Gravidez e filhos

Crianças e adolescentes também podem ter TOC; saiba identificar os sintomas

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Excesso de ordem ou limpeza e medo de contaminação são alguns dos sinais da doença imagem: Getty Images

Andrezza Czech

Do UOL, em São Paulo

Comportamentos repetitivos, como querer levar sempre o mesmo brinquedo para o banho ou preferir que os alimentos sejam organizados no prato, são característicos de algumas fases do desenvolvimento infantil. Mas, se a não realização de certos rituais do dia a dia começar a causar sofrimento, interferir nas atividades ou tomar muito tempo do dia da criança, pode ser que ela tenha TOC (transtorno obsessivo-compulsivo), um distúrbio psiquiátrico de ansiedade, que se manifesta pela presença de obsessões e/ou compulsões.

O aparecimento do transtorno na infância e na adolescência é mais comum do que se imagina, principalmente entre o sexo masculino. Segundo a psiquiatra Roseli Shavitt, coordenadora do Protoc (Programa Transtornos do Espectro Obsessivo-Compulsivo) do IPq-HCFMUSP (Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo), cerca de 80% dos casos de TOC tratados na fase adulta se iniciaram antes dos 18 anos, mesmo que de forma mais leve.

"Essa doença começa a aparecer quando a pessoa é muito jovem. No caso dos meninos, o início, normalmente, acontece antes dos dez anos. Entre as meninas,  é mais comum no final da adolescência e início da vida adulta", afirma a especialista.

Pesquisas indicam que o transtorno atinge entre 1,9% e 4% das crianças e adolescentes, mas o psiquiatra Vladimir Bernik, coordenador da equipe de psiquiatria do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, de São Paulo, diz ser muito difícil precisar quantos têm a doença, pois os pais costumam perceber os sintomas tardiamente.

De acordo com a psiquiatra Renata Bataglin, do Hospital e Maternidade São Luiz Anália Franco, também na capital paulista, não há um consenso sobre como determinar quando se dá o aparecimento do TOC. "A maioria dos estudos considera o surgimento dos sintomas como a idade de início do transtorno. Outros consideram o começo a partir do incômodo causado pelos sintomas ou da primeira vez em que o paciente procurou ajuda profissional."

Quais as causas?

O TOC acontece devido a alterações autônomas no funcionamento de algumas regiões do cérebro. Um estudo, publicado em 2000 no jornal "Archives of General Psychiatry", mostrou que, enquanto o índice da população com o transtorno é de 2,7%, entre pessoas que têm familiares com a doença, o nível sobe para 11,7%. A pesquisa mostra, ainda, que o período de maior risco para que o TOC surja começa na infância e vai até meados da fase adulta.

De acordo com Bernik, além da hereditariedade, a incidência dos sintomas pode aumentar quando a criança recebe, desde cedo, uma educação muito rígida. Fatores traumáticos, como a separação dos pais, casos de abusos, bullying na escola ou a ocorrência de alguma doença grave na família, podem desencadear a doença, se a criança tiver um fator genético associado, explica Renata.

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Como saber se o filho tem TOC?

A psiquiatra afirma que rituais e superstições são normais em algumas fases do desenvolvimento infantil. "É importante reconhecer se eles interferem no comportamento da criança, aumentam de frequência ou de intensidade e se tornam patológicos", diz Renata.

Para saber se seu filho pode ter algum transtorno obsessivo-compulsivo, a psiquiatra Roseli Shavitt recomenda a utilização de três critérios. O primeiro é observar o tempo que ele gasta com isso ou o quanto se queixa de ter pensamentos obsessivos ou repetitivos. O segundo ponto a analisar é a interferência desse problema na vida dele, por exemplo, verificar se deixa de fazer algo por conta dos sintomas. E o terceiro critério é tentar notar se esses comportamentos repetitivos lhe trazem sofrimento.

De acordo com Bernik, alguns sinais desse tipo de distúrbio são: tiques, excesso de ordem ou limpeza, medo de contaminação, hábito de arrancar os cabelos, repetição de atos e excesso de preocupação com o próprio corpo, o que leva a encontrar nele anomalias que não existem.

"Crianças e adolescentes apresentam, mais frequentemente, obsessões de contaminação, sexuais, de religiosidade e o medo de se ferir ou de machucar os outros. Já as compulsões mais comuns nessas fases são as de lavagem, repetição, checagem e rituais de tocar em objetos ou pessoas", conta Renata Bataglin.

De acordo com a psiquiatra, a diferença entre obsessão e compulsão é que, no primeiro caso, ocorrem pensamentos, ideias, impulsos e imagens vivenciados como intrusivos e incômodos. As compulsões são os comportamentos ou atos mentais repetitivos, realizados para diminuir o sofrimento causado pelas obsessões ou para evitar que uma situação temida ocorra. "Na infância, as compulsões comumente antecedem o início das obsessões", afirma.

É preciso ficar muito atento para identificar o TOC nas crianças e adolescentes. Segundo Bernik, é comum que o diagnóstico só aconteça dez anos após a doença ter começado a se manifestar, pois os pais acabam levando os filhos ao médico apenas quando os sintomas já estão muito fortes.

Como é o tratamento?

É essencial levar o filho com suspeita de TOC a um psiquiatra, para que ele possa indicar o tratamento mais adequado. A forma com que os pais lidam com os sintomas também é fundamental para a melhora do transtorno. É comum que, na tentativa de ajudar o filho a sofrer menos com o problema, a família acabe embarcando nos rituais. "Eles não podem ser cúmplices, precisam desencorajar a criança ou o jovem de fazer os rituais, ou o prognóstico da criança piora", diz a psiquiatra Roseli Shavitt.

O tratamento do TOC não é rápido e leva, pelo menos, 12 semanas para trazer sinais de melhora. Dá-se prioridade para a psicoterapia, mais especificamente para a terapia cognitivo-comportamental. Também é necessário o uso de medicamentos, como os antidepressivos do tipo ISRS (inibidores seletivos de recaptação de serotonina). "A medicação deve ser usada na dose certa e pelo tempo indicado. É comum encontrarmos resistência da própria criança e dos familiares, e isso influencia no sucesso do tratamento", explica Renata Bataglin.

Ela afirma que a doença pode prejudicar o desenvolvimento do paciente. “Crianças e adolescentes com TOC podem ter problemas para se relacionar com as pessoas, sentem-se inseguros longe da família e não conseguem se tornar independentes. A associação do tratamento medicamentoso com a psicoterapia traz uma grande melhora dos sintomas e, consequentemente, da qualidade de vida do paciente”, diz.

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