Gravidez e filhos

Netflix diminui consumismo infantil, mas hipnotiza a criança

Arquivo pessoal
Andressa da Silva Almeida, 32, com o marido, Antonio, e as filhas, Alicia (à esq.) e Lana imagem: Arquivo pessoal

Fernanda Carpegiani

Colaboração para o UOL

Já faz mais de um ano que Alicia parou de fazer listas e mais listas com os brinquedos que queria comprar. O comportamento consumista da menina de cinco anos diminuiu quando seus pais substituíram a televisão aberta e a cabo pelo Netflix, serviço de streaming de vídeos, filmes e séries pela internet.

"Antes era um tal de gritar toda hora: 'corre, mãe, vem ver essa boneca que voa, eu quero!'. Quando íamos ao shopping, ela reforçava o pedido, apontando para os produtos que tinha visto na TV", conta a mãe da menina, Andressa da Silva Almeida, 32, que mora em Campinas (SP).

Pesquisas comprovam que a publicidade influencia diretamente no consumo infantil. O levantamento InterScience, feito pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), em 2013, mostrou que a propaganda na TV é o fator número um na decisão de compra das crianças e que elas influenciam 80% das aquisições totais da família. Por isso, cortar essa relação tem sido tão positivo para os pais que só oferecem conteúdo sem anúncio para os filhos.

Assim como Andressa, a vendedora Daniela Leite, 32, aboliu a televisão da vida das filhas, Julia, 8, e Carolina, 5, e ficou muito satisfeita com o resultado. "Sem aquele monte de comercial, a criança fica mais leve e para de pedir isso e aquilo toda hora", diz ela, que cita a diversidade de materiais de qualidade e a possibilidade de escolher o que será acessado como outros pontos fortes do Netflix. "O conteúdo da TV aberta é mais pesado, violento, e nem sempre atrai a atenção delas."

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Daniela aboliu a televisão da vida das filhas Julia e Carolina imagem: Arquivo pessoal

Solução paliativa

Mas a discussão sobre o tipo de programação oferecida às crianças vai além da simples troca da televisão pelo serviço por streaming. Se por um lado evitar a publicidade infantil realmente favorece um comportamento menos consumista, há um problema maior que fica sem solução: a regulação da publicidade voltada a esse público no Brasil.

"Essa escolha dos pais mostra que o governo e o mercado não estão cumprindo seu papel, que é proteger o direito das crianças a uma propaganda menos abusiva e persuasiva. Nem todos têm acesso a serviços como o Netflix. A regulação da publicidade pensa no país como um todo", declara a psicóloga Laís Fontenelle, do Instituto Alana, uma organização sem fins lucrativos que defende os direitos da infância e desenvolve projetos como o "Criança e Consumo", que visa debater os impactos causados pela publicidade dirigida às crianças.

Outro ponto é poder ensinar aos filhos a fazer escolhas e superar frustrações. "É importante para a criança não poder determinar sempre o que vai acontecer. Na programação da TV, existe um horário e um tempo para as coisas. É um aprendizado de lidar com o que o mundo coloca e o que ela pode ter", fala a psicóloga Luciana Ruffo, do Núcleo de Pesquisas da Psicologia em Informática da PUC (Pontifícia Universidade Católica) de São Paulo.

Essa é uma das dificuldades apontadas pelas famílias que adotaram o serviço de streaming de vídeos. "Se deixar, é o tempo todo assistindo ao Netflix, da hora que acorda até não aguentar mais, por isso imponho limites. Não é tão fácil nem tranquilo, mas digo não e desligo", diz Daniela. "Controlo. Deixo que elas assistam de 30 a 40 minutos de manhã e depois falo que é hora de brincar", fala Andressa.

Apesar da programação ininterrupta ser um problema, não dá para dizer que esse tipo de exposição causa dependência. "A compulsão acontece quando algo não está bem. Se a criança só fala disso e troca qualquer programa para estar na frente da tela, é preciso entender quais outros fatores podem estar causando esse comportamento", afirma Luciana.

Seja quais forem as escolhas de cada família, o principal é não restringir as opções de entretenimento e diversão dos filhos, e, sim, proporcionar o máximo de experiências diferentes. A televisão e o Netflix devem ser mais uma das atividades do dia, com brincar fora de casa, ler, desenhar. Para quem busca uma referência de tempo de exposição a telas (vale televisão, computador e até celular), a Sociedade Americana de Pediatria recomenda apenas duas horas por dia, e só depois dos dois anos de idade.

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Daniela aboliu a televisão da vida das filhas Julia e Carolina imagem: Arquivo pessoal
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