Adolescência

Moda entre adolescentes, aparelho falso pode levar à perda de dentes

Arquivo Pessoal
Renê colocou o aparelho em um dentista, mas há dois anos não vai a uma consulta imagem: Arquivo Pessoal

Simone Cunha e Thaís Macena

Do UOL, em São Paulo

Nos fins de semana, Renê Ferreira, 19 anos, de São Paulo, tem um cuidado todo especial ao se preparar para uma balada. Além de escolher roupa e calçado de acordo com a ocasião, ele ainda investe tempo para separar e trocar as borrachinhas do aparelho ortodôntico que usa, de modo que eles combinem com o restante da produção.

O aparelho foi colocado em um dentista há mais de dois anos, mas Renê nunca voltou ao consultório para dar continuidade ao tratamento. Seu objetivo, ao instalar os bráquetes (peças fixadas nos dentes), era apenas o de incrementar o visual. “Compro as borrachinhas no centro da cidade e procuro combiná-las com a roupa que vou usar na balada. Na minha idade, é normal querer se destacar”, diz o rapaz.

Renê não tem o menor receio de que a moda estrague os seus dentes, mas deveria. “Na ortodontia, todos os itens são muito sensíveis. Um aparelho manipulado por leigos pode provocar danos irreversíveis”, afirma Claudio Miyake, presidente do CROSP (Conselho Regional de Odontologia de São Paulo).

Para começar, os aparelhos usados apenas com finalidade estética podem levar a um desequilíbrio na postura dos dentes, afetando, inclusive, a mastigação. “A utilização dos chamados aparelhos falsos aumenta os riscos de perda óssea, pode provocar a movimentação incorreta dos dentes e até a perda total deles”, declara a cirurgiã-dentista Renata Rebuffo.

Outro problema é a procedência dos materiais utilizados nesses aparelhos. Segundo Miyake, a fiscalização flagrou a comercialização de fios falsos criados com cerdas de vassouras, cobre e outros itens impróprios, que podem potencializar os danos à saúde. Também já foram encontrados em ambulantes elásticos adquiridos em lojas de artigos dentários. Por isso, o Conselho luta para que seja sancionada uma lei proibindo a venda indiscriminada de produtos odontológicos em casas especializadas ou mesmo pela internet.

“É preciso regulamentar o mercado para que os materiais sejam comprados apenas por profissionais da área”, diz Miyake.

A maneira como é feita a instalação, muitas vezes no meio da rua, sem qualquer cuidado com a higiene, é mais um fator agravante para o problema. “Os materiais utilizados em consultórios odontológicos são esterilizados em autoclaves, aparelhos próprios que aquecem os itens  a uma temperatura elevada, para matar os diversos microrganismos que possam contaminar o paciente”, explica Renata.

Entre os leigos, esse tipo de precaução simplesmente não existe. O que só aumenta os riscos. “A contaminação pode acontecer por meio de saliva ou sangue, e há chances de contrair hepatite ou até mesmo HIV durante um procedimento como esse”, fala a dentista.

A colagem dos bráquetes com supercola também preocupa os especialistas. “Esse tipo de produto é tóxico, corrosivo e pode danificar o esmalte dos dentes”, diz Jorge Abrão, professor associado do Departamento de Ortodontia e Odontopediatria da Faculdade de Odontologia da USP (Universidade de São Paulo).

Autoestima

Com a autorização da mãe, J.F., 14 anos, de Salvador, instalou o acessório na rua e, em casa, troca as borrachinhas. “Coloquei por esporte, paguei R$ 40”, conta.

Para a psicóloga Elizabeth Monteiro, autora do livro “Criando Adolescentes em Tempos Difíceis” (Summus Editorial), o aparelho ortodôntico virou um acessório de moda. “Estamos vivendo em uma sociedade em que é preciso ter para estar inserido em determinados grupos e, nesse caso, o jovem entra na onda para se sentir aceito.”

Elizabeth comenta que o adolescente que tem autoestima elevada não costuma aderir a tais modismos e que cabe à família oferecer estrutura, desde a infância, para que a criança se desenvolva sentindo-se amada e segura. Assim, ela terá facilidade para dizer “não” em situações como essa.

“A utilização desses aparelhos falsos é um comportamento nocivo. É preciso que os pais fiquem atentos. Pode ser que, mais tarde, esses jovens se deixem influenciar por práticas ainda mais perigosas, colocando a própria vida em risco”, afirma.

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