Adolescência

Entidade apoia DIU e implante para evitar gravidez na adolescência

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A Academia Americana de Pediatria passou a indicar contraceptivos de longa duração imagem: Getty Images

Rita Trevisan e Suzel Tunes

Do UOL, em São Paulo

Para combater a gravidez precoce, problema de saúde pública não só no Brasil, em outubro deste ano, a AAP (Academia Americana de Pediatria), instituição de referência para médicos do mundo todo, lançou um documento recomendando a utilização de métodos contraceptivos de longa duração para adolescentes. De acordo com as recomendações da entidade, o DIU (dispositivo intrauterino) e o implante subcutâneo (colocado, geralmente, sob a pele do braço) devem ser considerados as primeiras opções de anticoncepcionais para adolescentes que iniciaram a vida sexual.

Especialistas ouvidos por UOL Gravidez e Filhos são favoráveis à orientação da APP, mas frisam que o uso dessas formas de contracepção não substituem a camisinha, que é o único método eficaz de prevenção às DSTs (Doenças Sexualmente Transmissíveis). A orientação sobre a barreira mecânica torna-se ainda mais importante diante de novos números sobre a Aids. Segundo levantamento da Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo, os casos da doença, entre jovens entre 15 e 24 anos, aumentaram 21,5% nos últimos sete anos.

 "Todos esses métodos (os de longa duração) devem ser associados ao uso do preservativo", afirma Lúcia Costa-Paiva, professora de ginecologia da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp (Universidade de Campinas).

Segundo a ginecologista Lúcia Costa-Paiva, o documento da Academia Americana dá mais respaldo à prescrição desses contraceptivos às adolescentes, contribuindo para a eliminação de possíveis resistências entre pacientes, familiares e até entre médicos.

Aos pais preocupados que o anticoncepcional de longa duração possa fazer com que a filha esqueça a camisinha, a psicóloga Camila Aloisio Alves, doutora em saúde da criança e da mulher, faz um alerta. Para ela, o abandono do preservativo costuma ocorrer –de forma equivocada– quando a relação se torna mais estável

Gravidez precoce

No Brasil, em 2012, 536 mil jovens –com menos de 20 anos– tornaram-se mães no país. Segundo dados do Sinasc (Sistema Nacional de Nascidos Vivos), do Ministério da Saúde, em 2004, o índice de nascimentos foi de 8,6 por grupo de mil adolescentes menores de 15 anos. Cinco anos mais tarde, a taxa estava em 9,6 por mil.

A principal vantagem desses métodos é a segurança que eles dão em uma fase em que distrações são frequentes. O implante subcutâneo pode ser usado por três anos e o DIU de progesterona, por cinco. Já a pílula precisa ser administrada todos os dias. 

O preconceito contra métodos de longa duração ainda influencia muito as discussões sobre o tema. “A gravidez não planejada na adolescência é causa de abandono escolar, depressão, perpetuação da pobreza e mortes por abortos clandestinos. Mas ainda encontramos pessoas que acreditam que conversar sobre sexualidade ‘aguça a curiosidade’ e ‘estimula o sexo’. E só mudaremos a triste realidade de muitas meninas no Brasil se trouxermos informações corretas ao público”, afirma a ginecologista Karine Ferreira, integrante do Núcleo de Saúde do Adolescente do Hospital das Clínicas da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais).

Com a ajuda de Karine e de outros especialistas, o UOL Gravidez e Filhos responde as principais dúvidas sobre o assunto:

1 - Como agem os contraceptivos de longa duração recomendados às adolescentes?

O implante subcutâneo é um microbastão de quatro centímetros de comprimento, que contém um tipo sintético de progesterona (hormônio). “Ele libera a substância gradativamente, em quantidade diária semelhante à existente na pílula anticoncepcional, inibindo a ovulação”, explica a ginecologista Carolina Carvalho Ambrogini, coordenadora do Projeto Afrodite do Departamento de Ginecologia da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). O implante age durante três anos, período durante o qual a menina não menstrua.

O DIU hormonal (também chamado de SIU, sistema intrauterino) é um dispositivo plástico em forma de T, revestido de um hormônio similar à progesterona, que é liberado em pequenas doses, diretamente na cavidade uterina, ao longo de cinco anos. Deixando o endométrio mais fino, ele dificulta a fecundação e impede a fixação do óvulo. Em geral, também provoca a interrupção da menstruação ou uma diminuição significativa do fluxo.

Dentre os métodos de longa duração existe ainda o DIU de cobre, que pode durar até dez anos. O cobre tem ação espermicida e impede a fertilização do óvulo. Esse dispositivo, entretanto, não costuma ser indicado a adolescentes, especialmente às que apresentam comportamento de risco a DSTs.

Segundo a ginecologista Lúcia Costa-Paiva, ao contrário do DIU hormonal, que ao tornar o endométrio mais fino, dificulta, também, a sobrevivência de micro-organismos, o de cobre aumenta o risco de infecção pélvica. “Todos esses métodos devem ser associados ao uso do preservativo, mas essa preocupação é ainda maior quando se usa o dispositivo de cobre”, fala a especialista.

2 - Como eles são implantados?

Tanto a aplicação do implante quanto do dispositivo intrauterino são processos feitos no consultório do ginecologista. “A aplicação do implante é feita com uma pequena incisão no braço, com anestesia local. Não precisa dar ponto”, diz Lúcia. Ao final de três anos, ele é retirado pela mesma incisão.

Já para a colocação do DIU, é preciso dar uma anestesia local, no colo do útero.

3 - Qualquer menina pode utilizar esses métodos?

Todos os métodos anticoncepcionais podem ser usados por adolescentes saudáveis a partir da primeira menstruação. O DIU, no entanto, é recomendado para meninas que já iniciaram a vida sexual. “Mas é importante lembrar que, ao contrário do que se imaginava muitos anos atrás, a adolescente que ainda não teve filhos pode usar o DIU”, diz a ginecologista Karine Ferreira.

A escolha deverá ser feita após a consulta e a realização de exames. A conversa com o médico pode, inclusive, ser sigilosa. “A adolescente deve receber explicações sobre todos os métodos anticoncepcionais disponíveis e é ela, com a ajuda e a orientação do profissional de saúde, quem deve escolher o que usar”, afirma Karine.

4 - Eles são seguros? Podem ter efeitos colaterais?

Todo tipo de medicação pode ter efeitos colaterais, mas, no caso dos contraceptivos de longa duração, eles são raros, segundo a ginecologista Karine. O efeito adverso mais comum, tanto do implante quanto do DIU, é a possibilidade de sangramento uterino irregular, o chamado “escape” –que não compromete a eficácia do método.

E, segundo Carolina Ambrogini, mesmo quando ocorre algum sangramento imprevisto, o melhor a fazer é um acompanhamento por, pelo menos, seis meses, antes de optar pela retirada. “Sempre existe uma taxa de rejeição. Pela minha experiência clínica, de cada dez pessoas que usam, uma pode não se adaptar ao método.”

Garotas que sofrem com acne também podem não se dar bem trocando a pílula anticoncepcional pelo implante. Isso porque algumas pílulas (que combinam estrogênio e progesterona) ajudam a diminuir as espinhas, ao contrário do implante (que só tem progesterona).

5 - Eles são muito caros? É possível obtê-los em postos de saúde?

O implante subcutâneo e o DIU hormonal custam em torno de R$ 800 e não estão disponíveis na rede pública de saúde. Nas unidades de saúde, é possível obter apenas a pílula e o anticoncepcional injetável.

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