Infância

Deixar a criança livre para se vestir ajuda a construir sua identidade

Arquivo Pessoal
Mãe de Pedro e Catarina, Loreta não compra briga para que os filhos andem arrumadinhos imagem: Arquivo Pessoal

Yannik D´Elboux

Do UOL, no Rio de Janeiro

Por volta dos três anos, as crianças começam a querer fazer suas próprias escolhas de roupas e penteados. O problema é que nem sempre essas opções condizem com o senso estético dos pais. Muitas vezes, os filhos insistem em roupas que não combinam e se recusam a arrumar o cabelo. Os pais conhecem bem essas pequenas batalhas do dia a dia. Mas, afinal, será que vale a pena entrar nessa guerra?

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Para a psicóloga Mara Pusch, que faz parte do Centro de Apoio e Atendimento ao Adolescente da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), comprar essa briga não é o melhor caminho e atrapalha o desenvolvimento infantil. “No dia a dia, é importante que os pais deixem o filho fazer suas escolhas. Esse é um exercício de autoconhecimento para a criança.”

Apesar de necessária e saudável, a liberdade com a própria aparência precisa de certos limites. Uma roupa de verão no inverno jamais será apropriada. A pedagoga Magali Reis, professora do programa de pós-graduação em educação da PUC (Pontifícia Universidade Católica) de Minas Gerais, diz acreditar que o bom senso é sempre o melhor termômetro. “A criança vai estar confortável com a roupa? Vai se sentir bem?” são as perguntas que os pais devem se fazer, orienta Magali.

Loreta Berezutchi, mãe de Pedro, 6 anos, e Catarina, 4, e autora do blog Bagagem de Mãe, procura interferir o mínimo possível nas escolhas estéticas dos filhos, desde que eles estejam protegidos e seguros.

“O Pedro gosta de usar um pé de cada meia para ir à escola e eu sempre deixei. A única coisa que barrei foi um tênis diferente do outro porque fiquei com medo de ele tropeçar por causa da diferença das formas dos sapatos”, conta.

Identidade

O médico pediatra Ricardo Halpern, presidente do Departamento de Pediatria do Comportamento e Desenvolvimento da SBP (Sociedade Brasileira de Pediatria), explica que o desejo de decidir sobre o próprio visual está relacionado com o início do processo de formação da identidade da criança.

Apesar de concordar que um pouco de liberdade faz bem nessa fase, o pediatra diz que deixar o guarda-roupa inteiro como possibilidade de escolha pode complicar a vida dos pais, já que os filhos, às vezes, fazem opções inadequadas para a ocasião. Halpern sugere que sejam dadas, por exemplo, duas boas alternativas de combinação. “Assim a criança tem a possibilidade de fazer uma opção, sem que aquilo cause nenhuma batalha naquele momento.”

Quando as decisões estéticas das crianças não puderem ser respeitadas ou não forem as melhores para determinada situação, a psicóloga da Unifesp diz que é fundamental dialogar. “Os pais precisam sempre conversar e explicar porque ela não pode fazer a escolha dela naquele momento”, diz Mara.

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Autoestima

Os especialistas dizem, em coro, que, na infância, conforto e higiene são prioritários. A preocupação estética pode esperar. Entretanto, não é difícil encontrar em fóruns de beleza na internet mães em busca de produtos para alisar os fios encaracolados das filhas pequenas. A cantora Beyoncé foi alvo de uma petição na internet para que “penteasse” o cabelo da filha, Blue Ivy, 2, que é bastante crespo.

Impor padrões estéticos, determinar o que é bonito ou feio com base em modelos generalizados e não valorizar as características naturais dos filhos são ações que impactam na autoestima da criança. “Você está dizendo que, daquela forma que a criança é, você não gosta dela”, declara o pediatra Ricardo Halpern.

A psicóloga Mara Pusch diz que a não aceitação dos pais da identidade e das características estéticas naturais dos filhos geram problemas futuros de autoestima, que poderiam ser evitados. “Se você sempre elogiar, a criança passa a ver aquilo como natural, mesmo que o cabelo dela não seja o que todo mundo gosta. Ela começa a ter personalidade a partir daquela característica em vez de brigar com ela.”

Magali Reis também reforça a necessidade de acolher a diversidade e de valorizar a beleza natural dos filhos, sobretudo com relação aos aspectos étnicos, já que são imutáveis. “É importante reforçar positivamente as características da criança. Por que buscar um padrão único?”, questiona.

Respeitar a liberdade e a naturalidade das crianças não significa deixar de cuidar ou andar com o filho maltrapilho e com os cabelos cheios de nós. Para convencer Pedro e Catarina a se deixarem pentear, Loreta usa a criatividade e aproveita o momento para contar histórias. Porém, nem sempre a estratégia funciona. “Eu tento, mas não insisto muito. Não brigo para que saiam sempre penteadinhos e superarrumadinhos”, diz ela, que prioriza a higiene, mas não liga tanto para o visual.

Para os pais que se preocupam que a fase rebelde dos filhos, de não querer arrumar o cabelo ou escolher roupas esdrúxulas, influencie no comportamento deles como adultos, a psicóloga da Unifesp afirma que esse receio não possui fundamento. “Não é porque uma criança não é vaidosa ou não penteia o cabelo com três, quatro anos que será assim quando chegar na adolescência.”

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