Gravidez e filhos

Mães relatam o drama da perda gestacional tardia

Bruno Santos/UOL
Patrícia sofreu uma perda gestacional aos nove meses de gravidez imagem: Bruno Santos/UOL

Do UOL, em São Paulo

Depois de descobrir a gravidez, a primeira preocupação dos pais é a saúde do bebê dentro da barriga da mãe. No entanto, nem sempre a gestação sai como o esperado e o casal precisa vivenciar o luto. O período é delicado e eles encontram pouco espaço na sociedade para vivenciá-lo.

Há três tipos diferentes de perdas gestacionais. Quando acontece até a 22ª semana de gestação é chamada de aborto espontâneo ou perda gestacional precoce.

De acordo com João Bosco Meziara, membro da diretoria da Sogesp (Associação de Obstetrícia e Ginecologia do Estado de São Paulo), caso a perda gestacional aconteça da 22ª semana até a 36ª semana, os médicos consideram que foi o parto prematuro de um natimorto.

A partir da 36ª semana em diante, se o bebê morre no útero materno, há uma perda gestacional tardia.

Para abrir espaço para a reflexão sobre o tema, o UOL reuniu oito depoimentos de mulheres que passaram pela experiência.

Patricia Aparecida Formigoni Avamileno, 49, advogada

"Quando perdemos os pais, somos órfãos. Quando perdemos o marido, somos viúvas, mas, quando perdemos um filho, isso sequer tem nome. Receber essa notícia é como um coice no estômago. Um pesadelo sem fim. Perdi o meu segundo filho no nono mês de gestação. A causa foi anoxia intrauterina (falta de oxigenação no cérebro). Desde sua morte, não existe Natal que seja alegre, pois ele morreu em 19 de dezembro de 1997. Como tiveram de me dopar após o parto, minha mãe e meu marido não permitiram que eu visse o bebê. Também não pude acompanhar o velório nem o enterro. Sinto até hoje saudade de alguém que sequer conheci. Lembro que, na sala de pré-parto, senti a placenta mexer e gritei chamando o médico, acreditando que meu filho se movia. Anos depois, eu me tornei mãe novamente."

Fabiana Pacheco, 30, técnica de radiologia

"Perdi minha filha Clara no sexto mês de gestação. Descobri que ela estava morta em um ultrassom de rotina. Era uma quinta-feira. O coração dela simplesmente parou. Foi difícil acreditar que estava passando por aquilo. Já havia comprado todo o enxoval, que, por sinal, continua comigo. No dia seguinte à descoberta, fui internada na maternidade, onde começaram a induzir o parto normal. Em um sábado, às 9h, ela nasceu. Já faz mais de dois anos, mas não superei o luto. Nunca mais consegui engravidar novamente, mesmo sem me prevenir." 

Elisangela da Cunha, 40, analista de recursos humanos

Bruno Santos/UOL
Elisangela teve uma perda gestacional aos nove meses de gestação imagem: Bruno Santos/UOL
"Engravidei em março de 2009 e tive uma gestação tranquila, apenas com uma diabetes que precisava ser controlada. Mas, no nono mês, quando dei entrada no hospital para o parto, foi constatado no ultrassom a falta de batimento cardíaco da bebê. Ela estava morta. Induziram o parto normal, que foi muito sofrido e demorado. Quando ela nasceu, viram que estava com o cordão umbilical enrolado no pescoço. A criança se chamaria Melissa. Precisei da força do meu marido e da minha família para superar. Depois disso, adotei três gatos. Foi só há um ano e dez meses que me tornei mãe novamente, com o nascimento do Enzo."

Fernanda da Silva Oliveira, 20, recepcionista

"Nas minhas últimas consultas, percebi que os médicos notavam algo diferente ao examinar a minha barriga. Eles me indicavam outros hospitais para ir e diziam que era preciso pressa. Até que uma médica percebeu que o coração da Nicole não batia mais. No ultrassom, foi comprovado: ela não se mexia. Foi difícil acreditar que, no sétimo mês de gestação, todo o meu plano familiar tinha ido por água abaixo. Já tinha comprado o carrinho mais lindo do mundo, além de brinquedos e um peniquinho. O parto normal foi induzido e tive de passar por todas as dores, mas não serviu para nada. Decidi não me desfazer do que tinha comprado para ela. Está tudo guardado. No futuro, vou engravidar novamente e, se for menina, também se chamará Nicole."

Layla Gomes de Carvalho, 27, atendente

"Em 2009, engravidei de gêmeos. A gestação corria tranquila e, na 38º semana, realizei a cesárea. Eles estavam vivos minutos antes de nascer. Mas, na hora em que foram retirados, morreram. Tinham entrado em sofrimento fetal, o que acarretou insuficiência respiratória. Ainda dentro do centro cirúrgico, o anestesista me disse: 'Seus bebês não estão nada bem', mas só no quarto fui entender o ocorrido. Fiquei meio fora do ar. Dois dias depois, fui internada na UTI, porque meus órgãos foram afetados por uma infecção. Tive miocardia peripato, uma doença rara que provoca insuficiência cardíaca. Passei mais de um mês internada. Foi lutando pela minha vida que eu, minha família e amigos conseguimos superar a perda dos gêmeos. Cinco anos depois, embora os médicos desaconselhassem, engravidei novamente. Hoje, tenho minha filha e essa é a melhor parte da história." 

Suely Nerder Vieira, 52, psicóloga 

"Em 1987, nasceu meu primeiro filho, Caio, mas, depois dele, tive cinco abortos. Em 1990, grávida de gêmeos, um ultrassom identificou um tumor placentário, que, no sétimo mês de gestação, levou os bebês a óbito. Em 1992, teria uma menina, mas, no oitavo mês, o coração dela simplesmente parou de bater. Três anos depois, era para nascer a Nicole, mas, em uma consulta de rotina, o médico não conseguiu ouvir o coração. Era o sétimo mês e ela estava morta. Naquele ano, meu marido e eu decidimos não ter mais filhos. Porém, em 1996, engravidei novamente e, embora esperasse o pior, a Marina, minha segunda filha, nasceu bem. Em 2000, engravidei novamente e perdi mais uma menina. O óbito fetal foi detectado com seis meses e fui orientada a aguardar o aborto natural em casa. Foi horrível pegar meu bebê dentro do vaso sanitário. No ano de 2005, perdi mais um filho, no oitavo mês de gravidez. Depois disso, não quis mais tentar, pois já estava com 40 anos."

Sandra Regina Delongue da Silva, 52, artesã 

"Não tive nenhuma complicação na gravidez, mas, no oitavo mês, meu bebê morreu. O médico descobriu que ele estava morto há 15 dias na minha barriga, mas não identificou a causa. Quase enlouqueci. O mais difícil foi saber que não poderia criar o meu filho. Ele se chamaria Bruno e já tinha todo o enxoval e quarto prontos. Quando ele morreu, decidi doar tudo. Precisei fazer parto normal. Faz nove anos, mas ainda não superei a perda. Ficou um buraco no peito. Só sigo levando a vida porque não tem outro jeito."

Susankelli Packer, 23, técnica de saúde bucal

"Descobri que estava grávida em 26 de maio de 2014. Com 37 semanas de gestação, senti uma dor forte e percebi um leve sangramento. Corri para a maternidade e descobri que o bebê tinha entrado em sofrimento fetal e estava sem vida. Recebi a notícia friamente durante o ultrassom. Na época, queriam induzir o parto normal ou me deixar internada por alguns dias para retirar, em pedaços, o bebê. Fui contra os procedimentos e optei pela cesárea. Meu filho era grande, pesava mais de quatro quilos e media 52 centímetros. Doei 90% das coisas que comprei, vendi só os itens grandes, como carrinho, bebê conforto e móveis do quarto. Quero muito outra gestação, mas não no momento. Terei de travar uma grande batalha contra o meu psicológico até estar apta a gestar outro bebê."

Topo