Gravidez e filhos

Exames de ultrassom erram na previsão do tamanho de bebês

Joyce Hesselberth/NYT
Estimativa de peso do bebê maior que a real leva grávidas a fazerem cesárea imagem: Joyce Hesselberth/NYT

Roni Caryn Rabin

The New York Times

Katy Clemens queria ter um parto natural e sem medicamentos. Então um exame de ultrassom sugeriu que seu filho nasceria com 5,2 kg e seus médicos insistiram que ela marcasse uma cesariana.

Depois que descreveram os danos que poderiam acontecer a um bebê tão grande durante um parto natural, Katy concordou. Mas quando Sam nasceu por cesariana, os médicos tiveram uma pequena surpresa.

Sam só tinha 3,5 kg —quase 1,8 kg a menos do que o esperado. Os médicos ficaram tão surpresos que colocaram o bebê de novo na balança só para conferir.

“Eles disseram que as estimativas nunca estão erradas por mais de meio quilo. Imagine então se o bebê fosse 30% maior”, afirmou Katy, 37, advogada de Columbia, Maryland, que afirma agora que a cirurgia era desnecessária e, provavelmente, levou o filho a ter problemas respiratórios durante o parto, uma complicação mais comum entre bebês nascidos por cesárea.

Katy não é a única. No mês passado, pesquisadores relataram que uma parcela significativa das mulheres é incorretamente informada sobre o tamanho dos bebês antes do parto. A pesquisa mostrou que as mães que acreditam que os filhos serão grandes têm cinco vezes mais chances de agendar uma cesariana, mesmo que, na maioria dos casos, o bebê tenha nascido com menos de 4 kg, que é a definição médica de um bebê grande.

Dizer às mães que o bebê será grande “tem um impacto profundo que contribui para diminuir a confiança da mulher no parto natural”, afirmou Eugene R. Declercq, professor da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de Boston e um dos autores do novo estudo, publicado na revista científica “Maternal and Child Health Journal”, em dezembro.

Menos de 8% dos bebês nascidos nos Estados Unidos correspondem à definição médica de bebês grandes. Mas as estimativas exageradas do peso do feto podem ter um papel importante nos índices de cesarianas no país, afirmou Declercq. Nos Estados Unidos, mais de 30% dos bebês nascem por cesariana.

“O parto é visto desde o começo como um processo doloroso. Quando dizem que seu filho vai ser grande, a ideia é de que vai ser ainda mais doloroso e que há riscos e complicações que podem afetar a saúde do bebê. É compreensível que as mulheres não queiram passar por isso”, afirmou Erika R. Cheng, professora-assistente de pediatria da Faculdade de Medicina da Universidade de Indiana, em Indianapolis, e principal autora do estudo.

O novo estudo, conhecido como “Listening to Mothers III” ("ouvindo as mães III", em tradução do inglês), baseou-se na Childbirth Connection, uma pesquisa nacional envolvendo mais de 1.960 mães de primeira viagem. O estudo revelou que 4 em cada 5 mães que foram alertadas sobre o tamanho dos bebês, na verdade, tiveram filhos que não eram grandes e pesavam menos de 4 kg.

Ainda assim, essas mães tinham quase duas vezes mais chances de serem submetidas a procedimentos médicos como a indução do parto, muitas vezes sem a estrutura necessária, com o objetivo de evitar que o bebê continuasse crescendo. Além disso, essas mulheres tinham duas vezes mais chances de realizar cesarianas planejadas, embora esse aumento não seja estatisticamente relevante.

Segundo as diretrizes do Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas publicadas em 2014, a suspeita de um bebê grande “raramente” é suficiente para exigir uma cesariana. As diretrizes destacam que recém-nascidos com mais de 5 kg são raros, embora afirmem que a cesariana possa ser necessária no caso de crianças com mais de 5 kg ou com mais de 4,5 kg e mães diabéticas.

As preocupações em torno do parto natural de bebês grandes são bastante justificadas. Os nascidos de parto natural têm mais risco de sofrer de distócia do ombro, que ocorre quando a cabeça sai pela vagina, mas os ombros do bebê ficam presos dentro do útero. Isso pode levar a danos nervosos, que acarretam na perda de movimento ou na fraqueza dos braços.

Entretanto, as diretrizes pedem cuidado no uso de exames de ultrassom para estimar o peso do bebê, destacando que esse tipo de avaliação está relacionado a um aumento no número de cesarianas. Por isso, pedem aos médicos que só façam exames de ultrassom “quando necessário”, avisando às pacientes que  eles são imprecisos durante o terceiro trimestre.

“Nós realmente pedimos cautela porque nossa ferramenta de identificação de fetos grandes ainda é bastante limitada”, afirmou Aaron B. Caughey, que ajudou a desenvolver as diretrizes. “Não somos muito bons em prever o peso do bebê na hora do parto –qualquer estudo sério da literatura médica diria exatamente isso.”

As diretrizes afirmam que os médicos devem “oferecer” a cesariana no caso de bebês previstos para nascer com mais de 5 kg, afirmou. “Mas tenho a impressão de que muitos médicos dão esse conselho inclusive no caso de bebês mais leves do que isso”, mais um fator que pode ajudar a manter elevados os índices de cesarianas nos Estados Unidoas. “Não queremos que as mulheres se decidam pela cesariana sempre que a previsão for de mais de 4 kg.”

Embora seja importante compartilhar as informações com os pacientes, o simples ato de “oferecer” a cesariana já influencia a decisão das pacientes, afirmou Caughey. “Se você está oferecendo alguma coisa que geralmente não acontece, é como se estivesse dizendo que aquela é uma opção muito boa.”

Algumas mães, como Katy, dizem que a “oferta” vem acompanhada de muita pressão.

“Fui convencida a fazer a cesariana. Eles me disseram que meu bebê teria danos nervosos permanentes e jamais conseguiria dançar ou jogar bola porque resolvi fantasiar sobre o parto. Além disso, eles sempre diziam que, afinal, ‘não é a saúde do bebê o que mais importa?’”

Porém nem todas as mães são forçadas. Michelle Mirsky, psicóloga de 30 anos que vive em Hartford e soube que o bebê teria quase 4 kg, afirmou que os médicos discutiram a possibilidade de uma cesariana, mas não a pressionaram a tomar uma decisão.

“Meu corpo é bem pequeno e eles sempre me lembravam de que a cesariana era uma opção viável”, afirmou Michelle, que assim como Katy teve diabetes gestacional, que pode causar um aumento no tamanho dos bebês. “Mas definitivamente não queria uma cesárea. Muitas amigas e parentes tinham feito esse tipo de parto e eu sabia que a recuperação seria barra pesada.”

Quando a filha, Aliza, nasceu em setembro de 2015, ela pesava 3,4 kg. “Era perfeitamente normal. Quase não consegui chegar ao hospital a tempo do parto.”

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