Gravidez e filhos

Uso de eletrônicos e falta de estímulos dos pais atrasam a fala da criança

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Segundo estudo, uso frequente de celulares e tablets aumentou problemas de fala imagem: Getty Images

Melissa Diniz

Do UOL, em São Paulo

Os olhos brilham e os dedinhos não param de tocar a tela. Quem já viu uma criança brincando com um celular ou tablet sabe que os eletrônicos parecem exercer uma espécie de hipnose sobre meninos e meninas desde muito cedo, com jogos, aplicativos, filmes e desenhos. Mas o contato excessivo com esses aparelhos pode gerar consequências negativas ao desenvolvimento infantil, principalmente no que se refere à linguagem. Uma pesquisa realizada no Reino Unido, em 2012, constatou que, em seis anos, houve um aumento de 70% nos problemas de fala de crianças por conta do uso frequente de celulares e tablets.

Para prevenir consequências danosas ao desenvolvimento infantil, a Academia Americana de Pediatria recomenda que crianças menores de dois anos não tenham nenhum contato com a tecnologia. Após essa idade e até a adolescência, o uso deve ser limitado a duas horas por dia.

Segundo especialistas, embora sejam uma fácil e rápida solução para distrair as crianças em viagens e momentos de estresse, os eletrônicos não devem substituir brincadeiras tradicionais e, principalmente, o contato humano.

“Hoje percebemos que há crianças que demoram mais para falar por falta de estímulos em casa. Infelizmente, as brincadeiras e jogos tradicionais estão sendo substituídos pelas versões digitais, que proporcionam uma experiência totalmente diferente em termos de aprendizado”, afirma a fonoaudióloga infantil Elisabete Giusti, especialista em desenvolvimento da linguagem e suas alterações pela USP (Universidade de São Paulo).

De acordo com Elisabete, brincar com um jogo de memória tradicional é uma experiência muito mais rica do que usar uma versão digital. “Jogos de computador normalmente não dão à criança o mesmo senso de começo, meio e fim. Além disso, o tempo de atenção dela, ao usar um eletrônico, é bem menor”, declara. Isso sem contar que o jogo analógico normalmente promove a interação com alguém, enquanto que, no celular ou tablet, a criança brinca sozinha.

A fonoaudióloga afirma ainda que os pais também atrapalham quando, ansiosos, não dão à criança tempo para falar e acabam, eles mesmos, respondendo às perguntas que fazem. “Outro comportamento negativo é ficar o tempo todo testando o desenvolvimento do filho, perguntando seu nome, sua idade na frente de alguém. Isso não é interação. A criança percebe que está sendo testada e se irrita por ter de responder sempre a mesma coisa.”.

Marcos do desenvolvimento

A fonoaudióloga Elisabete Giusti explica que existem marcos ou fases que a criança precisa atingir para desenvolver adequadamente a fala. Todos os sons emitidos são, portanto, importantes e têm uma finalidade no aprendizado geral.

Os primeiros são as vocalizações, que costumam ser produzidas quando a criança atinge os dois meses de vida. “São vogais e, às vezes, alguns sons guturais também. A partir dos seis meses já há um balbucio, percebemos uma sequência de sílabas que combinam vogais e consoantes, como bababá e dadadá.”

Todas essas fases, afirma Elisabete, demonstram uma intenção de comunicação. É também a partir do sexto mês que a criança percebe a voz dos pais e ouve a si mesma, brincando com os sons que emite. Com um ano, aparecem as primeiras palavras e a criança começa a tentar imitar os sons dos bichos. Por volta de 18 meses, faz combinações de duas palavras. Aos dois anos já deve falar pequenas frases e ter um vocabulário de cerca de 200 palavras.

“É importante os pais observarem que essa habilidade de produzir os sons precisa ser ampliada com o tempo. Não importa, nessa fase, se a pronúncia está correta, mas o repertório tem de aumentar gradativamente.”

A especialista afirma que é um erro imaginar que crianças que não falam na idade certa “têm seu próprio tempo” ou que ao entrar na escola irão recuperar o tempo perdido. O atraso na fala pode prejudicar também a escrita e a socialização da criança quando ela começar a estudar.

“O grande risco de esperar é perder um período importante de neuroplasticidade [capacidade que o sistema nervoso tem de se adaptar] para fazer intervenções precoces. Quanto antes se intervém, melhores serão os resultados.”

Ao perceberem alguma dificuldade, os pais precisam procurar ajuda. “Se uma criança não passou pelos marcos de desenvolvimento ou se aos dois anos não fala nada, é preciso procurar uma avaliação profissional”, diz.

Segundo a fonoaudióloga, pode acontecer ainda de a criança estacionar em alguma fase e não dar continuidade ao desenvolvimento. “Algumas não têm vocabulário, outras não conseguem formar frases, outras não conseguem aprender os sons ou têm uma fala de difícil compreensão. Pode ser o caso de fazer uma terapia específica, para cada problema há um tratamento diferente.”

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