Gravidez e filhos

Superdotado pode ter notas baixas e ser o bagunceiro da classe

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Superdotados perdem interesse pelas aulas tradicionais e podem ser instrospectivos imagem: Getty Images

Daniela Venerando

Do UOL, em São Paulo

Frederico Santiago Farias tem 12 anos. Quando estava na educação infantil, era considerado um problema na escola por conta de seu mau comportamento. Aos sete, ao ingressar no primeiro ano do ensino fundamental, a situação piorou. A mãe dele, Ana Paula Santiago, costumava ser chamada com frequência pela professora para ir ao colégio, porque o filho não fazia as tarefas, não copiava nada na sala de aula e ainda atrapalhava os colegas. Aos poucos, ele também começou a ficar agressivo e passou a ser expulso da classe quase toda semana.

A diretora do colégio foi taxativa ao tratar do assunto com a Ana Paula: Frederico tinha sintomas claros de hiperatividade. A princípio, a mãe não aceitou a conclusão, já que, em casa, o menino lia compulsivamente e ficava horas brincando com blocos de montar. Depois de pesquisar na internet e fazer o filho passar por uma bateria de testes psicológicos, ela recebeu o diagnóstico: o garoto tinha altas habilidades, ou seja, era superdotado.

Frederico não prestava atenção nas aulas simplesmente porque não as achava estimulantes e não via desafios nos conteúdos apresentados. "É muito comum a criança com alta habilidade ter baixo rendimento escolar e ser apontada como distraída e indisciplinada, pois é muito chato ouvir dez vezes o que você já sabe. O diagnóstico é frequentemente confundido com outras disfunções, como déficit de atenção e hiperatividade. Muitos pais acabam sendo orientados erroneamente e chegam a dar medicamentos ao filho", diz Ada Toscanini, presidente da Apahsd (Associação Paulista para Altas Habilidades/Super Dotação).

Outro fator que pode comprometer o diagnóstico correto é a crença no estereótipo do gênio. Acredita-se que os superdotados sabem tudo, mas a realidade não é bem assim. Como qualquer criança, se eles tiverem alta habilidade em matemática, podem ter dificuldades em português. Eles são brilhantes e extremamente focados na área que mais os interessa, mas podem ser bem resistentes a aprender matérias com as quais não se identificam.

Diferenças entre meninos e meninas

Enquanto os meninos não se interessam pelos estudos e se tornam indisciplinados, as meninas com altas habilidades geralmente sofrem e são introspectivas. Um bom exemplo dessa diferença de comportamento pode ser ilustrado com a história de Mariana Silva, 8, que atualmente cursa o quinto ano, porque passou por aceleração de série. Ela começou a frequentar a escola aos dois anos e sempre foi muito participativa, mas chorava na hora de sair de casa para ir às aulas. Quando Mariana tinha quatro anos, a mãe dela, Adriana Guimarães Silva, percebeu que a filha tinha aprendido a ler sozinha e teve de lidar com a menina, aos prantos, pedindo para que a descoberta não fosse contada para os colegas e para a professora.

"Achei superestranho, toda criança fica feliz em mostrar o aprendizado. Depois disso, ela começou a roer as unhas, a ter dificuldade para ir ao banheiro, a sofrer com enxaquecas e a chorar sem motivo. Levei-a a uma psicóloga, que deu o diagnóstico errado de transtorno desafiador opositivo (quando a criança não aceita a autoridade dos adultos), e sugeriu o uso de medicação", conta Adriana. A mãe só notou que o problema era outro quando a menina estava com cinco anos: Mariana lhe disse que não aprendia nada na escola. Ela não entendia por que precisava ir a um lugar tão chato, que ensinava tudo o que já sabia. Decidida a investigar mais, ela levou a filha à Associação Paulista para Altas Habilidades/Super Dotação, onde, enfim, descobriu-se a razão de seu comportamento.

"As crianças com alta habilidade precisam ser motivadas o tempo todo. O nosso formato de educação, baseado no registro (repetição), está ultrapassado, imagine como é difícil para elas. A escola precisa ter um outro olhar para esses alunos e enriquecer o currículo nas áreas de interesse deles, mas nem sempre isso acontece. Por isso, acabam buscando conteúdo extra em associações como a Apahsd", diz Ana Lucia Fanganiello, especialista em altas habilidades. Diretora do colégio Free World, de São Paulo, que tem sete crianças superdotadas, e mãe de dois filhos com a mesma condição, ela afirma que elas apresentaram algum problema de comportamento ou sintomas físicos de ansiedade. 

Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde, 5% da população mundial têm altas habilidades na parte cognitiva. No entanto, a criança superdotada também pode se destacar nos esportes, nas artes, na criatividade ou na liderança. Diante disso, estima-se que, pelo menos, 10% da população seja de superdotados. "São Paulo tem uma população de 40 milhões, ou seja, 4 milhões de pessoas podem ter altas habilidades. No entanto, elas são invisíveis", fala Ada, presidente da Apahsd.

Ana Lúcia corre o Brasil fazendo palestras sobre o assunto. Ela sempre começa as apresentações perguntando a um público de professores se eles têm algum aluno com alta habilidade. Inicialmente, todos dizem que não, mas, ao final, quando repete o questionamento, várias pessoas levantam as mãos.

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