Adolescência

Na adolescência, preguiça tem a ver com necessidade biológica

Getty Images
Pais devem estimular o adolescente a ter disciplina, mas também dar a ele o direito ao ócio imagem: Getty Images

Rita Trevisan e Suzel Tunes

Do UOL, em São Paulo

Quarto desarrumado, roupas jogadas no chão e, esparramado na cama, um adolescente com muita dificuldade para se levantar. A cena é tão comum que levou a psicóloga Mônica Geraldi Valentim a se questionar: será que os adolescentes têm, de fato, mais preguiça do que as crianças? Por que isso acontece?

Dessas perguntas nasceu uma pesquisa que lhe conferiu o título de doutora em pediatria pela Faculdade de Medicina da Unesp (Universidade Estadual Paulista) de Botucatu, no interior de São Paulo, e, pelo menos, uma certeza: sim, tem fundamento a observação de que os jovens, em geral, sentem mais preguiça do que as pessoas de outras faixas etárias. Mas não dá para atribuir esse comportamento a uma falha de caráter.

“A preguiça parece ser importante para os processos de restauração do organismo”, diz a psicóloga. Ela explica que as transformações pelas quais o corpo passa durante a adolescência causariam um consumo energético grande, que estaria por trás dessa inércia. “Teoricamente, os adolescentes precisariam dormir um pouco mais. Por outro lado, existe uma demanda social para que eles durmam menos.”

O médico hebiatra Marcelo Iampolsky, professor da Faculdade de Medicina do ABC, confirma que a necessidade de sono do jovem está diretamente relacionada ao desenvolvimento que ocorre nesse período, pois é durante o repouso que o hormônio de crescimento é liberado.

“A adolescência é o segundo período da vida em que mais se cresce. O hormônio do crescimento é liberado em picos, nos estágios mais profundos do sono. Por isso, o ideal é que o jovem durma de oito a nove horas por noite, para poder ter a liberação de dois a três picos hormonais”, fala Iampolsky.

Sono mais tarde

Segundo a psicóloga Mônica Valentim, existem também evidências de que os adolescentes sofrem um atraso no início de secreção da melatonina, o hormônio envolvido na indução do sono. Um estudo realizado, em 2005, pela psicóloga Fernanda Torres, pesquisadora do Grupo Multidisciplinar de Desenvolvimento e Ritmos Biológicos da Universidade de São Paulo, fortalece essa hipótese.

Mônica acompanhou uma comunidade indígena de Ubatuba, em São Paulo, durante um ano e meio, antes de o grupo receber energia elétrica. Verificou que as pessoas dormiam e acordavam mais cedo do que nas cidades, pois se orientavam pela luz do sol.

Detectou, ainda, um atraso de, aproximadamente, uma hora nos horários de dormir e acordar dos jovens da comunidade. E, nesse caso, sem qualquer interferência de games, Facebook ou Whatsapp. Considerando esse fato, já existem até algumas escolas que estão se adaptando a essa realidade, iniciando as aulas uma hora mais tarde, no período da manhã.

Preguiça é seletiva

A pesquisa de Mônica também identificou um comportamento que mães e pais de adolescentes já notaram na prática: não é para todas as atividades que os filhos apresentam preguiça. Nas entrevistas que ela realizou, cerca de 62% dos jovens declararam ter preguiça de fazer as tarefas domésticas; contudo, mais de 70% assumiram que jamais têm preguiça de namorar ou de sair com os amigos.

Segundo a psicóloga, há duas possíveis –e não excludentes – interpretações para esse comportamento. A primeira, e mais óbvia, é que a indolência é uma reação de fuga ou esquiva das atividades consideradas chatas.

“Mas a preguiça também pode ser compreendida como uma maneira de preservar energia para atender às demandas de crescimento e aquisição de conhecimentos e aptidões necessários para a futura formação de pares reprodutivos”, declara a especialista. E, para esses propósitos, as atividades da paquera ou o papo com os amigos seria muito mais útil do que uma faxina no próprio quarto.

Depressão

Para a psiquiatra Danielle Herszenhorn Admoni, especialista em saúde mental da infância e adolescência, do Departamento de Psiquiatria da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), a preguiça também pode fazer parte da atitude de questionamento dos adolescentes diante dos adultos.

“Eles se dão o direito de não fazer determinadas atividades, que os adultos só fazem por se sentirem obrigados socialmente”, afirma Danielle. Ou seja, diante de um quarto bagunçado que deixaria qualquer adulto envergonhado, o jovem simplesmente afirma: “Está bom para mim”.

“Mas, quando o adolescente começa a ter preguiça para todas as atividades do cotidiano, demonstrando desinteresse sobretudo por atividades de que antes gostava, pode-se suspeitar de depressão”, fala a psiquiatra.

Danielle destaca que a depressão na adolescência deve ser considerada com seriedade. Segundo relatório da Organização Mundial da Saúde, divulgado em maio de 2014, a doença é o principal mal que atinge pessoas entre dez e 19 anos.

Entre as causas patológicas, algumas alterações orgânicas, como anemia por carência de ferro e hipotireoidismo (deficiência do hormônio da tireoide), também podem provocar apatia e falta de vontade de desempenhar as atividades diárias, de acordo com o hebiatra Marcelo Iampolsky.

Conflitos familiares

Historicamente, a preguiça não é bem-vista pela sociedade. Na tradição católica, é um dos sete pecados capitais, aqueles que conduzem a outras falhas de caráter. Talvez por isso a indolência dos adolescentes seja um constante motivo de conflitos familiares.

“Cobranças excessivas pioram a convivência familiar e afetam a autoestima do jovem. Contudo, se os adolescentes não são crianças, eles também não são adultos e precisam de orientação”, diz a psiquiatra Danielle. Para ela, os pais devem buscar o equilíbrio entre dar limites e colo. 

Nessa delicada relação, não há receitas prontas. Mas a psiquiatra aponta que também cabe aos pais desenvolverem a autonomia e a responsabilidade dos adolescentes. O mais comum, no entanto, é que, depois de o adulto perca a paciência e faça, ele mesmo, a arrumação.

Outro ponto importante é que haja coerência entre prática e discurso. “Há pais que tentam exigir um comportamento que eles próprios não apresentam. Mas, se as regras forem apresentadas com coerência, por meio do diálogo, não há motivo para conflitos familiares”, declara Mônica.

Segundo Iampolsky, é fundamental que o jovem seja estimulado a ter disciplina em sua rotina e que conte com horários regulares para todas as atividades diárias, incluindo as horas de sono, as refeições e a prática de esportes (esses últimos até melhoram a qualidade do sono). Da mesma forma, o jovem deve ter direito a alguns momentos de ócio. “Uns 40 minutos de sono após o almoço e uma hora por dia para assistir TV ou jogar games não comprometem as outras atividades”, afirma Mônica.

Topo