Gravidez e filhos

Frustração por não ter bonecas negras na infância inspirou empresária

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Joyce Venancio, da Preta Pretinha, que vende bonecas inspiradas em diferentes etnias imagem: Divulgação

Melissa Diniz

Do UOL, em São Paulo

A empresária Joyce Venancio, de São Paulo, transformou uma frustração da infância em negócio. Quando criança, ela e as irmãs, Lucia e Cristina, ficavam tristes por não encontrarem bonecas negras, por meio das quais se sentissem representadas. “Queríamos bonecas que pudessem ser uma extensão da nossa família para levar para a escola no dia do brinquedo, mas as únicas que existiam eram de coleções especiais, muito caras”, conta.

Foi a avó das meninas, Maria Francisca, a responsável por concretizar essa vontade. “Minha avó sempre gostou de trabalhar nossa autoestima. Ela dizia que enfrentaríamos preconceito por conta da cor da pele, mas que poderíamos estar nos melhores lugares do mundo, pois a educação é a base de tudo.”

Dona Maria Francisca decidiu fazer as bonecas negras para as netas. “Comprou as cabeças na 25 de Março (rua de comércio popular da capital paulista), fez o corpo de pano e revestiu as bonecas com meia-calça tingida de marrom. Depois pintou a boca, o nariz e os olhos, respeitando os nossos traços. Ficaram lindas.”

O impacto dessa experiência na vida de Joyce e das irmãs foi tão grande que, mais tarde, elas decidiram abrir a loja Preta Pretinha, na Vila Madalena, na zona oeste de S]ao Paulo, especializada em bonecas que representam pessoas com etnias e características variadas.

Além da criação e venda dos produtos, Joyce também se dedica a fazer palestras e workshops que divulgam a importância de a criança ter brinquedos que reflitam sua própria identidade. “É muito gratificante ver os alunos nas escolas, principalmente na periferia, felizes ao ver um boneco ou boneca que se parece com eles.”

Segundo a empresária, ainda hoje é muito difícil encontrar produtos de qualidade a preços acessíveis. “Fico triste quando vejo bonecas negras malfeitas, com traços grosseiros, cabelo feio, tecidos inferiores e avental. Isso passa para a criança uma visão estereotipada de que o negro é descuidado e sempre o serviçal.”

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Coleção da Preta Pretinha, em São Paulo, que vende bonecos negros imagem: Divulgação

Construção da identidade

Para Luciana Barros de Almeida, presidente da ABPp (Associação Brasileira de Psicopedagogia), é essencial que a criança tenha brinquedos que reflitam sua própria identidade e cotidiano. “Ter uma boneca que se pareça com ela favorece o desenvolvimento da criança e fortalece sua autoestima”, declara.

Porém, do ponto de vista contexto social, diz a especialista, é importante também que outras bonecas, com características diferentes, sejam oferecidas. “Assim ela terá uma ideia melhor da diversidade existente no mundo.”

Itens de colecionador

Reprodução/Pinterest
Primeira Barbie negra, lançada em 1980 imagem: Reprodução/Pinterest

Em seus workshops sobre história da moda, o jornalista e produtor Jorge Marcelo Oliveira costuma usar bonecas Barbie para representar os figurinos típicos de cada época.

“A Barbie é um ícone fashion e como gosto de trabalhar a diversidade, sempre uso bonecas negras em minhas apresentações, mas ainda hoje é difícil encontrá-las. Quando encontro, são muito mais caras do que as versões originais”, afirma. Alguns dos exemplares da boneca são considerados itens de colecionador e podem custar até R$ 770.

Segundo Oliveira, enquanto a Barbie original foi lançada pela Mattel nos Estados Unidos em 1959, a versão negra da boneca surgiu somente em 1980. Em 1968, havia sido lançada no país a Christie, a amiga negra da Barbie.

“No Brasil, entretanto, não vi a 'Barbie' negra antes do final da década de 1990. Temos tendência a achar que vivemos em um país igualitário, mas o mercado de bonecas reflete bem o desequilíbrio. Nos Estados Unidos, de cada dez bonecas lançadas, uma é negra. Aqui a situação é muito pior, mas faltam dados quantitativos.”


 

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