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Alergia e intolerância ao leite são diferentes; entenda

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Intolerância à lactose ou alergia ao leite de vaca requerem tratamentos diferentes imagem: Getty Images

Rita Trevisan e Suzel Tunes

Do UOL, em São Paulo

O leite é alimento vital nos primeiros anos de vida. Mas, para alguns bebês, é causa de muito desconforto e de problemas de saúde mais sérios. Inchaço abdominal, cólica, vômitos, diarreia, coceira, problemas respiratórios e até o temido choque anafilático –potencialmente fatal– estão na lista de possíveis reações adversas ao consumo desse alimento. Só que alguns desses sintomas podem ser comuns a duas condições clínicas distintas: a intolerância à lactose e a alergia às proteínas do leite de vaca. E é aí que começa a confusão, pois cada quadro requer um tratamento médico diferente.

Os dois problemas surgem, geralmente, depois que o aleitamento materno deixa de ser exclusivo. Na população em geral, o problema mais comum é a intolerância, que é a dificuldade ou incapacidade de digerir a lactose, o açúcar predominante no leite de vaca.

“A incidência da intolerância à lactose, no Brasil, chega a 44,11% da população. Na faixa etária de zero a dez anos, a incidência é de até 23,7%”, afirma o gastroenterologista Renato Simão, especialista em cirurgia do aparelho digestivo do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo, citando dados de um estudo realizado, em 2004, por pesquisadores da Univille, Universidade da Região de Joinville.

Já a incidência de alergia à proteína do leite de vaca é de 2,2% da população, segundo estudo, de 2005, conduzido por pesquisadores do Departamento de Pediatria da PUC (Pontifícia Universidade Católica) do Rio Grande do Sul.

Quem sofre de intolerância tem carência da enzima lactase. Como consequência, a lactose não é digerida e se acumula no intestino, onde é fermentada. “Por isso, na intolerância à lactose, os sintomas são exclusivamente gastrointestinais”, diz a alergista Ana Paula Moschione Castro, diretora da Asbai (Associação Brasileira de Alergia e Imunologia).

Sistema imunológico

A alergia ao leite de vaca também pode ter sintomas gastrointestinais, mas a doença, geralmente, vai além desses incômodos. Nesse caso, o que existe é uma reação do sistema imunológico à proteína do leite.

“As manifestações de alergia são extremamente variadas: podem ocorrer sintomas intestinais, como diarreia e vômitos, mas também quadros de pele, como inchaço e urticária, sintomas respiratórios (respiração difícil, chiado no peito etc.) e até a temida anafilaxia (reação alérgica severa)”, diz Ana Paula.

Quem sofre dessa alergia pode ter reações mesmo quando não toma leite. Qualquer alimento que contiver proteína de leite (biscoito, bolo e alimentos salgados, como sopas e molhos) pode deflagrar o quadro alérgico.

O bebê alérgico sob aleitamento exclusivo também pode ter reações caso sua mãe consuma leite ou derivados, pois as proteínas do leite de vaca passam para o leite materno. No caso da intolerância, reações ao leite materno são muito raras. “Apesar de o leite materno ser rico em lactose, ele possui agentes facilitadores que auxiliam sua digestão. O leite materno deve ser sempre o principal alimento oferecido ao bebê”, fala a nutricionista Renata Pinotti, mestre em nutrição humana aplicada pela USP (Universidade de São Paulo) e autora do livro "Guia do Bebê e da Criança com Alergia ao Leite de Vaca" (Editora AC Farmacêutica).

Atenção aos cosméticos

Diante de suspeita de intolerância ou alergia, o primeiro passo é levar a criança ao pediatra. O médico poderá avaliar sintomas e solicitar exames específicos ou encaminhar a especialistas, quando preciso.

“É necessária uma completa avaliação clínica e há exames de sangue para ambas as doenças, assim como teste na pele para os casos de alergia. Mas vale ressaltar que nenhum exame é absoluto, e sempre a palavra do médico que acompanha o caso é que deve ser considerada”, diz a alergista Ana Paula.

Na alergia à proteína do leite de vaca, a primeira conduta é afastar leite e derivados da dieta da criança, explica a médica. “Caso o bebê apresente sintomas após ser amamentado pela mãe, ela também deverá fazer uma dieta sem leite. Em crianças já desmamadas, o leite de vaca pode ser substituído por fórmulas especializadas”, diz a nutricionista Renata.  E, para compensar a falta do leite, a criança deve receber uma suplementação de cálcio, também sob orientação médica.

A alergista adverte que a família deve estar bastante atenta na hora da compra de produtos industrializados, pois algumas crianças são alérgicas até a traços de leite, que os rótulos devem indicar. “É muito importante ter em mente que medicamentos e cosméticos também podem conter leite”, diz Ana Paula.

Segundo a alergista, em algumas situações, a dessensibilização pode ser uma alternativa de tratamento. “Trata-se da exposição controlada ao elemento que provoca alergia, sob rigoroso controle médico.”

Ana Paula sugere ainda que toda a família seja conscientizada sobre a importância do tratamento e que todos os que cuidam da criança recebam avisos sobre as restrições alimentares que deverão ser observadas. Esse cuidado é especialmente importante na fase em que a criança ingressa na creche ou escola. Mas pais e professores não devem amedrontar, superproteger ou excluir a criança alérgica do convívio com os amigos.

“Sempre que houver alguma comemoração, por exemplo, os pais devem ser avisados com antecedência para que possam levar um ‘kit festa’, com opções similares às que serão oferecidas no dia e, assim, evitar situações de exclusão. O mesmo vale para as guloseimas oferecidas como lembrancinhas”, diz a nutricionista Renata.

A convivência com a alergia à proteína do leite pode ser trabalhosa, mas, na maioria dos casos, é temporária. Segundo a alergista da ASBAI, boa parte das crianças supera essa alergia quando chega aos três ou quatro anos. 

Leite sem lactose

A intolerância à lactose em crianças também tende a ser passageira. Isso porque, quando esse problema surge em bebês com menos de um ano, a origem é, geralmente, uma diminuição temporária da enzima lactase, provocada por alguma doença intestinal –uma diarreia prolongada, por exemplo–, que afeta a produção da enzima. Então, assim que o intestino se recupera, a tendência é o problema desaparecer.

“A intolerância verdadeira, ou a incapacidade genética de produzir lactase, é muito rara”, afirma a alergista Ana Paula.

Por isso, na população em geral, é mais comum encontrar adultos do que crianças com o problema, pois, com o avançar da idade, o organismo tende, naturalmente, a produzir menos lactase. Para os adultos que sofrem desconforto com o consumo de leite e derivados, existe a possibilidade de ingestão da enzima lactase (vendida em farmácia), 30 minutos antes da refeição. Já o tratamento de bebês com intolerância resume-se, normalmente, a evitar produtos com lactose.

Em alguns casos, a criança pode consumir pequenas doses de lactose sem problemas. Algumas toleram massas ou bolos preparados com leite, devido à baixa quantidade por porção. Derivados de leite, como queijos e iogurtes, também podem ser tolerados, pois, durante o processo de fermentação, as bactérias consomem esse açúcar para se proliferarem, reduzindo a quantidade de lactose no alimento.

“Quanto mais fresco for o queijo e o iogurte, maior é a quantidade de lactose. Portanto, os queijos curados e envelhecidos possuem uma quantidade menor desse açúcar”, diz a nutricionista Renata Pinotti.

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