Gravidez e filhos

Mães que se separaram antes do primeiro ano do filho contam suas histórias

Marcus Desimoni /UOL
Jaqueline decidiu se separar do pai do filho aos nove meses de gestação imagem: Marcus Desimoni /UOL

Beatriz Vichessi

Colaboração para o UOL, em São Paulo

Definitivamente, nem só de alegrias vive uma relação quando a chegada de um bebê é anunciada. Conheça a história de três mulheres que se separaram do pai da criança antes mesmo de o bebê completar o primeiro ano de vida. 

Jacqueline de Castro Ferreira, 42, mãe de T., 2 anos e seis meses

“Pedi a separação do pai do meu filho aos nove meses de gestação. Nunca nos casamos de fato, só assinamos um contrato de união estável a pedido da empresa na qual ele trabalhava. Tomar a decisão foi muito difícil para mim, mas resolvi encarar a situação em vez de continuar em um relacionamento que não me dava segurança alguma. Estava desempregada e ele queria que eu trabalhasse de qualquer forma, não entendia a situação. Para piorar, me tratava com indiferença e me traía. A gravidez já estava no nono mês quando ele quase me agrediu fisicamente. Esse foi o fator decisivo. Sentamos para conversar e disse que queria me separar, pedi a ele que saísse de casa e deixei claro que não iria impedi-lo de ver a criança. Foi tudo muito difícil, eu gostava dele. A primeira pergunta que ouvi foi: ‘como você vai pagar o aluguel?’. Ele estava tentando me intimidar, pensando que voltaria atrás por causa de dinheiro. Sei que muitas mulheres cedem diante de um cenário desses. Não têm condições de se sustentar e, por ter um filho com o sujeito, submetem-se a continuar com ele. Depois de muita conversa com o pai do bebê, ele pediu para continuar em nossa casa até a criança nascer e ele encontrar outro lugar para ficar. Durante esse tempo, ele até tentou se reaproximar. Mesmo confusa e um pouco indecisa, disse não. Acabamos morando na mesma casa até o T. ter seis meses, pois tivemos de receber a mãe e o pai dele, para que este fizesse tratamento para leucemia. Ele não resistiu e morreu. Meu filho já estava com seis meses de vida e eu não aguentava mais o pai dele continuar em casa. Tive de expulsá-lo. Fiquei em frangalhos e sozinha com o bebê, mas segui em frente, mesmo desempregada e sem forças para decidir meu caminho profissional. Sou atriz e até apareceram alguns trabalhos, mas não deu nada certo. Também tentei empreender, mas não obtive êxito. Tudo isso fez as brigas com meu 'ex' piorarem, pois ele insistia em insinuar que eu não queria trabalhar. Minha mãe, apesar de ter me questionado no início, me apoia muito até hoje no dia a dia com T. e financeiramente também. O pai do meu filho continua visitando-o e ainda temos certa dificuldade de nos relacionar. Ele paga todas as despesas até hoje, pois não arranjei trabalho ainda. Ele acha um absurdo e já discutimos sobre isso várias vezes, mas não consegui, de verdade. Meu maior sonho é que a gente consiga se relacionar bem por causa do nosso filho.”

Flávia Loturco, 30, mãe de I., 1 ano e seis meses

"Eu e o pai do meu filho nos separamos quando o bebê tinha seis meses. Desde a gestação passei por momentos difíceis com ele, eu me sentia muito sozinha. Quando engravidamos, éramos namorados e morávamos juntos há pouco tempo, foi uma surpresa. Nem pensava em ter filhos, apesar de ele ter adorado a ideia. Mas logo as coisas mudaram: ele chegava do trabalho e queria dormir, sair para jogar bola, enfim, viver a vida dele. Eu estava sem convênio médico e ele chegou a reclamar de pagar por tantos exames de pré-natal. Mas ele mesmo enrolou para me colocar como dependente do plano dele. Também me sentia muito solitária no ambiente de trabalho, pois a empresa não aceitou com bons olhos minha gravidez. Então, para ficar menos só, decidi me mudar para o mesmo bairro dos meus pais. Fiz tudo o que diz respeito ao enxoval do bebê sem ajuda dele, que sentia tanto sono o tempo inteiro a ponto de dormir sentado. Meus pais chegaram a conversar com ele quando I. nasceu, dizendo que era importante procurar um médico para descobrir o que estava ocorrendo, já que eu precisaria de muita ajuda dali em diante. Quando voltamos para casa, ele se mostrou negligente com o filho. Chegou a mentir para mim. Pedia a ele que esterilizasse a mamadeira e ele mal lavava, deixando-a com mau cheiro. Ia tomar banho e pedia que olhasse a criança, quando voltava, ele estava dormindo e o bebê se acabando de chorar. Reclamava se eu pedia ajuda para colocar a roupa no varal depois de voltar do trabalho. Dizia que eu ficava em casa o dia inteiro e ele estava cansado. Discutíamos muito e ele era muito grosso. Dormir parecia ser uma fuga dele, mas, aos fins de semana, ele me deixava com nosso filho e saía para jogar bola. Depois disso tudo, dei uma basta: me mudei para a casa dos meus pais. Ele até tentou se reaproximar de mim algumas vezes, pois é uma pessoa muito inconstante. Às vezes, desaparece por longos períodos, depois reaparece e passa um tempão por perto. Tive depressão pós-parto e acho que tudo o que o pai do meu filho fez só contribuiu para agravar o quadro.  Temos um contrato de união estável e estou até agora para entregar a papelada à advogada para dar entrada na pensão alimentícia do bebê. Demorei, pois, como pai, ele até chegou a se mostrar participativo, achava que não precisaria formalizar essa questão na Justiça. Acho ruim criar um filho sem a presença do pai. Gostaria de dividir responsabilidades com ele e não com os meus pais. Queria que ele fosse uma referência para o menino, que abre um sorrisão quando ele resolve aparecer. Infelizmente, até hoje, não tenho segurança para deixar pai e filho sozinhos e ir me cuidar um pouco.”

Lúcia*, 29 anos, mãe de Carlos*, 5 anos

“Engravidei do meu namorado sem ter planejado, mas meu filho foi uma criança desejada durante a gravidez, sim. Desde o início, eu e o pai dele vivíamos uma relação conturbada. Em certos momentos, tudo estava bem, mas depois vinham as explosões de raiva dele, demonstrações de machismo. Vivemos assim por cerca de três anos, idas e vindas. Nada me dava a sensação de que o relacionamento estava caminhando para algum lugar. Até que um dia decidi terminar. Fui até ele e coloquei um ponto final. Comecei a planejar passar um tempo fora do país, mas não sabia que estava grávida. Fiquei muito preocupada, tinha 24 anos e minha renda mensal não passava de R$ 3.000. Liguei para o pai da criança e ele veio até mim correndo, dizendo que ficaríamos juntos, daríamos um jeito. Mais adiante, eu e ele fomos convidados a trabalhar em uma equipe, mas tínhamos de viajar para isso. Então, resolvi ficar para fazer o pré-natal e ele foi. Quando voltou, eu já estava com cinco meses de gestação e descobri que fui traída. Na verdade, ele foi frio comigo e fez questão que eu soubesse. Não disse nada, mas não negou, ignorando o fato de eu ter problemas de pressão. Não podíamos continuar juntos. Depois disso, certa vez, discutimos e ele me chamou de vagabunda. Decidi ser mãe solteira. Há cinco anos, estamos separados e entendo que éramos dois corações em busca de afirmações e respostas. Não somos amigos. Depois de ele ter me agredido uma vez, entrei com um pedido de medida protetiva. Tive de encarar um processo que era para durar meses e levou quatro anos. No início, eram visitas assistidas. Hoje, ele vê a criança às terças e quintas-feiras e aos domingos. Ele pega o filho, almoça com ele e me devolve, sem me olhar. Não fala comigo sobre nada e quem toma todas as decisões sobre a criança, inclusive as mais pesadas, sou eu. As idas ao hospital, às festinhas… nada é dividido, compartilhado. Às vezes, passo por apertos financeiros, mas sigo caminhando e estou cada dia mais feliz. O pai da criança paga R$ 600 por mês para cobrir as despesas, mantenho esse valor como uma poupança. Separar-se estando grávida ou com um bebê pequeno pode ser assustador no começo, mas é libertador ser dona de você mesma.”

* Nomes foram trocados a pedido da entrevistada

Topo