Gestação

Conheça a despedida da barriga, ritual para quem está prestes a parir

Ana Caroline Castro

Do UOL, em São Paulo

As mulheres no final da gravidez contam com uma nova forma de vivenciar esse momento: é a despedida de barriga. Muitos espaços que trabalham com gestantes estão oferecendo um ritual para esse período de passagem. Com formatos diversos, a despedida de barriga tem algo em comum: oferecer acolhimento para a grávida, concretizar o fim da gestação e prepará-la para o parto e o pós-parto.

Jéssica Nunes é parteira há oito anos e dá aulas de ioga para o parto no Espaço Florescer, em São Paulo. Ela conta que entrou em contato com o rito quando foi ao Nordeste conhecer parteiras tradicionais da região.

“Lá cada parteira faz à sua maneira, mas, quando a mulher vai parir, a comunidade reconhece que esse ciclo está acabando e acolhe essa gestante.”
A despedida que ela organiza acontece uma vez por mês, é gratuita e aberta para quem quiser participar. Faz parte do grupo Aurora, uma comunidade presencial e virtual, de famílias e mulheres que se apoiam mutuamente. 

“É difícil descrever o ritual em palavras, apesar de ser bem simples. A grávida deita no chão, todas as pessoas presentes colocam as mãos nela. Quem coloca as mãos na barriga é o marido e os outros filhos, caso já tiver. Cada pessoa diz palavras de poder: amor, coragem, força. Cantamos músicas para embalá-la, para que ela se sinta protegida pelo grupo e cuidada. É para ela saber que tem uma rede com ela. No final, damos um salve para a mãe e para o bebê, e jogamos pétalas de rosa”, explica Jéssica.

No Casita, um espaço de convivência para mães, pais, filhos e familiares em Santo André, no Grande ABC, o rito da despedida da barriga acontece desde o começo de 2014.

Apoio emocional

“É uma mistura de chá de benção e a prática do ‘ultrassom ecológico’, um desenho na barriga da gestante em que ela visualiza como está seu bebê”, diz Carla Capuano, proprietária do espaço.


A doula Amanda Mesquita é quem conduz o rito. “A primeira parte é uma conversa com a mulher. Queremos ouvi-la sobre a sua expectativa para o parto, sobre seus medos e ansiedades. Depois explicamos que o rito de passagem é o momento emocional, a hora que a gestante tem para olhar para seu corpo e começar a se despedir da barriga e de tudo o que viveu na gravidez”, fala Amanda.

Beatriz Helena Engels está grávida de seu segundo filho, com 39 semanas de gestação. Ela conta que a sua primeira filha Isis, hoje com 15 anos, nasceu de cesárea e que ela sofreu muito. “Foi desagradável, dolorido. O primeiro banho não fui eu quem deu, mal podia pegá-la no colo. Agora desejo um parto normal e, com o final da gravidez, decidi fazer esse ritual para marcar esse momento. Para dizer para meu filho que já estou preparada para recebê-lo”, comenta Beatriz, que participou do ritual com a filha.

O passo seguinte do rito é quando a doula ensina a quem veio junto com a gestante –pode ser marido, companheira, a mãe, filhos– a como ajudá-la a aliviar a dor na hora do trabalho de parto.

“Explico como o corpo age nesse momento e ensino a fazer massagem, as posições, quais exercícios auxiliam a mulher a lidar com a dor do trabalho de parto”, afirma Amanda.

Na parte final, com a sala iluminada apenas por velas, Amanda lê um texto especial para a grávida, que permanece abraçada por seus familiares. E então começa o ultrassom ecológico. “Sinto o bebê na barriga e desenho conforme a posição em que ele se encontra. E depois fazemos um carimbo com papel seda, assim a mulher pode guardar”, finaliza a doula.

Técnicas de alívio da dor

O costume é fazer o rito após 37 semanas de gestação. Isso porque acredita-se que ele funciona tão bem como despedida que muitas gestantes entram em trabalho de parto logo após participarem. Foi o que aconteceu com a arquiteta Mônica Boulle Matrai, que participou no Casita.

“Estava com 38 semanas de gestação e achei que seria interessante ter um momento com meu marido de despedida da fase da gravidez e de boas-vindas ao nosso filho, como uma preparação emocional”, conta Mônica. Na manhã seguinte, ela entrou em trabalho de parto. “Pude fazer os movimentos que tinha aprendido na noite anterior para amenizar a dor e ajudar na evolução do parto. Além disso, no ritual, encarei meus medos de frente, dei um fim para eles e me senti pronta para a tão esperada hora.”

A professora de ioga para parto e doula Gisele Ross também conduz um ritual de despedida de barriga, chamado carinhosamente de Colo, no GAM YOGA, em São Paulo. Ela explica que esse é um ritual importante para a família inteira, pois ajuda a todos nessa despedida.

O ritual é aberto ao público em geral e é gratuito. A mulher que recebe o colo, depois que o filho nasce, retorna ao GAM e tem a oportunidade de contar como foi a sua experiência para as novas gestantes.

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