Bebês

Nem só higiene inadequada causa assadura; veja outros motivos

Getty Images
Converse com o pediatra da criança sobre o uso de pomadas preventivas nas trocas de fralda imagem: Getty Images

Louise Vernier e Rita Trevisan

Do UOL, em São Paulo

Ao contrário do que muitos pais imaginam, a higiene inadequada nem sempre é a causa das assaduras em bebês. Embora a orientação dos médicos seja trocar a criança, pelo menos, a cada três horas, o modo como é feita a limpeza da pele, nessas ocasiões, também pode contribuir para agravar o problema, em vez de remediá-lo.

O uso de pomadas preventivas a cada troca, por exemplo, é um tema bastante controverso, mesmo entre os especialistas. “Tenho objeções ao uso porque muitos pais, no momento de retirar a pomada, acabam friccionando demais a região com o algodão ou o lenço. Com isso, acabam retirando a camada de proteção natural da pele, deixando a área ainda mais exposta”, afirma a pediatra Anna Júlia Sapienza, gerente médica da unidade de internação do Hospital Infantil Sabará, em São Paulo.

Ela indica que essas pomadas sejam utilizadas apenas quando as fezes estão mais líquidas e com odor mais forte do que o habitual, o que pode indicar que estão ácidas. “Nessas situações, as pomadas formarão uma espécie de filme protetor, minimizando o contato da pele com o agente causador da assadura. Nas demais situações, elas são dispensáveis”, diz Anna Júlia.

A opinião da médica Sandra Frota Avilla Gianelo, pediatra pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), é oposta. “Com frequência, recebo bebês recém-nascidos com quadro avançado de assadura nos primeiros dias após a alta hospitalar, por não estarem usando qualquer barreira entre as fezes e a pele. Por isso, indico a utilização da pomada em todas as trocas, já que ela ajuda a proteger a pele do bebê, que é muito sensível e final e, portanto, mais suscetível a irritações e infecções”, diz. Na dúvida, vale ouvir a opinião do médico que acompanha o seu filho.

Outro ponto que merece atenção é a utilização frequente de lenços umedecidos. “O ideal é usá-los só quando a criança está fora de casa, pois, muitas vezes, as próprias substâncias que eles contêm podem causar dermatite de contato. Ao optar pelos lenços, prefira os que não apresentam álcool nem perfume”, declara a pediatra Filumena Gomes, assistente do Instituto da Criança do HCFMUSP (Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo).

A médica aconselha a adotar, na limpeza do dia a dia, apenas água morna e algodão branco, para diminuir as chances de irritação. “O sabonete neutro também pode ser utilizado, quando houver fezes”, afirma a médica Anna Júlia. 

Práticas para as mamães, as fraldas descartáveis também podem ser as vilãs que estão por trás das assaduras. “Se o aspecto vermelho não estiver tão concentrado na região genital e, principalmente, se não houver assadura ao redor do ânus, podemos pensar em alergia à fralda”, diz Sandra. Nesse caso, deixar o bebê sem fralda por alguns períodos ou até recorrer às fraldas de pano é uma boa opção. 

Outras causas comuns

A assadura também pode estar relacionada à colonização da pele por fungos e ao uso de antibióticos e imunodepressores –ambos os medicamentos alteram a flora e o pH intestinal, tornando-o mais ácido.

E embora não seja consenso, alguns especialistas chamam atenção para a relação entre a alimentação da mãe e o aparecimento das assaduras. Segundo a pediatra Sandra, algumas proteínas presentes no leite de vaca podem passar para o leite materno e causar reações na criança, caso ela seja alérgica a essas substâncias. Porém, nesses casos, é comum que o bebê apresente também outros sintomas, além da vermelhidão local, tais como cólica e distensão abdominal.

Do mesmo modo, quando o bebê começa a comer, a partir dos seis meses de vida, a alimentação pode alterar o pH das fezes e da urina. “Elas podem ficar um pouco mais ácidas e provocar irritações na pele”, declara Kerstin Taniguchi Abagge, dermatologista pediátrica e professora da UFPR (Universidade Federal do Paraná).

Cuidado redobrado durante o tratamento

Quando a pele do bebê já está irritada, os cuidados com a limpeza devem ser redobrados. “Use água em abundância e faça a troca imediatamente após a evacuação, deixando a criança sem fralda por alguns períodos, para a pele respirar”, diz Filumena.

Nesses casos, as pomadas preventivas também podem ser usadas, já que, geralmente, contêm substâncias com alto poder hidratante, vitaminas e óxido de zinco, que ajudam na recuperação da pele.

“Mas vale a pena dar preferência aos produtos mais fluidos e leves que são, inclusive, mais fáceis de remover no momento da higiene”, diz a dermatologista pediátrica Kerstin.

Outro truque para amenizar os incômodos da assadura é usar amido de milho na região. A receita, do tempo das vovós, realmente funciona para absorver a umidade. “Colocar o bebê para tomar sol sem a fralda e sem a pomada também ajuda”, fala Anna Júlia.

Em geral, as assaduras relacionadas ao contato prolongado com as fraldas úmidas regridem apenas com esses cuidados. Porém, quando as lesões continuam avançando e causando desconforto à criança, ao longo de dois ou três dias, é imprescindível consultar o pediatra.

Pomadas de tratamento, à base de nistatina, por exemplo, que são vendidas em farmácias sem receita médica, só devem ser usadas se comprovada a infecção fúngica.

“Nesse caso, geralmente, aparecem pequenas pústulas, que são como espinhas, ao redor da área avermelhada. Elas podem se romper e causar lesões que ardem muito. Pode acontecer descamação da pele também”, afirma Sandra.

Pomadas antibióticas ou anti-inflamatórias, da mesma forma, precisam ser usadas sob rigoroso acompanhamento médico. “As pomadas à base de corticoide, por exemplo, possuem efeito anti-inflamatório local. Porém, há um risco muito grande de absorção desses produtos pela pele, o que pode causar efeitos colaterais indesejados, como uma infecção fúngica. Por isso mesmo, essas pomadas jamais podem ser usadas na rotina. Mesmo quando necessário, indicamos apenas uma aplicação por dia e não a cada troca de fraldas, para não aumentar o risco de efeitos colaterais e de absorção sistêmica”, diz Kerstin.

Assaduras recorrentes merecem ser investigadas, pois podem estar associadas a problemas mais sérios, como a vaginite, a vulvovaginite ou até mesmo a imunodeficiência, que é uma falha no funcionamento do sistema imunológico.

“Em geral, quando a assadura está associada a doenças mais graves, ela se estende rápido e apresenta lesões que não melhoram com os tratamentos habituais. Por exemplo, em uma criança imunodeprimida, as lesões só melhoram quando resolvida a causa do problema, com a associação de vários tratamentos”, diz Sandra.

Topo