Gravidez e filhos

Exposição de filhos nas redes sociais gera atritos entre pais separados

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Estabelecer regras clara de uso das redes sociais minimiza possíveis atritos imagem: Getty Images

Heloísa Noronha

Colaboração para o UOL

Desde o seu surgimento, a internet vem mudando drasticamente a maneira como as pessoas se relacionam. No caso dos casais separados com filhos pequenos, o uso crescente das redes sociais no dia a dia coloca uma questão a ser debatida pelos ex-parceiros –juntamente com pensão e guarda–: como fica a exposição do filho? Conflitos sobre o tema são cada vez mais frequentes e, muitas vezes, acabam na esfera judicial.

A empresária Alexandra* resolveu processar o ex-marido por se sentir incomodada com o excesso de posts feitos por ele mostrando a filha de cinco anos dos dois, nos fins de semana em que a menina ficava sob os cuidados do pai.

“Ele postava fotos de presentes caros, de passeios e até na porta da escola. Ela é muito pequena para tanta ostentação”, diz Alexandra. Os dois chegaram a um acordo –posts só com o aval dos dois– e o processo não foi adiante, mas a relação, que era razoável depois do divórcio, segue meio estremecida.

O ECA (Estatuto da Criança e Adolescente) --que garante o direito à preservação da imagem e identidade da criança-- é o documento que costuma servir de base para as ações. São os pais os responsáveis por zelar por isso e eles podem ser acionados judicialmente, segundo a advogada Gisele Truzzi, especialista em direito digital.

“Casais que divergem assim (como na história de Alexandra) devem ter dificuldades para conversar sobre a educação dos filhos em geral. O dilema sobre a exposição é apenas a ponta de um iceberg”, afirma o psicólogo clínico, psicanalista e terapeuta familiar Marcelo Lábaki Agostinho, que atua no IP (Instituto de Psicologia) da USP (Universidade de São Paulo).

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Diferencie cuidado de mágoa

O ciúme pode ser um fator decisivo –nem sempre consciente– por trás das desavenças. “Às vezes, apesar de um relacionamento aparentemente cordial, uma das partes do ex-casal pode sentir ciúme ao ver o que a outra faz com o filho”, declara Agostinho.

Em geral, nas redes sociais, as pessoas se esforçam para mostrarem o seu melhor. Quando o término não está bem resolvido, as postagens com a criança podem funcionar para provocar o “ex” na linha de “momentos incríveis só acontecem ao meu lado”.

Quem sofre as consequências dessa fogueira virtual das vaidades é a criança, que se transforma em objeto exposto publicamente.

Em um primeiro momento, consultar o ex-parceiro (ou reclamar para ele) sobre a publicação de determinada foto ou informação pode soar como uma afronta à espontaneidade da relação do pai ou da mãe com a criança.

“Não haverá prejuízo para relação entre o pai ou mãe e a criança se, diante de algum excesso, um dos dois possa ouvir o outro e ponderar”, declara a psicóloga e psicanalista Ana Cássia Maturano, de São Paulo.

Antes de entrar com um processo judicial, é preciso muito diálogo e vontade de atingir um consenso em prol dos filhos. “Deve ser o último recurso a ser usado em qualquer situação envolvendo a criança”, fala Ana Cássia.

A psicóloga diz que muitas vezes, sem perceber, as desavenças e consequentes processos são mais em função de uma mágoa pessoal entre os adultos, nos quais os filhos e sua suposta proteção funcionam como uma desculpa.

Caso a conversa seja impossível, talvez o melhor investimento seja uma terapia de casal para entender o que está em jogo e como essa situação pode afetar os filhos negativamente.

“Acho importante que se leve em conta também os desejos das crianças, que, em determinadas situações, querem postar nas redes sociais alguma situação vivida com um dos pais, como um passeio ou uma festa”, diz Marcelo Labáki Agostinho.

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