Gravidez e filhos

Fazer atividade física antes do fim do resguardo interfere na amamentação

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Deborah deu à luz em 4 de dezembro e, 29 dias depois, em 3 de janeiro, começou a praticar atividades físicas imagem: Reprodução/Instagram

Thamires Andrade

Do UOL, em São Paulo

Mãe de primeira viagem, a atriz Deborah Secco relatou em entrevistas dificuldade para amamentar a filha Maria Flor. Apesar de compartilhar o mesmo drama de muitas mulheres, Deborah têm um fator que pode ter contribuído para isso: voltou a se exercitar antes do fim do resguardo –período de 40 dias logo após o parto. De acordo com pediatras ouvidos pelo UOL, "atropelar" a fase, independentemente do preparo físico da mãe, interfere, e muito, na produção de leite.

"A mãe e o bebê ainda não se conhecem, não sabem como cada um funciona. É uma fase de adaptação e cuidados com a saúde física e mental. A mãe tem o resto da vida para emagrecer. Não há necessidade de fazer dieta e exercícios antes da hora e colocar o sucesso da amamentação em risco", afirma o pediatra Moises Chencinski, membro do Departamento de Aleitamento Materno da SPSP (Sociedade de Pediatria de São Paulo).

O problema de iniciar as atividades físicas precocemente são os hormônios liberados durante o treino. "Durante a prática da atividade, a mulher libera dopamina e adrenalina e essas substâncias inibem a prolactina --hormônio que estimula a produção de leite", declara Chencinski.

Outro fator que pode contribuir para o desmame é a desidratação. "Para amamentar, a mãe precisa tomar de três a cinco litros de água por dia e, ao se exercitar, ela deve ingerir 20% a mais. É praticamente impossível cumprir essa missão", diz o pediatra Sylvio Renan Monteiro de Barros, autor do "Blog do Pediatra" e do livro "Pediatria Hoje" (MG Editores).

A produção de ácido lático, que acontece depois de exercícios intensos, também pode afastar o bebê do peito. "Ele deixa o leite mais azedo, e algumas crianças não gostam e se recusam a mamar. Esse composto só sai da circulação depois de 90 minutos", fala a pediatra Silvana Salgado Nader, membro do Departamento de Aleitamento Materno da SBP (Sociedade Brasileira de Pediatria).

Chencinski diz não entender a razão de as mães que emagrecem logo depois de dar à luz serem parabenizadas. "Não vejo sentido nisso. O foco inicial de toda mãe precisa ser o cuidado com o bebê. Longe de dizer que quem não amamenta não ama seu filho, mas é preciso tentar sempre fazer o melhor possível pela criança. As famosas deveriam dar esse exemplo, mas fazem o contrário. Contribuem para que muita gente que hoje poderia amamentar desista."

Segundo o membro do Departamento de Aleitamento Materno da SPSP, o retorno ao corpo de antes da gravidez deve ser feito gradualmente, de seis meses a um ano, inclusive para as mais magras. "A diferença é que quem está acima do peso, terá de recuperar mais. Mesmo se for uma gestante magra (48 quilos) que engordou 12 quilos na gestação, já é um aumento de 25% no peso. É muito para emagrecer rapidamente", fala.

Segundo Barros, a principal fonte de queima calórica das mães durante o resguardo é justamente a amamentação. "Para amamentar, a mãe gasta de 600 a 700 calorias por dia, vários exercícios não chegam nem perto dessa quantidade. Fora todos os cuidados, preocupações e inseguranças, que também aumentam o gasto calórico."

Na hora de retomar as atividades, que são muito indicadas principalmente para prevenir a depressão pós-parto, os especialistas ouvidos recomendam iniciar com exercícios leves, como caminhada, natação e ioga, sempre com a orientação de profissionais especializados em puérperas.

Silvana também indica que, durante os exercícios, as mulheres usem tops de algodão com boa sustentação para os seios. "Isso faz com que os mamilos não fiquem roçando no tecido, o que pode deixá-los machucados depois na hora de amamentar a criança", diz.

Com relação à dieta, a mãe deve seguir uma alimentação saudável e equilibrada, sem restrições. "Quando se inicia uma dieta para perder peso, a mulher acaba se privando de nutrientes que ela e o bebê precisam. Ela emagrece, enfraquece e perde proteínas fundamentais para o leite materno", afirma Chencinski.

Barros recomenda que, depois do resguardo, as mulheres que estiverem muito incomodadas com os quilos a mais busquem um nutricionista especializado em lactantes. "Na hora de calcular as calorias diárias que devem ser ingeridas, o profissional precisa considerar as calorias que o bebê retira da mãe ao mamar", explica.

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