Gravidez e filhos

Adolescentes exibem automutilação nas redes sociais

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Adolescentes compartilham no Instagram fotos de automutilação imagem: Reprodução/Instagram

Do UOL, em São Paulo

O fenômeno conhecido como "cutting" --uma prática de automutilação que consiste em fazer pequenos cortes no corpo-- está ganhando uma perigosa popularidade graças às redes sociais. É o que diz a psiquiatra Jackeline Giusti, do Ambulatório de Adolescentes, Drogas e Automutilação do Serviço de Psiquiatria da Infância e Adolescência do Hospital das Clínicas de São Paulo.

Segundo a pesquisadora, embora não existam registros oficiais sobre esse comportamento no Brasil, basta uma consulta em redes como Youtube, Instagram e Facebook para constatar o aumento do interesse pelo tema. Foi o que Jackeline fez em 2012. Ao buscar a palavra “automutilação” no Youtube, ela encontrou 141 vídeos postados somente naquele ano. A mesma pesquisa feita em outubro de 2015 revelou 2.430 novas postagens ao longo do ano. São vídeos feitos, em sua maioria, por meninas contando suas histórias ou expondo suas cicatrizes.

Dor no corpo ameniza a dor na alma

Muitos automutiladores relatam alívio com a prática. “É como se infligir dores no corpo aliviasse as dores da alma”, declara a psicóloga Eliana Olímpio, especialista em adolescência pela Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais. “Porém, imediatamente após o alívio, a pessoa sente culpa e medo. Sentimentos que fazem com que o adolescente se isole e se sinta sozinho.”

Em tempos de relacionamentos virtuais, as redes sociais constituem uma tentativa de romper esse isolamento e buscar ajuda. “Vivemos em um momento social em que o que não é visto, não é sentido, e o que não é compartilhado, perde o valor de vivido. A automutilação, longe de ser uma moda, é um sintoma do nosso tempo, de como os adolescentes vivenciam os acontecimentos e onde e como estão encontrando formas de expor suas dores subjetivas. No corpo e na internet, o subjetivo se torna real”, diz a psicóloga Mariana de Oliveira, especialista em psicodrama clínico e sócio educacional.

A paulistana Giulia*, 17, é uma dessas jovens que usa as redes sociais para compartilhar suas dores. Ela começou a se cortar quando perdeu a avó, por quem havia sido criada. Teve de morar com a mãe, usuária de drogas. Tinha, então, 12 anos. Já tentou parar de ferir os braços com facas e lâminas de barbear, mas acabou voltando. “É mais forte do que eu”, fala.

“A prática torna-se um vício. A pessoa se corta mais e mais e, mesmo sabendo dos danos que podem acontecer, não consegue parar”, afirma Eliana. Segundo a psicóloga, a vítima só se livra do vício se assistida por um profissional que oriente um processo de libertação dos sentimentos (muitas vezes inconscientes) que a levam à automutilação.

Sinais e o que fazer para ajudar

Um dos sinais mais característicos da prática de "cutting" é o uso de roupas compridas, como as que usa Tânia*, 13. Ela mora em Rio das Ostras, cidade litorânea do Rio de Janeiro, e nunca tira as camisas e as calças compridas, mesmo nos dias de maior calor, para esconder as cicatrizes. “Geralmente os cortes são feitos em locais mais fáceis de serem cobertos, como braços, pernas e abdome. Não é o objetivo da automutilação exibir os ferimentos no dia a dia; se o fazem, geralmente, é de forma anônima”, diz Jackeline.

Mas há ainda outros sinais que devem despertar a atenção dos pais: adolescentes que apresentam mudanças bruscas de humor, hábitos ou horários podem estar com problemas. “É importante que os adultos aprendam a conhecer seus filhos. Estar junto deles nos diversos eventos e situações que eles vivenciam favorece esse conhecimento. Não é para investigá-los, mas para servir como ponto de apoio. O diálogo em todas as circunstâncias é a melhor precaução”, afirma Eliana.

Um tratamento especializado, com psiquiatra ou psicólogo –de preferência, para toda a família– torna-se necessário quando o distúrbio já está instalado. No caso da carioca Vitória*, 13, a ajuda demorou a chegar: ela começou a se cortar com apenas sete anos, depois de conhecer a prática na internet. Diz que começou a fazer isso para amenizar a dor pelo bullying que sofria na escola: “Falavam que eu era gorda, burra e que podia sumir”, afirma. Ela conta que se corta com cacos de copos quebrados, que guarda em uma caixa. Há mais ou menos um ano, a mãe descobriu o problema e a levou a um psicólogo. Mas Vitória ainda não conseguiu parar de se cortar.

“Se um pai ou mãe descobrir sobre a automutilação do filho, em um primeiro momento, o ideal é agir simplesmente como se ele estivesse chorando”, diz Jackeline. Ou seja, o acolhimento amoroso dever ser a primeira reação. “É importante perguntar o que o faz sofrer e não diretamente sobre a automutilação. Depois, pais e filhos devem buscar juntos a ajuda de um profissional”, afirma a psiquiatra.

* Nomes foram alterados para preservar a identidade das entrevistadas.

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