Gravidez e filhos

Problema no ouvido pode afetar comportamento e aprendizado da criança

Arquivo pessoal
Rita de Cássia, mãe de Luisa, se surpreendeu com o diagnóstico da filha imagem: Arquivo pessoal

Beatriz Vichessi

Colaboração para o UOL

 

Desde pequena, Luisa parecia desatenta. Aos cinco anos, o oftalmologista identificou que ela precisava usar óculos, e os pais acreditaram que tinham encontrado o motivo de ela estar sempre no "mundo da lua", como eles diziam. Mas os anos se passaram e a falta de atenção persistia. Na escola, ela aprendeu a ler e a escrever com um pouco de atraso em relação à turma. Em casa, mantinha o volume da TV sempre alto.

Aos 11 anos, Luisa começou a fazer terapia para encarar a separação dos pais. A psicóloga indicou que eles a levassem para ser examinada por um otorrinolaringologista, a fim de verificar se ela ouvia bem. Rita de Cassia Queiroz, mãe da menina, surpreendeu-se com o pedido, mas aceitou a sugestão. O médico diagnosticou: havia perda de audição. Um ano depois, Luisa já superou seis meses de tratamento tomando remédios e se recuperou de uma cirurgia. Agora, ouve tudo e muito bem.

O otorrinolaringologista e médico do sono Danilo Sguillar, do Hospital Beneficência Portuguesa de São Paulo, explica que casos como o de Luisa são mais comuns do que se imagina. As variações comportamentais e de hábito associadas à perda auditiva –como a TV alta e a desatenção– podem aparecer de outras formas. Algumas crianças que tiraram a fralda e têm controle do esfíncter começam a fazer xixi na cama à noite. Outras ficam inquietas e com dificuldade de concentração quando estão em um ambiente com muitos barulhos ao mesmo tempo.

Se o diagnóstico em relação a esses sintomas for de otite média secretora (também chamada de otite média serosa) --caso de Luisa--, há tratamento e o quadro pode ser revertido. São ministradas as medicações adequadas, tais como antibióticos, descongestionantes e corticoides, e o paciente pode ser submetido a uma cirurgia, em que é inserido um tubo de ventilação no ouvido. Logo que a anestesia dada para de fazer efeito, a pessoa sente os efeitos positivos. Esse tipo de otite ocorre quando há um acúmulo de líquidos na região atrás dos tímpanos, impedindo que o som seja conduzido corretamente.

As causas para esse tipo de otite são variadas e adquiridas --ou seja, não são genéticas. O problema aparece principalmente em crianças que, ao longo da vida, tiveram um histórico de repetidas infecções de vias aéreas superiores (o que facilita o acúmulo de líquidos na região). Crianças sindrômicas (com fendas labiais, por exemplo), que tiveram baixo peso ao nascer, não foram alimentadas com aleitamento materno exclusivo até os seis meses ou têm pais tabagistas também desenvolvem maior risco de apresentar o problema.

Crianças que quando bebês tomaram mamadeira deitadas também podem desenvolver otite média secretora. “O aleitamento materno, em qualquer posição que o bebê fique (deitado, sentado ou inclinado), ajuda a prevenir a doença. Isso porque sugar o seio é diferente de chupar o bico da mamadeira (mesmo que ele seja ortodôntico)”, explica Marcus Renato de Carvalho, pediatra docente da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), consultor em amamentação pelo IBCLC (International Board Certified Lactation Consultant) e editor do site Aleitamento.com.

Enquanto mama o seio materno, o bebê leva a língua para baixo e para frente. Com isso, o bico materno é levado até o palato mole, quase na garganta (que recebe o leite), que por sua vez fica além da tuba auditiva. “O único cuidado recomendado é deixar a cabeça da criança levemente elevada quando ela mamar deitada. Assim, evitamos possíveis infecções do ouvido médio”, diz Carvalho.

Se a otite média secretora não for tratada, outro tipo de otite, que causa zumbidos ou tonturas, pode aparecer. "Apesar disso, com o tratamento adequado, o líquido aprisionado atrás do tímpano tende a desaparecer e a audição volta a ser normal", diz o otorrinolaringologista.

Quando se ouve demais

Hipersensibilidade auditiva é o nome de um problema que também interfere muito no comportamento e na aprendizagem da criança. Quem sofre do mal não consegue processar a informação ouvida e tem a sensação de escutar demais, de acordo com a fonoaudióloga clínica Rita Paula Cardoso, de São Paulo.

“O incômodo é tão grande que a criança tem sensação de dor. Muitos diagnósticos de autismo, na verdade, têm a ver com hipersensibilidade auditiva”, diz.

O exame de audiometria pode mostrar se a criança ouve bem, mas não indica se compreende o que está sendo dito. Para avaliar esse quadro, é importante levar em conta que ouvir e escutar não são a mesma coisa. Ouvir tem a ver com a capacidade física. Escutar está relacionado à possibilidade de processamento do som absorvido.

Em lugares muito barulhentos e agitados, a tendência é a criança se isolar, parecer desatenta, procurar fugir da situação ou ficar muito agitada. Sem acompanhamento adequado, o desenvolvimento dos pacientes ao longo dos anos fica prejudicado. Alguns podem chegar a trocar letras na hora de escrever e de falar.

Com tratamento correto, são colocadas em cena técnicas que reeducam a capacidade de ouvir, e a criança se readapta, sem necessidade de medicamentos. Assim gradativamente o problema é sanado. “Quanto antes a criança passa por uma avaliação, com mais agilidade conseguimos agir”, conta a fonoaudióloga.

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