Gestação

Aborto espontâneo não afeta fertilidade da mulher

Arquivo Pessoal
Depois de ter sofrido um aborto espontâneo, Michelle Matos está grávida de 33 semanas imagem: Arquivo Pessoal

Ana Caroline Castro

Do UOL, em São Paulo

Muitas mulheres que passaram por um aborto espontâneo ficam receosas em tentar uma nova gravidez. Mas, segundo pesquisa da Universidade de Aberdeen, na Escócia, as mulheres que tentam engravidar em até seis meses após o aborto têm melhores chances de fertilidade e taxas mais baixas de complicação em uma gravidez subsequente do que aquelas que esperam mais do que 24 meses.

Segundo o médico obstetra Julio Elito Jr., professor livre docente de obstetrícia da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), a fertilidade da mulher não é afetada após um aborto espontâneo que tenha ocorrido por causas genéticas ou de má formação do feto.

“É preciso verificar se o aborto não ocorreu por causa de alguma doença autoimune, alteração uterina, algum mioma. Se não foi por essas causas externas, em geral, o aborto ocorre uma única vez e é um evento que não interfere na fertilidade da mulher.”

Esperança renovada

Saber que o corpo é capaz de gerar uma nova vida pode ser um alívio para quem passou por essa situação de perda. Mas, além das condições físicas, é preciso que a mulher esteja também preparada psicologicamente para a nova gestação. “Digo que, quando as pacientes pegam o resultado do exame Beta HCG (usado para detectar a gestação), não enxergam ali apenas um bebê, mas já veem o diploma da faculdade. Por isso é tão difícil quando essa gestação é interrompida”, afirma o médico obstetra Ricardo Barini, professor titular de obstetrícia da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).

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O aborto espontâneo ocorre em cerca de 15% das gestações detectadas, de acordo com dados das Nações Unidas. É considerado aborto quando acontece antes de 22 semanas de gestação ou quando o bebê tem menos de 500 g.

Em 80% dos casos, os abortos ocorrem antes de 12 semanas e a grande causa é uma alteração cromossômica. “Ocorre uma seleção natural. Se o feto tem alguma síndrome, se há número de cromossomos a mais ou a menos, em geral, ele para de se desenvolver e daí ocorre o aborto”, afirma Julio Elito Jr.

Investigação

Depois de dois anos tentando engravidar de seu segundo filho, a microempresária Michelle Matos, de Ubatuba, São Paulo, comemorou a nova gestação. Mas, em um exame de ultrassom de rotina, recebeu a má notícia: o feto tinha parado de se desenvolver. “Nesse momento, fiquei sem chão”, conta.

Logo após a descoberta, ela teve uma forte hemorragia e dores intensas na barriga. Precisou ser internada rapidamente para fazer uma curetagem (raspagem do útero, feita sob anestesia). Como não havia outro local, internaram-na no mesmo quarto das gestantes.

“Eu me sentia fraca, triste e fragilizada. Estava lá sozinha, não tinha cobertura do plano para acompanhante. E, a cada criança que via nascer na maternidade, eu me sentia uma inútil por não ter conseguido segurar meu bebê.”

Por causa dessa sensação de incapacidade, comum entre mulheres que abortam, Ricardo Barini defende que o material coletado em procedimentos como curetagem e sucção (outra forma de retirar o feto sem vida) deva ser encaminhado para um diagnóstico genético.

“As pacientes ficam frustradas por não terem uma explicação para o aborto, e esse exame pode dar respostas. Ajuda inclusive a tirar a culpa que a mulher possa estar sentindo por ter tomado um café a mais ou ter feito muito exercício físico.” O exame que faz a análise cromossômica, Cariotipo, é autorizado pela ANS (Agência Nacional de Saúde), e muitos convênios dão cobertura.

Luto respeitado

Quando saiu do hospital, Michelle percebeu o quanto a primogênita também havia sofrido com a perda do irmão e a ausência da mãe e entrou em depressão por três meses. “Só melhorei quando conheci um grupo de gestantes na minha cidade, a Roda de Mães, e me senti acolhida. Pude falar sobre a dor que passei. Alguns meses depois, engravidei novamente e a gestação está indo muito bem”, fala Michelle, que está com 33 semanas de gestação.

Para a psicóloga Maria Júlia Kovács, coordenadora do Laboratório de Estudos sobre a Morte, do Instituto de Psicologia da USP (Universidade de São Paulo), é muito importante para a mulher que passa por essa situação ter o luto reconhecido.

“É necessário dar espaço para a tristeza, lidar com as culpas imaginadas. E o apoio familiar, de amigos e de profissionais é essencial nesse processo.”

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