Gravidez e filhos

Famílias que adotaram crianças negras relatam preconceitos que enfrentam

Arquivo pessoal
Jonathan e Ednilce Duran adotaram Lucas quando ele tinha nove meses imagem: Arquivo pessoal

Thamires Andrade

Do UOL, em São Paulo

De acordo com dados do CNA (Cadastro Nacional de Adoção), de novembo deste ano, das 6.250 crianças prontas para serem adotadas no Brasil mais de 66% são negras e pardas. E, ainda hoje, 23,4% dos pretendentes a adoção só aceitam as brancas.

Na semana da Consciência Negra, o UOL conversou com quatro famílias que adotaram crianças negras e que contam as situações preconceituosas que enfrentaram. 

"Depois de anos de casamento, a ideia de adotar ganhou forma. O processo durou nove meses, brinco que foi uma gravidez jurídica. Eu e minha mulher não colocamos nenhum tipo de preferência de etnia, e o Lucas chegou com nove meses. Em março deste ano, sofremos o primeiro episódio de preconceito em nossas vidas. Era um sábado e minha mulher queria passar em uma loja de sapatos perto da Oscar Freire (rua de comércio de luxo em São Paulo). Eu e meu filho resolvemos tomar um sorvete. Quando saímos, liguei para ela para nos encontrarmos. Encostei próximo da vitrine da Animale e, quando vi, uma atendente saiu da loja e se dirigiu ao Lucas falando que ele não podia vender coisas ali. Não soube como reagir, disse que ele era meu filho e fui embora. Decidi voltar, mas a mulher estava com clientes e me ignorou. Fiz um post sobre o assunto no Facebook, que repercutiu bastante na imprensa na época. A Animale sequer pediu desculpas pessoalmente pelo que aconteceu. Poucos dias depois do ocorrido, um procurador do MP (Ministério Público) abriu um inquérito sobre o episódio. O bom é que o Lucas, pela idade, não tem a percepção da gravidade do que aconteceu. Ele achou a situação estranha, mas não deu bola. Sei que com o tempo vou precisar explicar essas coisas, o lado doloroso da vida. Quando a criança negra é pequena, ela é chamada de linda, mas, quando chega em uma idade como a dele, passa a ser vista como ameaça. A gente tem de se preocupar com a roupa que ele coloca para sair de casa. Nos dias quentes, ele gosta de usar chinelo, mas optamos por outro calçado. Os pais de uma criança branca não têm essa preocupação. É a mesma coisa no frio. Ele gosta de usar capuz, mas não tem a mesma liberdade que uma criança branca. Se coloca um capuz, é visto de forma diferente."

Jonathan Duran, 42, editor financeiro de um banco e pai de Lucas, 8

Arquivo pessoal
Astrid com o filho, Gabriel, e o marido, Fausto Franco (ao fundo, à direita) imagem: Arquivo pessoal
"Sempre quis adotar, era um sonho desde menina. Durante meu primeiro casamento, fiz inseminação artificial, gastei muito dinheiro e não vingou. Separei-me e segui em frente com a ideia de adoção. Dei entrada com a papelada em São Paulo, onde moro, e, posteriormente, na Bahia, Estado com o qual sempre tive uma ligação muito forte. O processo de adoção demorou dez meses. Não coloquei nenhuma preferência de etnia e veio o Gabriel, com 40 dias de vida. Quando ele tinha quatro anos, sofreu preconceito por parte de uma outra criança da mesma idade. Tinha acabado de deixá-lo na porta da escola e ouvi um menino falando: 'pretinho, pretinho'. Foi aí que vi que tudo que falei na vida sobre preconceito era protocolar. Sentir o racismo na pele é uma dor dilacerante. Fiquei sem ar, dei um pulo do carro e voei para dentro da escola. A funcionária comentou que o garoto também chamava o porteiro assim. Levei a questão para a direção e conversei com os pais do menino. Ainda que o Gabriel não tenha escutado o que aconteceu, sempre tento buscar referências para que ele se fortaleça como negro o tempo todo, para trabalhar sua autoestima. Quero que ele dê exemplo para outros meninos negros como ele. Às vezes, ele fala que queria ter cabelo liso, mas sei que só quer isso, pois é o que mais vê. Esse é um dos motivos porque faço questão de cuidar do cabelo afro dele. Muitas mães acabam raspando, pois dá trabalho, mas ele tem dreads e gosta de usá-los."

Astrid Fontenelle, 54, apresentadora do “Saia Justa” (GNT) e mãe do Gabriel, 7

Arquivo pessoal
Gilberto (à esquerda) com o marido, Rodrigo Barbosa, e o filho deles, Paulo Henrique imagem: Arquivo pessoal
"O processo de adoção em grandes cidades costuma durar um ano e, apesar de ser muito tempo, acho que é um período necessário para que os pais possam se acostumar com a paternidade. O Paulo Henrique tinha sido recusado por três casais heterossexuais por ser 'muito negro e feio'. Eu e meu marido não tínhamos preferência por etnia, só queríamos uma criança mais velha. O Paulo traz comentários que a gente percebe que são derivados de alguma atitude a qual foi submetido. Um dia, cortei o cabelo e ele disse que queria o mesmo corte, mas que não o faria, pois seu cabelo era duro. Nós nunca dissemos isso a ele. Com certeza, ouviu de alguém. Expliquei que o cabelo dele era enrolado e cada um tinha o seu e nenhum tipo era melhor que o outro. A gente debate os conceitos que ele adquire para evitar que afetem sua autoestima. É uma construção diária nossa como pais. Já vivemos situações de preconceito. Uma vez, a gente foi comprar um picolé na padaria e ele saiu correndo na frente e se debruçou no freezer para escolher o sabor. O gerente perguntou o que ele estava fazendo ali e mandou que saísse. Perguntei qual era o problema, já que ele era meu filho. O gerente ficou sem graça, pediu desculpas e disse que as crianças costumavam abrir a geladeira, o que fazia os sorvetes derreterem. Mas o Paulo não tinha aberto nada. Tenho certeza de que se a criança fosse branca, ele não falaria naquele tom. Em outra ocasião, meu marido estava voltando da feira com ele. O Paulo saiu correndo para entrar no prédio e uma mulher que estava na porta disse que ele não podia entrar, pois não morava lá. A mulher claramente fez o julgamento com base na cor da pele, um menino negro não iria morar em um prédio de classe média."

Gilberto Scofield Júnior, 50,  jornalista e pai do Paulo Henrique, 6

Paula Marina
Angela e a filha, Maria Paula imagem: Paula Marina
"Sou solteira e me preparei muito antes de adotar a Maria Paula. O processo de adoção durou dois anos. Não tinha preferência por etnia, mas queria uma criança de, no máximo, um ano e meio ou dois. A Maria Paula chegou para mim com dez meses. Quando a assistente social ligou, disse que tinha uma menina 'parda clara' para adoção. Perguntei para uma amiga negra o que isso significava e ela deu risada. É um eufemismo que usam para não dizer que é negro. O preconceito racional é disfarçado, poucas pessoas têm a cara de dizer algo, mas percebo os olhares para mim e para ela por onde passamos. Sou branca e nunca tinha passado por isso. Nunca tinha sentido o olhar que a minha filha recebe. O preconceito mais explícito veio mais tarde, quando fui matriculá-la na educação infantil em uma escola renomada. Ela não estava comigo e perguntei para a diretora se haviam crianças negras que estudavam lá, ela respondeu: 'só adotadas'. Na hora, fiquei sem reação, acho que não falei nada por falta de experiência, por nunca ter passado por aquilo antes. Ela sabe que é adotada, mas não gosta de saber que não saiu da minha barriga. Uma vez,  perguntou porque era marrom e eu não. Disse que ela tinha saído de uma outra barriga marrom, mas que ela era minha filha de coração."

Angela Senra, 51, jornalista, uma das autoras do livro “Aprendi com meu Filho” (Editora Saraiva) e mãe da Maria Paula, 4

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