Gravidez e filhos

Mulher faz barriga solidária para ajudar amiga no sonho de ser mãe

Arquivo pessoal
Danielle Figueredo topou ser barriga solidária da amiga Gabriela Brenckefeld imagem: Arquivo pessoal

Beatriz Vichessi

Colaboração para o UOL

 

Gabriela Brenckefeld tem uma doença autoimune chamada Saaf (Síndrome do Anticorpo Antifosfolípide), problema que interfere na coagulação sanguínea, favorecendo o risco de tromboses, principalmente durante a gravidez. Mesmo sem poder engravidar, Gabriela queria ter filhos. Em uma tentativa de realizar o sonho da amiga, Danielle Figueredo, casada e mãe de duas crianças, resolveu ser barriga solidária. Os gêmeos Pilar e Martim nasceram em 15 de agosto com 2,8 kg e 2,6 kg, respectivamente. 

Tomar essa decisão, no entanto, não foi nada simples. Danielle ponderou as consequências psicológicas e físicas, a relação com o marido e os filhos, o contato com a amiga, o marido dela e o novo bebê, porém, considerou que essas questões eram possíveis de serem contornadas, caberiam na rotina e, principalmente, que a atitude valeria cada enjoo ou mal-estar, pois estava contribuindo para a formação de uma família. Depois de passar pela experiência, ela não se arrepende. "Faria tudo de novo! Aprendi muito com tudo, além de ajudar uma família." 

Assim que contou a ideia ao marido, Danielle recebeu o apoio dele. Depois disso, o casal levou a proposta para Gabriela, que ficou emocionada e logo começou a sonhar com a chance de ser mãe. Duas semanas depois, os casais começaram a se informar sobre a burocracia de fazer a barriga solidária e cumprir as etapas exigidas pelo CFM (Conselho Federal de Medicina) e pela lei.

Você toparia ser barriga solidária para uma amiga ou uma parente?

Resultado parcial

Total de votos
Total de votos

"Nem na Constituição Federal nem na legislação ordinária existe regulamentação específica sobre barriga solidária. Mas uma resolução do Conselho é usada para colaborar com a interpretação da decisão judicial", explica Eduardo Dantas, advogado membro da Comissão Especial do Direito Médico do Conselho Federal, da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil).

A resolução a que ele se refere (nº 2.013/13) indica que mulheres com parentesco de até quarto grau (mãe, irmã, avó, tia e prima) e com até 50 anos podem ser doadoras temporárias de útero. Casos que fogem a esses limites precisam passar por uma análise de um Conselho Regional de Medicina, que verifica se não há pagamento envolvido no combinado, se a amizade entre as mulheres é duradoura, como está a saúde delas (o motivo de uma não poder engravidar e de a outra, sim), e o que indicam os testes psicológicos das mulheres e suas famílias.

Gabriela e Danielle seguiram esses passos antes de realizar a barriga solidária. "Para essas situações médicas, é essencial o acompanhamento jurídico. Assim, o hospital tem os documentos essenciais para o momento do parto. E o cartório pode permitir o registro da criança em nome dos pais genéticos", fala Dantas.

Contato entre as famílias

A comprovação de que o procedimento da inseminação havia dado certo e de que Danielle estava grávida foi maior do que todos imaginavam. Não se tratava de um, mas, sim, de dois bebês. Durante a gestação, a dona da barriga solidária se preocupou em envolver os dois filhos, de três e cinco anos, na decisão e acompanhou todas as reações deles para perceber se estavam bem com a novidade.

"Foi uma situação muito atípica, mas sinto que meus filhos compreenderam que na minha barriga estavam os filhos de uma amiga e que, depois de nascidos, eles iriam para o colo dos pais. Nós demos carinho, amor e alimento para que eles se desenvolvessem", afirma Danielle. "Desde o começo, a gente usava a expressão 'devolver os filhos aos pais' em vez de 'entregar' ou 'doar', e não me considero mãe deles por ter sido responsável pela gestação. Acredito que o cuidado com a escolha dos termos é importante para não ter confusão de nenhuma das partes", diz ela.

Gabriela acompanhou a gravidez da amiga viajando uma vez por mês de Recife, onde mora, para Porto Alegre, onde está a família de Danielle, e estreitando laços. As duas se conhecem há sete anos. Para registrar a experiência, Gabriela passou a escrever o blog Sobre Elefantes . "Só tenho a agradecer a possibilidade de ter meus filhos nos meus braços. Claro que, se pudesse escolher, preferiria engravidar e parir, mas como não há possibilidade, a barriga solidária foi a melhor opção possível."

Gabriela permanecerá um tempo na cidade de Danielle, pois tirou férias e licença-maternidade, e irá se revezar com a amiga na amamentação. Ela poderá amamentar porque fez a translactação --tratamento para mães adotivas produzirem leite. A prática também pode ser associada a outras técnicas, como massagens nas mamas e movimento de ordenha manual, além de medicamentos para incentivar a produção de leite.

Para surpresa de Danielle, ela e o marido foram convidados para serem padrinhos da Pilar. “Somos tão felizes pelo que realizamos a eles. Não imaginávamos que poderíamos receber esse convite. Afinal, independentemente de qualquer coisa, nossos laços vão permanecer para sempre, mesmo morando em cidades diferentes”, afirma.

Após o nascimento dos gêmeos, a barriga solidária sentiu que sua missão foi cumprida e ainda recebeu um presente do filho mais velho. “Ele falou que eu era muito corajosa e que mais mulheres deveriam ser como eu. Isso para mim foi o melhor retorno que poderia receber, pois prova que ele entendeu todo o processo. O meu filho mais novo vê a barriga menor e pergunta se não tem mais Martim e Pilar, mas a gente leva eles na casa da Gabi e eles falam e beijam os bebês”, conta.

Outras mulheres aderem à causa

Danielle criou no Facebook a comunidade Barriga Solidária ou Útero de Substituição com o objetivo de registrar as etapas da gestação para que, no futuro, seus filhos pudessem saber mais sobre a experiência que compartilharam ainda pequenos. Ela não divulgou a página nem esperava repercussão de seu diário, mas fica surpresa por receber mensagens diárias com dúvidas, cumprimentos pela atitude e convites para gerar outras crianças.

"Procuro não incentivar ninguém a fazer o que fiz. É uma atitude muito séria, que envolve mudanças grandes na vida. Não posso me comprometer com orientações especializadas. O que posso fazer é somente contar minha experiência."

Topo