Gestação

Mulheres que pariram sem anestesia falam sobre dor e realização

Beatriz Vichessi

Colaboração para o UOL, em São Paulo

Mulheres aos berros durante o parto, por causa das dores provocadas pelas contrações e do momento em que o bebê está nascendo, fazem parte de cenas de filmes e novelas, e deixam muita gente arrepiada.

Na vida real, é fato que as gestantes gritam bastante, mas há quem afirme que a dor sentida não é tão insuportável quanto dizem por aí e que dispensar o uso da anestesia não só é possível como vale a pena para poder sentir o trabalho de parto acontecer e deixar o bebê nascer de maneira natural. Confira o depoimento de cinco mulheres que encararam o trabalho de parto sem estarem anestesiadas.


Isabela Barros, 38, mãe de Joaquim, 1 ano

Arquivo Pessoal
imagem: Arquivo Pessoal

“No auge das dores, depois de 16 horas de contrações muito fortes --foram 19 horas de trabalho de parto ativo [quando já há dilatação do colo do útero], cheguei a pedir anestestia, mas a obstetriz desaconselhou, pois estávamos perto do fim. Confiei nela e fomos em frente. Gritei bastante durante as contrações mais puxadas. Devo ter acordado os vizinhos do hospital algumas vezes naquela madrugada. Foram as dores mais fortes que senti até hoje, mas costumo dizer para as minhas amigas: ‘Fomos feitas para isso’. A verdade é que faria tudo de novo. Meu marido me disse que eu poderia ter corrido uma maratona se quisesse no dia seguinte, de tão bem que estava. Isso não tem preço. Eu me preparei para enfrentar as dores. Fiz pilates, rezei para Nossa Senhora do Bom Parto todos os dias na reta final da gravidez e mentalizei a força das minhas duas avós: uma pariu 15 filhos e a outra, oito. Elas foram minha inspiração. Tive uma laceração bem pequena, levei um ponto só --segundo o médico, por excesso de zelo dele. Sentir cada momento da chegada do meu filho ao mundo foi muito especial. Lembro do meu parto todos os dias como a experiência mais forte e bonita que vivi. Quero ter outro filho e vai ser sem anestesia de novo.”

Nathalia Nerguisian, 27, mãe de Maria, 4 meses

“Desde muito cedo, escutamos as pessoas falarem da dor do parto e por isso ela acaba se tornando um tabu. Muitas mulheres optam por cesárea ou por passar por intervenções --como a anestesia-- para não sentirem algo que nem sabem realmente o que é. Decidi parir em casa por não querer intervenções desnecessárias, mas, mais do que isso, porque queria sentir a tal dor do parto. Queria experimentá-la para então poder ter as minhas próprias conclusões e impressões sobre ela. Dar à luz minha filha sentindo toda a passagem dela pelo meu corpo foi transformador. Mas parir dói, não posso negar. A dor, somada com alguns minutos de desconcentração e cansaço físico, fez com que me questionasse se seria mesmo capaz de enfrentá-la até o final. Apesar disso, em nenhum momento, pensei em desistir. Em vez da anestesia, pedi ajuda, que veio em forma de abraços e palavras de apoio do meu marido, da doula e das parteiras. Passaria por tudo novamente. A ocitocina invadiu o ambiente e tudo aquilo se transformou em amor. Chamam isso de parto humanizado, mas é muito mais do que isso: é divino."

Gabriella Iazetti, 27, mãe de Benício, 8 meses

Arquivo Pessoal
imagem: Arquivo Pessoal

“Benício nasceu em uma casa de parto justamente porque sabia que lá poderia ter um parto fisiológico, sem intervenções e sem anestesia. Era minha vontade que ele nascesse da maneira mais natural e respeitosa possível. Foi difícil, doeu muito, mas recebi muito incentivo de meu noivo, dos meus pais, da parteira e da doula. Quando senti vontade de desistir, o bebê já estava para nascer, mas, até esse momento, gritei muito, pedi e implorei por uma cesárea, queria ser transferida para um hospital para ser anestesiada. Só depois de 40 minutos, ele nasceu. Acredito que as pessoas que estavam comigo e o entorno influenciaram positivamente minha persistência. Não me arrependo de ter feito essa opção e tenho uma saudade imensa desse momento, quero que meu segundo filho nasça sem anestesia também. Eu me senti uma deusa parindo. É verdade que tive uma laceração, mas foi superficial e foi curada em 15 dias. ”

Aliandra Mello, 34, mãe de Gianluca, 1 ano

“Sempre sempre sofri muito com cólicas menstruais, a ponto de desmaiar de dor. Por isso, tinha dúvidas se suportaria a dor do parto. Não queria ser anestesiada quando meu filho nascesse, mas tive medo e conversei com a obstetra. Ela falou diversas vezes que eu era forte, embora tenha recomendado que combinasse com meu marido ou com a doula um código caso quisesse realmente analgesia. Quando completei 36 semanas e cinco dias, chegaram as contrações e com elas, uma dor leve. Sentia incômodos a ponto de conseguir lavar e estender no varal as roupas do bebê que levaria para a maternidade. Eu me movimentei muito o dia inteiro, quando as contrações apareciam, rebolava e agachava. A bolsa rompeu por volta das 18 horas e, quando fui tomar banho para poder ir à maternidade, senti a primeira contração realmente dolorida. Cheguei ao hospital com dilatação total e sentindo dores, mas nada dilacerante. Conseguia andar, mas fui para a sala de parto de elevador em uma cadeira de rodas. Quando senti uma nova contração, fiz uma cara de dor e um médico que estava ao meu lado se apresentou: ‘Sou médico do tipo que você mais deseja agora, sou anestesista’. Dei uma risada bem alta na cara dele. ‘De jeito nenhum. Você é a última pessoa que quero ver agora. Ninguém vai me tirar o prazer de sentir meu filho vindo ao mundo.’ Ele me olhou como se eu fosse louca. Depois de uma hora mais relaxada na sala de parto, passei a sentir contrações doloridas, muito fortes. Sentei na banqueta de parto disse que achava que não ia aguentar as dores, que ia precisar da anestesia. A médica então disse que não tinha mais nada para aguentar, porque o bebê estava nascendo. Mais duas contrações, um urro de leoa, conforme definiu a pediatra, e meu filho nasceu.”

Marcela Proença Garcia, 35, mãe de Davi, 2

Arquivo Pessoal
imagem: Arquivo Pessoal

“Optei pelo parto sem anestesia e estava decidida que assim seria, apesar de ter permitido que a equipe colocasse um acesso em mim. O acesso era um item obrigatório do ponto de vista da equipe médica, para agilizar o processo caso surgisse alguma complicação e uma cesariana de emergência fosse necessária. Não tinha medo de sentir dor porque sofri um aborto espontâneo e tive parto induzido. Mas certamente as dores do parto de Davi foram as maiores que senti na vida, apesar de serem suportáveis. Acho que o segredo é manter a calma e respirar, assim é possível resistir até que o bebê nasça. Fiquei muito concentrada em minha própria respiração. Meu marido respeitou minha decisão, sabia que era algo importante para mim. Hoje, recomendo --e muito—o parto natural para outras mulheres. A verdade é que as dores passam completamente assim que o bebê nasce. Horas depois que ele nasceu, pude andar pelos corredores do hospital e tomar banho tranquilamente.”

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