Adolescência

Para proteger, pais têm de participar da vida digital do jovem

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Adolescente tem facilidade de lidar com tecnologia, o que não significa ter visão crítica imagem: Getty Images

Marina Oliveira e Suzel Tunes

Do UOL, em São Paulo

Um aplicativo que permite que os usuários postem fotos e frases anonimamente, dentro de uma rede social aberta, deu o que falar nos últimos dias. O Secret chegou às lojas virtuais brasileiras em maio, com o intuito de ser um ambiente seguro para pessoas interessadas em compartilhar segredos e dividir emoções. Nessas condições, mesmo sem se identificarem, elas poderiam receber apoio de outros usuários. No entanto, pouco tempo depois de seu lançamento, o aplicativo se tornou mais uma ferramenta para a prática do cyberbullying, o bullying virtual.

Muitos jovens têm usado o programa para trocarem ofensas, inclusive de cunho sexual. Foi a falta de controle sobre esse tipo de publicação que fez com que o Secret não pudesse mais ser baixado na App Store do Brasil, loja virtual da Apple para o iPhone. A ação foi movida pelo Ministério Público do Espírito Santo, que pediu também a retirada do aplicativo da Play Store, a loja do Google. Essa última, discordando da decisão judicial, ainda disponibilizava o programa nesta quarta-feira (27).

Para muitos pais, o Secret ainda é novidade. A prática do cyberbullying, no entanto, vem ganhando força nos últimos anos graças ao crescimento no número de adeptos de ambientes virtuais, nos quais é possível divulgar informações sem se identificar, como acontece com Facebook, Twitter e Tumblr.

“Já tínhamos esse mesmo problema em outras redes sociais, nas quais pessoas postam informações usando perfis falsos. Nesses ambientes, muitos se sentem seguros para praticar a violência, por conta do anonimato”, afirma Rodrigo Nejm, diretor de prevenção da SaferNet, instituição que defende os direitos humanos na internet.

Diante dessa realidade, os pais também devem estar preparados para orientar e dar suporte aos jovens. Para a psicóloga Maria Tereza Maldonado, autora do livro “Bullying e Cyberbullying - O que Fazemos com o que Fazem Conosco?” (Editora Moderna), o primeiro passo é entender que os recursos tecnológicos têm dois lados.

“A conexão com uma multiplicidade de pessoas abre possibilidades de trocar ideias, formar grupos de interesse, fazer trabalhos colaborativos e até de praticar o ativismo social. Porém, nessas mesmas redes, também se disseminam velozmente o preconceito e a intolerância com as diferenças”, fala. 

Um cuidado importante é que os responsáveis avaliem o grau de maturidade do filho para usar determinadas redes sociais, o que só é possível quando eles participam da vida digital do jovem. “Muitos pais supõem que a garotada domina tudo o que diz respeito à internet. Mas não se pode confundir a facilidade técnica com a capacidade crítica para discernir o que é brincadeira e o que é violência. Essa consciência tem de ser desenvolvida com a ajuda dos pais, mesmo que os mais velhos não sejam especialistas em informática”, diz Rodrigo Nejm. 

Diálogo franco

Para saber como os filhos estão lidando com suas relações virtuais, a aproximação deve ser natural. Ao ver que ele está usando um novo aplicativo, você pode pedir, por exemplo, que ele lhe mostre como funciona. Se identificar o uso inadequado de alguma ferramenta, seja porque o adolescente está se expondo demais ou porque está praticando violência contra os demais, o melhor a fazer não é banir imediatamente o uso, mas iniciar um diálogo franco, a fim de orientar o jovem.

“É fundamental que os pais conversem claramente sobre o uso responsável da tecnologia, sobre riscos e autoproteção”, diz a psicóloga Maria Tereza.

Se for o caso, vale ainda esclarecer que quem pratica cyberbullying arca com as consequências de seus atos, ainda que não tenha se tornado um adulto. “Na internet, as leis também valem e continuamos sendo responsáveis por tudo o que fazemos. A partir dos 12 anos, um jovem já responde na Justiça, com os pais, pela prática de cyberbullying”, diz o diretor de prevenção da SaferNet.

Reflexões úteis para o uso adequado desses recursos também podem surgir se os adultos se dispuserem a pesquisar, com os filhos, relatos de pessoas que sofreram ataques, perseguições e intimidações pela internet.

Em vez de proibir, faça acordos

Proibir não educa. Segundo os especialistas, o melhor mesmo é negociar o uso das tecnologias, desde que a criança começa a fazer suas primeiras experiências em ambientes digitais. Vale deixar claro que a liberdade do filho vai sempre existir, desde que ele se mostre responsável e cumpra as regras de uso estabelecidas na família.

Também é essencial que os responsáveis deem bons exemplos, especialmente quanto ao uso exagerado de computadores, tablets ou smartphones. “Crianças pequenas precisam ter limites firmes para o ‘tempo de tela’. À medida que crescem, podem aprender, gradualmente, a tomarem conta de si mesmas e, desse modo, ter cada vez mais acesso aos recursos da tecnologia”, diz a psicóloga.

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