Gravidez e filhos

Castigar não fará filho adolescente mudar de comportamento

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Punir o filho, proibindo o uso de celular, por exemplo, não ajuda a discipliná-lo imagem: Getty Images

Yannik D'Elboux

Do UOL, no Rio de Janeiro

 

Preguiça, desânimo, angústia, falta de vontade de fazer tarefas simples, desinteresse e introspecção são comportamentos comuns na adolescência, mas preocupam e incomodam os pais, que não sabem o que fazer para motivar os filhos. Muitos acabam recorrendo à punição --proíbem o uso do celular ou do computador, ou não os deixam sair de casa com os amigos-- como forma de impor disciplina, sem muito sucesso.

O castigo não funciona porque coloca o jovem em posição de vítima, o que não contribui para o desenvolvimento da autodisciplina. Para o neurologista da infância e adolescência Marco Antônio Arruda, diretor do Instituto Glia, que promove pesquisas na área de neurociências e educação, disciplinar é um processo de aprendizagem, não de punição. “Os adolescentes precisam de estrutura. É preciso estabelecer regras em família, dar exemplos, argumentar e, sobretudo, respeitar a opinião do outro”, diz.

Mas evitar o castigo não significa deixar o filho fazer o que quiser ou ficar sem fazer nada. Para motivar adolescentes, é fundamental descobrir quais são seus interesses e promover uma conversa franca, respeitando os sentimentos e as prioridades deles.

A educadora Fernanda Lee, treinadora de Disciplina Positiva (técnica não-punitiva desenvolvida na década de 1980 pela norte-americana Jane Nelsen), sugere que uma lista semanal de tarefas seja elaborada em conjunto com o adolescente, indicando data e hora para serem realizadas. “Quando o jovem é envolvido no processo, ele toma posse da decisão e está mais disposto a cooperar”, explica.

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Conversar e estipular tarefas e metas são ações que ajudam os jovens a ganhar autonomia na realização de seus objetivos, tornando-os responsáveis por suas ações. “É preciso que o adolescente entenda que seus atos produzem efeitos e que é responsável por eles”, fala a psicóloga e psicanalista Rose Gurski, coordenadora do Nepeia (Núcleo de Ensino, Pesquisa e Extensão em Infância e Adolescência) da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul).

Uso de recompensas

Simples recompensas, como elogios e palavras de encorajamento, podem ser bastante úteis na motivação dos adolescentes. Por outro lado, o uso de premiações requer cautela. Segundo Marco Arruda, tudo tem de ser estabelecido antecipadamente. “O mais importante é a relação de confiança mútua entre pais e filhos, em um ambiente altamente estruturado, previsível e seguro”, fala.

Para Fernanda Lee, o sistema de recompensas, mesmo que funcione em um primeiro momento, representa uma solução perigosa, já que pode se transformar em um ciclo vicioso difícil de ser alimentado ao longo do tempo. “O que acontece quando a promessa de um novo computador ou celular não for mais apelativa para o adolescente?”, questiona. Para ela, a maneira mais eficiente de estimular o jovem a ter objetivos e conseguir alcançá-los é reforçar o que ele faz bem e mostrar os impactos positivos de suas atitudes.

Também vale a pena incentivar os filhos a experimentarem novas atividades, para que possam reconhecer seus interesses e desenvolver suas habilidades, mas sem imposições, que podem causar sofrimento, discussão e cobranças indevidas.

Mudanças da idade

Há uma explicação científica para a apatia típica dessa fase da vida: a adolescência é um período de transformações profundas, tanto do ponto de vista fisiológico quanto psicoemocional. No corpo, ocorre a maturação do córtex pré-frontal, região do cérebro responsável pelas funções executivas, como as habilidades de planejar, organizar, iniciar tarefas, perseverar, prestar atenção e regular emoções. “Como a região está em amadurecimento, a regra é que os jovens apresentem dificuldades com essas habilidades”, explica Arruda.

Além de ter de lidar com as mudanças no cérebro e na aparência, típicas da puberdade, o adolescente também enfrenta o desafio de encontrar seu novo lugar no mundo, já que não recebe a mesma proteção de quando era criança, mas ainda não é adulto.

Para Rose Gurski, é muito importante que os adultos compreendam a complexidade e a densidade das questões emocionais do adolescente. “Os pais não devem se angustiar em demasia, a apatia pode ser apenas um pedido do jovem para que lhe deem um tempo, a fim de elaborar as dores e dificuldades dessa passagem”, diz. Entretanto, ela faz uma ressalva para que os pais fiquem atentos, pois precisam diferenciar a simples apatia dos sintomas da depressão.

Dicas para disciplinar sem punir

1 - Incentive a autodisciplina e o autocontrole do adolescente;

2 - Exerça uma escuta ativa, ouvindo a opinião do seu filho sem sermão e com respeito;

3 - Discuta com o jovem uma lista de tarefas para a semana e estabeleça com prazos;

4 - Exponha com antecedência as consequências caso ele não cumpra o combinado;

5 - Sirva de modelo para o seu filho, sendo calmo, racional e consistente em vez de rígido;

6 - Busque descobrir os interesses e as habilidades do adolescente para apoiá-lo em atividades extracurriculares;

7 - Aceite seu filho como ele é, sem estabelecer expectativas irreais ou objetivos distantes dos interesses dele;

8 - Recompensas e elogios nos momentos de acerto ajudam a estimular a autodisciplina.
 

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