Infância

Criança só deve usar suplemento alimentar após avaliação criteriosa

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Estimulante de apetite é indicado só em casos de doença grave que afete a alimentação imagem: Getty Images

Ana Caroline Castro

Do UOL, em São Paulo

Na ânsia de verem os filhos pequenos comendo, alguns pais apelam para o uso de remédios que estimulam o apetite, muitas vezes sem a orientação do pediatra. “Praticamente não há recomendação médica para o uso de substâncias com esse fim. Eles são indicados apenas em casos de doenças graves que prejudicam a alimentação da criança”, afirma o pediatra e nutrólogo Carlos Nogueira, vice-presidente da Abran (Associação Brasileira de Nutrologia).

O pediatra e nutrólogo Mauro Fisberg, coordenador do Centro de Dificuldades Alimentares do Hospital Sabará, em São Paulo, ressalta que, como eles são medicamentos, a criança está sujeita a efeitos colaterais como sonolência, tontura, irritabilidade e dores abdominais.

“Esses estimulantes alimentares podem levar a um pequeno aumento de apetite, com efeito muito curto, mas não resolvem o problema. Nenhum remédio vai fazer a criança que não come verdura, carne, arroz, passar a comer”, fala o especialista.

Como "pseudoaliados" dos pais de crianças que não se alimentam direito, existem, ainda, os chamados fortificantes alimentares ou suplementos incompletos, produtos que agregam caloria aos alimentos. “O uso deve ser feito em casos específicos, em que é preciso ter um ganho calórico na alimentação da criança que ficou doente por um tempo, por exemplo. Mas essas fórmulas são desbalanceadas e, em geral, contêm muito açúcar”, diz Nogueira.

Quando há um diagnóstico correto de que a criança enfrenta uma dificuldade alimentar, que não come o suficiente e isso está acarretando problemas de saúde, o tratamento deve ser multidisciplinar. Uma avaliação psicológica, tanto da criança quanto dos pais, é necessária. E a utilização dos chamados suplementos completos é o mais indicado durante o tratamento. “Os suplementos completos são balanceados, têm quantidades corretas de vitaminas e de minerais. A sua ingestão pode melhorar a defesa imunológica da criança e garantir um consumo adequado de calorias e de micro e de macronutrientes”, declara Fisberg.


O nome suplemento já indica como deve ser o seu uso. “O suplemento nunca deve substituir uma refeição. Ele é um acréscimo. Mas a sua fórmula é completa para a necessidade da criança, sem o excesso de açúcar”, diz Nogueira.

Motivo orgânico ou comportamental?

Os melhores aliados das crianças com dificuldades alimentares devem ser os pais. “Supondo, por exemplo, que a criança esteja se negando a comer determinadas coisas por alguma razão. A forma com que os pais irão lidar com a recusa, a ansiedade relacionada e expressa no momento de comer, que atitudes tomarão, tudo isso pode ajudar ou reforçar ainda mais o problema. Muitas vezes, a ansiedade e as expectativas em relação aos bons hábitos alimentares podem resultar em distúrbios mais adiante”, afirma a psicóloga Lia Ades Gabbay, especialista em comportamento alimentar.

A motivação da criança que não come pode ser orgânica, decorrente de alguma dificuldade física ou alergia a algum alimento. Mas, muitas vezes, é resultado de problemas comportamentais, de maus hábitos ou de algum desajuste entre a expectativa dos pais e a real necessidade alimentar dela. É preciso levar em conta que o metabolismo e o ritmo de crescimento das crianças mudam muito, e com isso as necessidades calóricas se alteram.

“Até um ano, a criança, geralmente, come muito. Entre os dois e dez anos, há uma queda da relação caloria/quilo e a criança passa a ter acesso a outros alimentos disponíveis. Com isso, muitas mães acham que a quantidade de comida ingerida diminuiu e começa a se preocupar”, afirma o pediatra e nutrólogo Carlos Nogueira. Essa percepção dos pais pode, muitas vezes, levar a um diagnóstico errado de dificuldade alimentar.

Segundo um estudo realizado pelo Departamento de Nutrição, da Faculdade de Saúde Pública da USP (Universidade de São Paulo), o apetite das crianças entre dois e três anos não só diminui como se torna irregular. Um dia, ela aceita um alimento e, no outro, recusa, o que também gera ansiedade na família e nas pessoas responsáveis pelo seu cuidado.

Avaliação criteriosa

Fisberg, do Centro de Dificuldades Alimentares do Hospital Sabará, afirma que a percepção da família deve ser levada em conta, mas não pode ser a única indicação. “Se há uma reclamação dos pais que a criança come pouco, ou muito, o médico precisa iniciar uma investigação para checar se é uma situação real.”

No centro, verifica-se se a criança está com crescimento adequado, se dorme bem, qual a quantidade de urina, se evacua regularmente, se está mais irritada. Também como é a rotina alimentar da família, como os alimentos são oferecidos”, diz o especialista. Além disso, são realizados exames laboratoriais para avaliar os nutrientes e se a criança apresenta alguma deficiência, como falta de ferro. Só depois de uma análise completa é que se chega a necessidade ou não de algum tipo de suplementação.

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