Adolescência

Cirurgia de estômago tem de ser último recurso para jovem obeso

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A idade mínima para o adolescente poder fazer a cirurgia de estômago é 16 anos imagem: Getty Images

Catarina Arimatéia

Do UOL, em São Paulo

Segundo a última POF (Pesquisa de Orçamentos Familiares), publicada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a obesidade atinge 5,9% de garotos e 4% das garotas entre dez e 19 anos. Apesar de não serem recentes, os dados de 2010 refletem a realidade atual nos consultórios médicos: cada vez mais, os pais procuram ajuda profissional para reduzir o peso de seus filhos. Surge a pergunta: a cirurgia de redução de estômago na adolescência pode ser uma solução para o problema?

Segundo os especialistas, sim. Mas há restrições de idade e o procedimento só pode acontecer depois que outros meios de emagrecimento falharam.

“A primeira recomendação para combater a obesidade deve ser o tratamento clínico com a realização de reeducação alimentar, a adoção de hábitos saudáveis e a realização de exercícios físicos regulares. O passo seguinte é a associação de medicamentos que auxiliem na perda de peso”, declara Almino Ramos, presidente da SBCBM (Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica). Se essas medidas falharem, a alternativa mais eficaz é a cirurgia bariátrica e metabólica, segundo o médico.

“Cirurgia em adolescentes é a última opção”, concorda o professor João Luiz Azevedo, livre docente do departamento de cirurgia da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).

O especialista destaca que, atualmente, o procedimento leva mais em conta o equilíbrio do metabolismo do que a simples perda de peso. “O nome hoje é cirurgia bariátrica e metabólica, pois está cada vez mais voltada para o metabolismo. Essa operação faz com que diminua a produção do hormônio da fome, a grelina”, diz Azevedo.

Para o presidente da SBCBM, Almino Ramos, é importante deixar claro que o objetivo principal da cirurgia não é a perda de peso e, sim, a melhora no estado geral da saúde, com o controle de doenças como hipertensão, diabetes, dislipidemias (aumento de colesterol e de triglicérides), problemas ortopédicos e apneia do sono.

Idade mínima

Existem, ainda, outros problemas pouco divulgados que podem ser consequência da obesidade, principalmente da mórbida, seu grau mais elevado. “A obesidade mórbida interfere na configuração hormonal do adolescente. No sexo masculino, quando existe obesidade, a ação estrogênica é potencializada, podendo promover a feminilização corporal: crescimento de mamas, pênis diminuto, grande acúmulo de tecido adiposo. Nas mulheres, há a possibilidade de ovários policísticos, aumento do clitóris e de pelos. Há um desequilíbrio hormonal”, afirma João Luiz Azevedo, da Unifesp.

Depois que pais e paciente forem devidamente esclarecidos sobre o procedimento cirúrgico, há ainda outros dados a considerar. Pelas normas do Ministério da Saúde, a idade recomendada é a partir dos 16 anos. A preparação, segundo Almino Ramos, além do cirurgião, envolve também endocrinologista, cardiologista, nutricionista, nutrólogo, psicólogo e psiquiatra.

“Todos os adolescentes devem passar por uma rigorosa avaliação clínica, laboratorial, nutricional e, principalmente, psicológica antes de se decidir sobre a cirurgia. E os pais e responsáveis devem participar ativamente dessa decisão”, afirma o médico Alexander Morrell, titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica.

Para descobrir se o adolescente está apto a realizar a cirurgia, também é importante avaliar seu IMC (Índice de Massa Corporal). Para realizar o cálculo, é aplicada a fórmula da divisão do peso pela altura ao quadrado. De acordo com a resolução número 1942 do Conselho Federal de Medicina, a cirurgia é liberada apenas para pacientes com IMC igual ou maior do que 40, mas pode ser realizada em casos de IMC entre 35 e 40 desde que a pessoa já apresente problemas decorrentes do excesso de peso, como diabetes.

Depois da cirurgia

O pós-cirúrgico costuma ser tranquilo para os adultos, diz o médico João Luiz Azevedo, da Unifesp, mas nem sempre para os adolescentes, mais afoitos. “Eles operam em um dia e no outro querem ir embora. Só dou alta 48 horas depois”, conta.

Em geral, depois da cirurgia, a recomendação é ficar por volta de duas semanas de molho. “Até 15 dias, é preciso ter a reabilitação do mecanismo da glicose, que o próprio organismo ajuda a voltar ao normal. Depois desse período, libera-se o paciente aos poucos”, diz ele.

Porém, cada caso deve ser avaliado detalhadamente pela equipe multidisciplinar responsável pelo tratamento. Atenção especial deverá ser dada à alimentação e à suplementação alimentar para evitar problemas nutricionais. “Um acompanhamento pós-operatório mal realizado, por exemplo, pode causar um quadro de anemia. Entre os pacientes, as mulheres têm maior tendência ao problema, por causa perda de ferro pela menstruação”, explica Almino Ramos, presidente da SBCBM. A situação pode ser minimizada com a ingestão de alimentos ricos em ferro ou, se necessário, com a utilização de suplementos vitamínicos.
 
De acordo com ele, o suporte nutricional tem papel fundamental no acompanhamento do paciente. O profissional deverá prestar toda a orientação necessária para a dieta líquida pós-operatória, sua evolução para a pastosa e, finalmente, a transição definitiva para a alimentação normal. “O paciente deverá aprender a comer pouco e bem, várias vezes ao dia, e optar por alimentos pouco calóricos e com alto teor de vitaminas”, diz o presidente da SBCBM. A reeducação alimentar ajudará não só a perder peso, mas também a mantê-lo em níveis adequados por toda a vida. 
 
“O paciente não está proibido de consumir doces, refrigerantes e outras guloseimas de vez em quando, porém esses alimentos não devem fazer parte do dia a dia e a quantidade deve ser controlada. Prática regular de reeducação nutricional e atividade física são fundamentais para o sucesso da cirurgia”, diz ele.
 
Além do consumo de alimentos calóricos como doces e gorduras, os erros alimentares mais comuns depois da cirurgia são: comer rapidamente, não mastigar direito, tomar líquidos durante as refeições e consumir bebidas gasosas. Tudo isso leva ao aumento de pressão dentro do estômago e sua consequente dilatação. 
 
Há ainda outro item que não pode ser esquecido: o acompanhamento psicológico depois da cirurgia. “É necessário considerar o aparecimento de novos fatores de estresse após a cirurgia, como a ansiedade, o ciúme do parceiro ou da parceira, o desejo de liberdade. Além disso, o paciente pode criar expectativas que não serão atingidas com a perda de peso, simplesmente porque elas dizem respeito a certas frustrações e à imaturidade diante da vida”, afirma o médico Almino Ramos.
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