também”, disse Joanna Cohen, diretora do Instituto para o Controle Global do Tabaco, na Faculdade de Saúde Pública da Universidade Johns Hopkins. É provavelmente por isso que “políticas antifumo têm impacto tão forte na saúde da criança”, completou.

“Nós ainda não estamos fazendo um trabalho bom o suficiente para proteger nossas crianças do tabagismo passivo”, disse Cohen. Cerca de metade dos norte-americanos está protegida por políticas antifumo completas em locais de trabalho, restaurantes e bares, de acordo com a Fundação dos Direitos dos Não Fumantes Norte-Americanos, um grupo sem fins lucrativos. Em um comentário incluído no novo relatório, seus autores argumentam que as rigorosas políticas de controle do tabaco são uma forma de conter custos médicos atuais, e não em uma década ou duas, conforme especialistas costumavam pensar.

Despesas médicas ligadas à asma ultrapassaram 50 bilhões de dólares em todos os Estados Unidos, em 2007. Até mesmo uma diminuição de 10% dessas ocorrências emergenciais poderia se converter em uma economia de, aproximadamente, cinco bilhões de dólares, disse Sara Kalkhoran, médica da Universidade da Califórnia, em São Francisco, e coautora do comentário.

Os pesquisadores não avaliaram outros fatores além das leis antifumo, como o imposto sobre produtos tabagistas e a proibição de propaganda de cigarro, que devem ter contribuído para o resultado, disse Catherine Y. Spong, diretora de uma pesquisa feita em parceria com diversas universidades no Instituto Nacional de Saúde da Criança e Desenvolvimento Humano.

Segundo Catherine, essa “análise muito bem feita” novamente demonstrou “a importância de se limitar a exposição de gestantes e crianças ao fumo”.

Os autores disseram que estudos mais aprofundados são necessários para estimar o efeito de leis antitabagistas em infecções do trato respiratório em crianças, um grande problema que acomete fumantes passivos. Os autores também mencionaram uma “necessidade urgente” de realização de estudos relativos a leis de controle do tabaco em países de baixa ou média renda.

“Nossa esperança é que esse tipo de trabalho catalise o surgimento de leis antifumo e, à medida que isso ocorrer, a oportunidade será considerada para avaliar o impacto dessas leis e reforçar as evidências”, disse o médico Aziz Sheikh, autor sênior do trabalho e membro do setor de políticas de cuidado com a saúde no Brigham and Women’s Hospital, em Boston.

Ainda assim, Sheikh e seus coautores concluíram: “Agora fica evidente que proteger as crianças da exposição involuntária ao fumo passivo tem grande potencial para reduzir doenças”.

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