Gravidez e filhos

Mães criam espaço onde é possível trabalhar e cuidar dos filhos

Reinaldo Canato/UOL
Da esq. para a dir., Carina com Clara (no colo) e Brigitte, e Fernanda com Lívia e Theo imagem: Reinaldo Canato/UOL

Andrezza Czech

Do UOL, em São Paulo

Depois das férias de julho de 2013, a tradutora Carina Lucindo Borrego, hoje com 36 anos, decidiu que não queria mais voltar ao trabalho. Mãe de Brigitte, hoje com sete anos, Carina trabalhava em um escritório de advocacia e deixava a filha na escola quase 12 horas por dia quando decidiu que sua vida precisava de uma grande mudança.

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Foi, então, que surgiu a ideia de criar a Casa de Viver, primeiro espaço de “coworking” (palavra em inglês que define um modelo de trabalho em que pessoas, que trabalham em diferentes funções e para variadas empresas, compartilham espaço e recursos de escritório) de São Paulo, no qual pais podem trabalhar ao lado dos filhos.

Em seu último dia de trabalho, no início de 2014, Carina descobriu que estava grávida de Clara, hoje com seis meses. “Passei o ano passado gestando minha filha e o projeto. Joguei a ideia em grupos de mães no Facebook e comecei a fazer reuniões e cafés com mães empreendedoras”, conta.

Em um desses eventos, ela conheceu a psicóloga Fernanda Santiago Torres, 36, que havia deixado um emprego de 12 anos como administradora em uma agência de eventos para conseguir se dedicar mais à maternidade. Fernanda pediu demissão logo que sua filha, Lívia, hoje com cinco anos, completou um ano. “Quando ela nasceu, tive de desconstruir muita coisa dentro de mim. Aquela vida não me cabia mais”, diz.

A solução foi abrir uma agência de eventos com a irmã e trabalhar em casa por um tempo, contando com a ajuda de uma babá até Lívia completar três anos e ir para a escola. “Em vários momentos, eu me questionei se era uma situação saudável”, fala Fernanda. Quando ela descobriu estar grávida de Theo, hoje com dez meses, soube da iniciativa da Casa de Viver e logo começou a participar das reuniões. “Nessa época, trabalhava em um espaço de ‘coworking’ na minha agência, mas nunca tinha imaginado um lugar no qual meus filhos pudessem estar comigo.”

O projeto se concretizou depois que Carina e Fernanda foram visitar a casa da Vila Mariana, bairro da zona sul de São Paulo, que hoje abriga a Casa de Viver. Nesse dia, conheceram outra interessada na iniciativa, a engenheira Thaty Garcia Annechini, 40, mãe de Luísa, 6, e de Danilo, 3. Do encontro, surgiu uma sociedade para começar o negócio e a ideia da campanha de financiamento coletivo para ajudar a mobiliar o espaço.

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Como funciona

Atualmente, sete mães trabalham na Casa de Viver, inaugurada em 9 de fevereiro –ainda não há pais que utilizam o espaço de “coworking”, mas alguns já mostraram interesse. Para utilizar o espaço, é preciso fechar um pacote: cinco horas de “coworking” custam R$ 50, e a mensalidade para usar a casa oito horas por dia é de R$ 950.

As mães trabalham no andar de baixo da casa, onde há um salão com bancadas, impressora, telefone e internet, além de uma cozinha e um quintal para relaxar. Já os filhos ficam no andar de cima, onde há salas com brinquedos educativos, outra cozinha e um terraço com horta para as crianças, que são supervisionadas o tempo todo por duas cuidadoras –o número de profissionais aumenta quando há eventos no local.

Há também um espaço de convivência, com pufes e mesas, e uma sala de reuniões para quem precisa receber clientes. O espaço também tem uma sala de atendimento, que é alugada para profissionais como psicólogos e massagistas, e uma de oficinas, que recebe atividades como ioga, dança terapia e meditação, cursos que têm descontos para quem utiliza o espaço para trabalhar.

Um local como esse ainda é novidade no Brasil, mas, no exterior, já existem alguns empreendimentos bem-sucedidos. No final de 2012, foi aberto em Milão o Piano C, primeiro espaço de “coworking” familiar da Itália.

No ano seguinte, outra iniciativa como essa foi inaugurada em Mestre, cidade próxima à Veneza, o Lab Altobello. No mesmo ano, nos Estados Unidos, a rede NextSpace Coworking passou a ter, em algumas unidades, a opção NextKids, espaço no qual as crianças são bem-vindas.

Espaço alternativo

A Casa do Brincar, em Pinheiros, na zona oeste da capital paulista, não é um empreendimento voltado para o “coworking” familiar, mas permite que pais de filhos matriculados em atividades do local possam usar a casa para trabalhar. O espaço, que tem como objetivo oferecer brincadeiras educacionais para crianças de zero a seis anos, também surgiu graças a uma necessidade de uma mãe de ficar próxima de sua filha.

Luciane Motta, 40, diretora-executiva do empreendimento, trabalhava com comunicação interna quando Valentina, hoje com seis anos, nasceu. “Com uma criança no colo, não fazia mais sentido sair às 6h e só voltar às 21h para casa.”

“Achava incrível trabalhar para uma multinacional e todas as competições internas do trabalho. Era muito satisfatório, mas, como mãe, você passa a questionar qual o mundo que você pode construir para os filhos.”

Foi, então, que ela começou a pesquisar opções para ficar ao lado da menina e acabou criando, há cinco anos, a Casa do Brincar. “É um espaço para que pais profissionais liberais tenham onde deixar o filho quando precisam atender a um cliente ou ir a uma reunião.” Hoje, mais de cem crianças por mês passam pelas atividades da casa.

Luciane começou a observar que muitas pessoas levavam os filhos para brincar e, quando tinham uma brecha, aproveitavam para abrir o computador e trabalhar. Por isso, hoje, a sala de reuniões e os demais ambientes da casa são usados pelos pais gratuitamente, enquanto os filhos participam de atividades educacionais.

Seguir com a vida profissional e ter os filhos por perto é uma combinação que traz muita satisfação para pais e mães. Carina se lembra de como sofreu ao ter de voltar ao trabalho depois da licença-maternidade, quando Brigitte tinha apenas quatro meses. “Chorava no banheiro do trabalho”, diz.

Para Fernanda, o espaço de “coworking” é positivo também para o desenvolvimento do filho, que já interage com outras crianças. “Se o Theo está mais irritado, fico brincando com ele até que se acalme e só depois desço para trabalhar. É muito mais saudável do que ir para a escola. Sair de casa para trabalhar e chegar a um espaço onde sei que posso vê-lo quando quiser é incrível”, afirma.

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