Infância

A difícil tarefa de falar com filhos sobre mudanças em sua aparência física

Juliette Borda/NYT
É preciso ter cuidado ao propor correções estéticas para não comprometer a autoestima do filho imagem: Juliette Borda/NYT

KJ Dell'Antonia

The New York Times

Uma das minhas filhas nasceu com lábio leporino. A cirurgia reparatória, feita quando era bem novinha, deixou uma marca: seu rosto não é significativamente diferente dos rostos à sua volta, mas mesmo assim, é diferente. Ela sabe disso, porém, aos dez anos, está muito mais preocupada em superar os arremessos do irmão mais novo do que com sua aparência quando usa um boné de beisebol.

No entanto, agora ela precisa de uma cirurgia ortodôntica e pode haver algum benefício se fizer a cirurgia estética facial ao mesmo tempo. Isso significa tocar em um assunto difícil: sua aparência.

Como você pergunta a uma criança se ela gostaria de mudar sua aparência sem sugerir que alguma coisa nela precisa ser mudada?

Gostaria de pensar que estou criando uma menina que aprendeu todas as minhas lições sobre a irrelevância de nossa aparência exterior, mas ela ainda não chegou à adolescência, em um mundo onde revistas dizem às garotas de nove anos qual a roupa de banho que melhor se adapta a seu tipo de corpo.

Uma pesquisa sugere que a autoestima delas cai por volta dos 12 anos e só começa a melhorar novamente quando chegam aos 20 e poucos. Outra (e o bom senso) também diz que a ênfase que as mães colocam na aparência, quer seja no peso, no rosto ou qualquer outra coisa, afeta esse sentimento.

Nosso desafio pode ser um pouco incomum, mas a conversa, não. Todo pai/mãe que já falou com algum filho sobre como fazer algo para alterar o modo com que ele se apresenta ao mundo tentou andar por essa linha tênue entre propor uma mudança (aparelho ortodôntico, tratamento para acne, dieta mais saudável) e parecer exigir alguma coisa –e qualquer adulto que ainda ouve a voz de um pai que o julga por não ser magro o bastante, bonito ou bom o suficiente sabe como é fácil cometer um erro.

"As meninas criam histórias sobre sua aparência", disse a psicóloga clínica Catherine Steiner-Adair, criadora do "Full of Ourselves: A Wellness Program to Advance Girl Power, Health, and Leadership" (cheias de si: um programa de bem-estar para ampliar força, saúde e liderança das meninas, em tradução livre do inglês), um programa para garotas pré-adolescentes, e autora de "The Big Disconnect: Protecting Childhood and Family Relationships in the Digital Age" (a grande desconexão: protegendo a infância e as relações familiares na era digital, em tradução livre do inglês). As palavras e ações dos pais se tornam uma parte dessas histórias.

"Minha mãe não gostava do nariz dela e por isso toda hora falava sobre o meu ", disse Jen Lancaster, escritora e autora das memórias "Such a Pretty Fat" (gordinha linda, em tradução livre do inglês) e "Bitter Is the New Black" (amargura é o novo pretinho básico, em tradução livre do inglês).

Muitas vezes, Catherine vê pais tirando conclusões de suas próprias experiências. Um pai que lutou contra a balança e se preocupa que o ganho de peso pelo qual muitas crianças passam na pré-adolescência pode ser o precursor de uma vida de deboches e dieta, não apenas um fato da puberdade. Ouvimos as gozações de nossa própria infância.

Nancy Redd, ex-Miss Virgínia e autora de "Body Drama: Real Girls, Real Bodies, Real Issues, Real Answers" (o drama do corpo: meninas reais, corpos reais, problemas reais, respostas reais, em tradução livre do inglês), diz que mesmo quando um procedimento parece facilmente justificado, se for puramente cosmético, pais como eu devem pensar bem antes de sugeri-lo.

"Somos muito arbitrários sobre o que é atraente e o que é um defeito. Uma pinta acima do lábio? Incrível. No queixo, no nariz ou na pálpebra? Horrível", disse Nancy.

O nariz da minha filha, sua cicatriz e todo seu rosto estão bem, maravilhosos, fabulosos. Alguns especialistas dizem que é melhor não falar nunca sobre o peso ou a aparência. Gostaria que fosse assim tão simples. Adoraria escapar dessa dizendo que é a atitude correta a ser tomada, mas minha filha pode querer ter uma aparência diferente –e não acho que ela me agradeceria por minha omissão, caso isso signifique uma segunda operação quando uma seria suficiente.

No momento em que a aparência e a saúde se sobrepõem, os pais que querem conversar sobre a aparência de um filho precisam ser honestos, aconselha Catherine.

"Ela pode não falar sobre isso porque não está preocupada ou porque não quer que você se preocupe", disse. E sugeriu que, para iniciar uma conversa com minha filha, eu poderia lembrá-la das vezes em que lhe perguntam sobre a cicatriz. "Pergunte a ela se ainda pensa sobre o assunto e diga que, durante sua cirurgia, os médicos podem mudá-la se quiser", sugeriu Catherine.

Quando disse à minha filha que a cirurgia ortodôntica poderia dar a ela a oportunidade de fazer outras alterações, ela ficou interessada. E já havia pensado sobre sua aparência, mas não da forma que eu imaginava.

Ela perguntou sobre a simetria do nariz, que é puxado pela cicatriz. Ao saber disso, perguntei aos médicos sobre cirurgias combinadas.

Mas mesmo que ela quisesse respostas, o tom direto e seco da consulta nos surpreendeu. Pensando bem, meu marido e eu deveríamos ter falado com o médico em particular primeiro.

Como Catherine me lembrou, não há problema em dizer ao médico: "Por favor, não use uma linguagem que ficará na cabeça dela por anos".

No final, os cirurgiões da minha filha só queriam remover um dente e dar uma vasculhada. Quanto ao nariz, eles disseram que reconstruções feitas cedo demais, enquanto o rosto da criança ainda está crescendo, podem precisar ser refeitas mais tarde. Ela não pareceu decepcionada.

Por enquanto, decidimos esperar para ver se operações adicionais são essenciais antes de abordarmos o tema da cirurgia cosmética novamente.

E não vamos nos preocupar com isso. Não quero que o rosto da minha filha fique diferente, e nunca vou querer. Mas, caso ela queira, quero o que ela quiser –e depois, quero voltar a falar sobre beisebol.

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