Gravidez e filhos

Preocupação com peso é pesadelo adulto que está atingindo crianças

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Segundo o estudo, uma em cada quatro crianças tentou fazer dieta depois dos sete anos imagem: Getty Images

Heloísa Noronha

Colaboração para o UOL

Mais da metade das garotas dos Estados Unidos com idade entre seis e oito anos acha que o corpo ideal é mais magro do que o seu. O dado é do levantamento “Children, Teens, Media and Body Image”, divulgado, no início do ano, pelo Common Sense Media, organização norte-americana dedicada a auxiliar filhos e pais a lidarem com a influência da tecnologia e da mídia na sociedade. O levantamento revelou ainda que uma em cada quatro crianças tentou fazer dieta depois dos sete anos.

Um outro estudo, da University College London, no Reino Unido, de 2011, constatou que meninas e meninos com apenas oito anos já demonstram insatisfação com o próprio corpo.

Há três fatores principais por trás da inquietação precoce com medidas e calorias: a supervalorização da estética, a influência da publicidade e os modelos ensinados, consciente ou inconscientemente, pelos pais.

Segundo o psicólogo Bruno Mader, do Serviço de Psicologia do Hospital Pequeno Príncipe, de Curitiba, imagens de pessoas belas e magras se disseminam em todos os meios de comunicação como uma estratégia para impulsionar o consumismo.

“Isso nos leva a pensar o corpo como um bem de consumo, como se a felicidade pudesse ser resolvida apenas com o aspecto da aparência. É um valor contemporâneo”, fala o especialista.

Comerciais e brinquedos ensinam padrões

O ser humano começa a criar e a elaborar conceitos antagônicos, como grande/pequeno e claro/escuro, a partir do momento em que aprende a falar. Assim, uma criança de três anos pode diferenciar uma pessoa gorda de uma magra. Porém, o juízo de valor sobre isso toma forma a partir dos cinco ou seis anos.

É bom ressaltar que as crianças são mais sugestionáveis do que os adultos em relação à imposição de padrões, pois não têm maturidade emocional para discernir quais são saudáveis para elas. É justamente nessa dificuldade de discernimento que a publicidade encontra espaço para intervir.

“As crianças são um alvo certeiro, já que pela própria imaturidade não conseguem avaliar criticamente a exposição a que estão submetidas”, afirma Camille Apolinario Gavioli, psicóloga do Centro de Obesidade Infantil do Hospital Infantil Sabará, de São Paulo.

Para Adriano Segal, diretor de Psiquiatria e Transtornos Alimentares da Abeso (Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade), a publicidade atua de vários modos, desde os diretos, nos quais a questão do excesso de peso é abordada como um problema a ser evitado, por causa da saúde, até as formas indiretas, ligadas à estética.

Bonecos como Barbie e Monster High (magras e altas) e Ken e Max Steel (sarados com barriga trincada) influenciam de forma negativa na autoimagem das crianças, que acreditam que sucesso, popularidade e prestígio estão 100% atrelados à beleza e ao padrão de beleza que valoriza o corpo esbelto.

A boa notícia é que dentro de casa é possível combater esse bombardeio de referências estereotipadas. “Se as crianças tiverem uma ligação afetiva satisfatória com adultos que os elogiem e os valorizem como são, comerciais e brinquedos não terão tanta influência”, diz a pediatra Sonia Maria Baldini, membro do Departamento de Saúde Mental da Sociedade de Pediatria de São Paulo.

O papel da família

Os pais e/ou cuidadores são, portanto, o fator mais preponderante na construção da autoimagem infantil. Tudo o que eles fazem é absorvido, elaborado e, claro, imitado.

Se a criança cresce em uma casa onde o pai ou a mãe (ou ambos) se preocupam excessivamente com dietas e calorias, soltam frases do tipo “estou gorda” ou “preciso perder essa barriga” ou ainda tecem comparações sobre a forma física das pessoas, a tendência é que ela aprenda a imitar as atitudes e a reproduzir o mesmo discurso.

Para tentar ajudar um filho que se sente insatisfeito com sua aparência, é preciso entender que, assim como acontece com os adultos, as crianças também usam a comida como forma de controlar ou extravasar emoções.

Outra questão a considerar é que a criança que tenta fazer ou faz dieta por conta de padrões corporais, provavelmente, está procurando no lugar errado a busca da satisfação de alguma necessidade, como a atenção e aceitação dos pais ou se encaixar em um grupo de amigos.

Onde mora o perigo

Dietas restritivas repetidas e sem orientação apresentam riscos clínicos, nutricionais, psicológicos e psiquiátricos e, por isso, devem ser prontamente combatidas pelos pais, que, assim que estranharem algum tipo de comportamento, devem levar o filho para uma consulta com profissional da área de transtornos alimentares.

Conversar e oferecer apoio são ações fundamentais, mas a família deve, antes mais nada, avaliar se precisa mudar a relação com a própria autoimagem e a maneira como expõe seus valores às crianças.

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