Gravidez e filhos

Programa americano corrige miopia e muda a vida de crianças

Paul Rogers/The New York Times
Crianças que não enxergam bem podem ter dificuldades de aprendizado imagem: Paul Rogers/The New York Times

Jane E. Brody

The New York Times

Coloque um par de óculos em uma criança que não consegue enxergar direito e você vai mudar a vida dela. Esse é o princípio básico de um programa incrível chamado “ChildSight”, administrado pela fundação “Helen Keller International”, que, a cada ano, faz testes em mais de 100 mil alunos de escolas de ensino fundamental e médio, em comunidades pobres dos Estados Unidos e oferece óculos a quem precisa.

Em Nova York, o programa foi expandido para atender também alunos mais velhos em supletivos, estudantes de escolas públicas com uma porcentagem alta de imigrantes recentes e adolescentes que vivem em abrigos.

Por meio de uma longa associação com a Children’s Aid Society, de Nova York, no ano passado, a fundação examinou e tratou mais de 6.000 alunos, em 16 escolas públicas em locais de baixa renda. Depois de descobrir que entre 25% e 30% dos estudantes não vão bem em exames de vista de rotina, a cidade recentemente prometeu 10 milhões de dólares nos próximos quatro anos para financiar testes de visão em 130 escolas comunitárias, com uma estimativa de que 20 mil pares de óculos sejam oferecidos de graça pela fabricante Warby Parker.

Além do Estado de Nova York, o "ChildSight" agora funciona também em comunidades pobres da Califórnia, Connecticut, Nova Jersey e Ohio, e em milhares de vilas em países asiáticos, nos quais a miopia é um problema especialmente comum.

A meta da fundação é maximizar a possibilidade de as crianças "aproveitarem totalmente suas oportunidades educacionais", explica Nick Kourgialis, que lidera o programa "Helen Keller" globalmente. "É um problema fácil de resolver e que pode habilitar a criança a se dar bem academicamente."

Crianças com problemas de vista não resolvidos frequentemente sofrem na escola. Os que têm miopia podem não enxergar o que os professores escrevem no quadro negro. Algumas crianças não conseguem acompanhar as palavras em uma página, o que torna ler uma tarefa difícil e, algumas vezes, impossível.

Com muita frequência, apesar da inteligência normal, essas crianças fracassam academicamente ou saem da escola. Algumas vezes, a instituição avalia incorretamente quem tem problemas de aprendizado e esses alunos são colocadas em salas de educação especial.

Problemas de comportamento também são comuns em crianças com dificuldades para enxergar, que podem ser diagnosticadas como TDAH (transtorno de déficit de atenção e hiperatividade) e tratadas erroneamente com estimulantes. Em um estudo com 81 alunos do ensino infantil, fundamental e médio considerados "em situação de risco" por causa de questões de comportamento, 97% fracassaram em pelo menos um dos testes da Bateria de Exames de Vista da Associação de Optometria do Estado de Nova York.

Você pode se perguntar como as crianças chegam ao ensino fundamental ou até ao ensino médio sem saber que sua visão está comprometida. Mas, como diz Kourgialis, "se uma criança sempre viu o mundo de modo embaçado, ela pode não saber que tem um problema e que as outras pessoas não enxergam da mesma maneira".

Quando Christian Merchan estava no quarto ano do ensino fundamental, no Queens, "achava a vida um grande desafio", até que o programa “ChildSight” revelou que tinha miopia severa e lhe deu lentes corretivas que sua família não podia pagar. Os professores de Christian haviam dito para sua mãe que o menino não conseguia terminar suas lições de casa. Ela percebeu que ele não enxergava o quadro negro bem o suficiente para copiar as tarefas.

Mas, com óculos e exames anuais de vista para renovar seus graus, Christian hoje é um aluno excepcional que frequenta a Cathedral Prep High School com bolsa e está avaliando suas perspectivas para a universidade.

Uma em cada cinco crianças que precisam de óculos não pode pagar por eles, afirma a fundação. E cerca de metade daqueles que usam correção está com óculos com graus sem atualização, que não são mais eficientes. À medida que as crianças progridem na escola, as demandas por suas habilidades visuais aumentam.

Apesar de não haver informações científicas rigorosas sobre a efetividade do programa, Kourgialis diz que os professores veem um efeito "muito positivo". As crianças que passaram a usar óculos "estão mais comprometidas, participam mais na sala e completam suas tarefas", afirma ele.

Um teste aleatório, conduzido na China entre 3.177 crianças do quarto e quinto anos do ensino fundamental com miopia sem correção, descobriu que oferecer a elas óculos de graça teve um efeito positivo maior nas notas das provas de matemática do que a educação dos pais ou a riqueza da família. E aqueles que receberam os óculos tiraram notas mais altas do que os que não receberam.

Nos Estados Unidos, cerca de 12% das pessoas com mais de 12 anos corrigem a miopia de maneira inadequada, principalmente entre os americanos de origem mexicana, negros não hispânicos e pessoas com idades entre 12 e 19 anos.

Apesar de todas as crianças terem que passar por exames de vista desde que entram na escola, não há um padrão de acompanhamento para garantir que aqueles que precisam de óculos os usem ou chequem periodicamente a mudança de grau. Entre as crianças de comunidades carentes, os problemas são a falta de dinheiro da família e de acesso a serviços profissionais, especialmente em áreas rurais, diz Kourgialis.

Mesmo em famílias que têm condições de pagar por um par inicial de óculos, se a criança o perde ou quebra –um problema comum–, o custo de substituí-lo pode se mostrar proibitivo. O programa “ChildSight” oferece substituição de graça.

Com certeza, as crianças do ensino fundamental, idade em que a autoconsciência aumenta, não gostam de saber que precisam de óculos. Mas ajuda quando muitos colegas os usam e quando os óculos permitem que participem de esportes.

Para garantir que essas crianças consigam os óculos que precisam e os usem, a fundação oferece todos os serviços nas escolas e dispõe de uma grande variedade de armações estilosas.

O exame inicial é feito por pessoas treinadas que pedem para que a criança leia as linhas cada vez menores da tabela de Snellen (diagrama utilizado para avaliar a acuidade visual), com cada um dos olhos, de uma distância de seis metros. Aqueles com dificuldade de ler abaixo da linha 20-40 no cartaz são examinados por um optometrista, que faz uma receita de óculos enviada a um laboratório junto com a armação selecionada. Quando os óculos ficam prontos, são entregues para a criança na escola.

Apesar de a tarefa principal do “ChildSight” ser descobrir crianças com miopia por meio da leitura da tabela de Snellen, algumas vezes outros problemas de visão também são detectados, e as crianças são encaminhadas para profissionais que cobram pouco ou nada.

Os pais não devem assumir que uma criança que passa no exame de vista na escola não tem problemas de visão. Entre os sinais que precisam de mais exames estão esfregar muito os olhos ou piscar demais, evitar ler ou fazer outras atividades de perto, segurar materiais colados ao rosto, sentar muito na frente da televisão, perder o ponto onde está na leitura, ter dificuldade de se lembrar do que foi lido, sentir muitas dores de cabeça ou possuir um período de atenção muito curto.

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