Gravidez e filhos

Expor castigo na web não evita mau comportamento e pode gerar revolta

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Pai publica vídeo cortando o cabelo do filho, pois ele foi mal na escola imagem: Reprodução

Thamires Andrade

Do UOL, em São Paulo

 

Pais americanos vêm usando as redes sociais para publicar vídeos em que mostram os castigos dados aos filhos. Um pai, por exemplo, cortou o cabelo do filho adolescente, deixando falhas no couro cabeludo, por ele ter tirado notas ruins. Em outro vídeo, uma  mãe fez com que a filha carregasse um cartaz pela rua dizendo que ela não é obediente. No Brasil, ainda há poucos pais adotando esse tipo de atitude e, segundo especialistas ouvidos pelo UOL Gravidez e Filhos, é melhor que continue assim.

As crianças e adolescentes devem ser corrigidos por seus erros, claro, mas sem serem expostos ou humilhados, muito menos publicamente. Além de inadequado do ponto de vista educacional, a conduta é passível de sanções legais contra os adultos previstas na chamada Lei da Palmada.

De acordo com a psicopedagoga e presidente da ABPp (Associação Brasileira de Psicopedagogia), Luciana Barros de Almeida, publicar os castigos na internet pode ser muito prejudicial para o desenvolvimento da subjetividade da criança. "O erro faz parte do processo de aprendizagem. Ao expor isso, a criança ficará em uma situação de vexame, que em nada vai contribuir para seu desenvolvimento socioemocional e tampouco para que ela entenda que o comportamento que teve é inadequado", afirma.

A criança ou adolescente também pode desenvolver problemas de autoestima. "Quando a pessoa é humilhada, ela fica se sentindo inferior. Se esse castigo for constante, a criança ou o jovem pode se tornar vítima de bullying, pois dá chance para que outras pessoas quaisquer as humilhem", diz Ana Cássia Maturano, psicóloga e psicopedagoga clínica, coautora do livro "Puericultura - Princípios e Práticas" (Editora Atheneu).

Pode ser até que, em um primeiro momento, a atitude dos pais tenha efeito corretivo. Para se protegerem de serem humilhadas novamente, as crianças deixam de repetir o comportamento que gerou o castigo, mas os prejuízos podem aparecer depois, no longo prazo, segundo Ana Cássia. "Essa exposição vai provocar raiva em relação aos pais. Isso gera um ciclo vicioso: a criança não respeita os pais, pois eles lhe faltaram com o respeito ao tornarem o castigo público e assim por diante", fala a psicóloga. O inverso também pode ocorrer: se o jovem for rebelde, do tipo enfrentador, vai reagir com comportamentos ainda piores, por se sentir incompreendido.

Há, inclusive, a possibilidade de a criança ou de o jovem assumir um comportamento violento. “O filho armazena os sentimentos de hostilidade com os quais foi tratado e se volta furiosamente contra o adulto. Tudo isso gera instabilidade emocional, dificuldade de relacionamento e insegurança”, diz Luciana.

Como repreender

Para Ana Paula Magosso Cavaggioni, diretora e psicóloga da Clia Psicologia e Educação, os pais são os responsáveis por amar, educar, proteger e orientar crianças e jovens, bem como repreender, mas sem humilhá-los na frente dos outros.

A base do relacionamento deve ser a conversa. Se a criança está batendo nos amigos na festa, chame-a de canto e deixe claro que, dessa forma, não será possível continuar naquele local. Se não funcionar, leve seu filho embora e, com mais calma e privacidade, mostre que há consequências pelo comportamento inadequado. “O problema é que muitos pais também não querem ir embora e preferem gritar com a criança e deixá-la de castigo ali mesmo, no ambiente público, fazendo com ela, muitas vezes, o que ela estava fazendo com os outros: agredindo e desrespeitando”, diz a psicóloga.

“Os pais devem mostrar desagrado pela atitude da criança e não por ela. Também não devem tornar as consequências daquele ato eternas –até porque não pagamos uma multa todo mês se tivermos cometido apenas uma infração, não é mesmo?”, declara Ana Paula. E nada mais eterno do que publicar um vídeo ou foto na internet, já que eles se propagam sem que os “donos”  tenham o menor controle sobre isso.

Legislação brasileira

Segundo Alessandra Borelli, advogada especialista em direito digital do escritório Opice Blum, em São Paulo, os pais --a quem compete o exercício do poder familiar previsto no Código Civil, na Constituição Federal e no ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente)-- têm o dever de proteger o filho e não podem expô-lo nem humilhá-lo.

A maneira como esses castigos expõem as crianças e jovens pode ser enquadrada na Lei da Palmada. O artigo 18-B prevê algumas medidas de punição para os pais que agem de maneira inadequada, como encaminhamento do filho para programa de proteção à família, tratamento psicológico ou psiquiátrico e advertência. "Tudo depende da gravidade do acontecimento. Eles podem até perder a guarda da criança ou do adolescente ", afirma Alessandra.

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