Gravidez e filhos

Do lar: homens contam como assumiram o cuidado com a casa e os filhos

Arquivo Pessoal
Cláudio deixou de ser empresário para se dedicar aos cuidados com a filha, Luiza imagem: Arquivo Pessoal

Luciana Mattiussi

Colaboração para o UOL, em São Paulo

Aos poucos, os cuidados com os filhos --e outras tarefas domésticas que vêm no pacote-- estão deixando de ser responsabilidade exclusiva das mães. A seguir, cinco histórias de pais que deixaram seus empregos convencionais para capitanearem a criação das crianças.

Cláudio Santos, palestrante e autor do livro "Macho do Século XXI", pai da Luiza, de oito anos 

"Tinha acabado de abrir uma loja de vinhos em São Paulo quando minha mulher recebeu um convite para trabalhar em Cingapura, em 2010. Não tinha motivo para topar, mas não tive coragem de dizer não para ela. O primeiro ano foi complicado, não tinha visto para poder trabalhar e todo dia tinha alguém para me lembrar disso. Na época, nossa filha tinha três anos e meio e, então, percebi que teria de assumir a responsabilidade de cuidar dela. Mas foi quando nos mudamos para os Estados Unidos, depois de um ano e meio na Ásia, que virei dono de casa para valer. Minha mulher achava que eu não ia gostar, mas ela se enganou. Hoje moramos na França e continuo cuidando de tudo, além de ter virado escritor e palestrante. Minha causa é falar sobre a igualdade de gênero. Continuo seguindo a rotina de levantar, fazer o café, levar na escola, arrumar a casa, ajudar na lição de casa, mas, hoje, tenho uma ajudante que me cobre quando não estou. Estou muito realizado e acredito que cumpro uma função social de deixar um mundo melhor para a minha filha do que o que a minha mulher enfrentou."

Ricardo Gazzana Schneider, engenheiro mecânico, pai de duas meninas, uma de sete e outra de três anos

"Sempre quis ser pai e, quando encomendamos nossa primeira filha, montei uma empresa de consultoria em home office, pois assim estaria presente na vida dela desde o início e poderia administrar meus horários em função dos dela. A minha mulher achou interessante, já que não precisaria deixar o trabalho em uma multinacional. Ela ainda teve depressão pós-parto e eu assumi a rotina para que a criança pudesse ser bem cuidada e ela pudesse se tratar de forma adequada. Hoje, somos separados e as crianças foram levadas para morar em outro Estado. Mas até a separação, eu era o cuidador delas. Nossa rotina era estabelecida: cozinhava em casa para elas terem uma comida saudável, levava as duas no clube, colégio, médico. E, quando elas estavam na escola, visitava meus clientes. Participar ativamente da rotina, da educação e da vida dos filhos é algo indescritível. O amor e os vínculos criados são fortíssimos. Hoje sinto falta das meninas em casa. Tento ativamente a guarda compartilhada e a fixação da residência delas comigo por ter melhores condições de estar presente na vida delas, mas não tenho sucesso, pois a guarda materna ainda é um vício da nossa Justiça, mesmo com a lei da guarda compartilhada em vigor."

Arquivo Pessoal
Rodrigo cumpre o papel de cuidador das filhas, Margarida e Iolanda imagem: Arquivo Pessoal
Rodrigo Bueno, designer e ilustrador, pai das gêmeas Margarida e Iolanda, de três anos e meio

"Não foi planejado virar dono de casa, mas minha mulher recebeu uma proposta irrecusável de trabalho para sair de São Paulo e ir para o Rio em 2014. Já na mudança, eu me ocupei muito com a casa e tínhamos a ajuda da babá para cuidar das meninas. Mas ela foi embora e eu acabei assumindo o papel de principal cuidador das minhas filhas para que minha mulher pudesse ir trabalhar em paz. Assumi o controle do dia a dia. Hoje, tenho a ajuda de uma funcionária três vezes por semana, mas sou eu quem cuida da casa, organizo as contas, faço compras, levo as meninas para a escola. Quando elas não estão, aproveito para fazer frilas. Também tenho um blog, o 'Diário da Paternidade', que cuido de manhã bem cedinho, antes de elas acordarem. É muito bom poder ficar com as crianças e valorizar o que é importante: casa, família e filhos." 

Daniel Duclos, blogueiro, pai de um casal de filhos

"A decisão de ficar em casa veio antes mesmo de os filhos chegarem, quando decidi acompanhar minha mulher e vim para Amsterdã. Quando chegamos, passei a investir no blog ('Ducs Amsterdam') em vez de procurar um emprego tradicional na minha área, como administrador de sistemas. Quando a nossa menina nasceu, já estava tudo certo que ficaria com ela. Tivemos mais um filho, e é impossível cuidar de duas crianças pequenas mais a casa sem uma rotina bem estabelecida. Não temos babá nem faxineira, pois são serviços muito caros e incomuns para a classe média na Holanda. Por isso, tem hora para tudo: dormir, acordar, comer, levar ao parquinho. E tem o dia de blogar. É ótimo poder acompanhar o crescimento e o desenvolvimento das crianças mais de perto e sinto que fizemos a escolha certa. Por outro lado, o serviço de casa pode ser algo solitário e é importante se desligar um pouco da rotina de vez em quando. Ficar em casa para cuidar dos filhos não é 'largar' as coisas, é, ao contrário, pegar um trabalho muito bacana, difícil e importante."

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Leonel acompanha a filha, Alice, nas aulas de musicalização para bebês imagem: Arquivo Pessoal
Leonel Dasso Martins, analista de sistemas, pai da Alice, de um ano e três meses

"Quando a Alice nasceu, eu trabalhava em período comercial, chegava em casa para jantar, que era a única hora em que a via acordada, e já ia para a faculdade. Deixei o emprego para ficar em casa com ela e participar mais de sua vida. Também não achávamos que na creche iriam dar a atenção que damos em casa. Fico o dia todo com a Alice. Acordo com ela lá pelas 8h, dou a mamadeira, brinco, dou uma fruta e passeio em um parque ao lado de casa. Depois, almoçamos os três juntos. À tarde, ela explora a casa, assiste a TV e passeamos pelo bairro. Vamos juntos a todos os lugares: feira, mercado. À noite, vou para a faculdade e ela fica com a mãe. Todas as terças-feiras, vamos à aula de musicalização para bebês e sou o único pai que frequenta essa atividade. Temos menos dinheiro para o orçamento familiar e sinto falta do trabalho e dos almoços com os amigos, mas, em contrapartida, tenho a oportunidade de acompanhar e estar presente durante todo o desenvolvimento da minha filha. A princípio, nosso plano é esperar ela completar dois anos para colocá-la na escola, mas penso que seria bom ficar com ela até uns quatro anos de idade."

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