Infância

Menina de nove anos faz cupcakes para pagar curso de guitarra

Junior Lago/UOL
A menina Mariana Felício, que está fazendo cupcakes para pagar um curso de guitarra imagem: Junior Lago/UOL

Andrea Giusti

Do UOL, em São Paulo

Pais de crianças pequenas são alvos, quase que diariamente, de pedidos para que comprem isso ou aquilo. De acordo com a condição financeira de cada família, uns são atendidos e outros negados. Diante do não, há aquelas com espírito empreendedor que levantam a possibilidade de vender algo para conseguir o dinheiro necessário. Foi o que aconteceu na casa de Mariana Felício, 9 anos, e a situação foi encarada como uma oportunidade de ensinar noções de educação financeira à menina.

Apaixonada por bolos e decoração, Mariana passou a comercializar os cupcakes que fazia por hobby para custear as aulas de guitarra que tanto queria fazer. "Preparava para amigos e para a família, mas um monte de gente falava que era bom. Um dia, perguntei para a minha mãe se podia vender. Meus pais já tinham me dado a guitarra, mas ainda não podiam pagar o curso", conta a menina.

A mãe, a veterinária Maria Estrela Felício, recebeu a ideia com surpresa. "Ela tem nove anos e conseguiu entender que não é possível ter tudo, é preciso esforço. Fiquei feliz por ela enxergar isso e valorizar o trabalho", diz.

Após uma boa conversa sobre o planejamento, em poucos dias tudo estava pronto para iniciar as vendas. "Falei que íamos ajudar a colocar o projeto de pé, teríamos de vender 180 unidades por mês para chegar lá. Fiz uma página para ela nas redes sociais, tirei fotos, divulguei entre os meus clientes e amigos. Expliquei o que era e pedi que dessem essa chance a ela", fala.

"É um bom começo para que aprendam a ter noção do que fazer para ganhar dinheiro e quanto custa comprar algo", afirma Ana Merzel, coordenadora do serviço de psicologia do Hospital Israelita Albert Einstein, de São Paulo. 

Apesar de positivas, iniciativas assim requerem alguns cuidados. Os pais não podem dar ao projeto do filho status de trabalho, segundo Ana Paula Hornos, educadora financeira e autora do livro "Crise Financeira na Floresta" (Editora Scortecci). A atividade complementar precisa ter propósito educativo, ser realizada apenas em momentos de lazer e, principalmente, deve ser vista pela criança como diversão.

A atividade também fez com que mãe e filha passassem ainda mais tempo juntas. Estrela comanda as compras, as etapas na cozinha, o financeiro e as entregas, tudo sob o olhar atento da dona do negócio. "Ela toma as decisões dos ingredientes e põe a mão na massa, faz a decoração, enfeita. Claro que devagarzinho porque é uma criança. Tudo é uma grande brincadeira para ela, que já gostava de fazer e assim escolheu, sem obrigação."

Para não haver frustração, a criança precisa estar ciente desde o começo sobre a possibilidade de a ideia não dar certo. De acordo com a psicóloga Ana Merzel, a família deve estabelecer um trato caso isso aconteça. "Uma opção é combinar uma meta antes ou ainda no início do projeto. Se a criança estiver se esforçando, a mãe pode completar o valor se as vendas chegarem em 70% ou 80%, por exemplo. Mas o combinado serve para os dois lados, e o filho precisa fazer a parte dele, para que não fique sempre à espera de receber ajuda."

Os Cupcakes da Mari –nome do negócio– estão perto de completar o primeiro mês e, segundo os cálculos da mãe, o projeto vai alcançar o valor necessário para o objetivo final. "Ela parece ter entendido que, por mais que a gente se esforce, nem sempre sai como o planejado. Mas se faltasse pouco nesse primeiro mês, daria uma forcinha", fala Maria Estrela.

Mariana não só entendeu como planeja um futuro para a vida de empreendedora. "Depois pretendo vender para pagar outras coisas. Sempre quis viajar para Paris, meus pais já foram e agora também quero vender os bolinhos para conseguir isso", diz a menina.

Como participar do projeto

O projeto da criança pode ou não se tornar realidade, mas a simples mobilização para concretizar a ideia já traz benefícios para a família como um todo, aumentando o vínculo.

Junior Lago/UOL
Mariana Felício e a mãe, Maria Estrela, que supervisiona o "trabalho" da filha imagem: Junior Lago/UOL

"Incentive que a criança tenha sonhos e projetos próprios. Valorize e elogie a iniciativa. Sempre que seu filho vier com ideias e propostas, escute", afirma a orientadora financeira. Procure fazer perguntas que ajudem a viabilidade. Pesquise alternativas, mercado, custos, como será a divulgação e as vendas. Ensine-o a fazer contas e a planejar os resultados. Converse sobre a necessidade de o produto ser bem feito, ter persistência e responsabilidade para que todas as etapas caminhem da melhor forma. Os pais devem sempre supervisionar o trabalho e acompanhar o desenvolvimento.

"A Mari não tinha muita noção do dinheiro. Na cabeça dela, se vendesse dez cupcakes pagaria o curso. Expliquei que precisaria vender todos o meses para não parar no meio. Cuido do dinheiro, mas vou mostrando o que entra e o que sai para ela entender", fala Maria Estrela.

Topo