Gestação

Xale característico de Frida Kahlo ajuda gestante na gravidez e pós-parto

Lela Beltrão/Coletivo Buriti/Reprodução
A parteira mexicana Naolí Vinaver viaja pelo mundo há 30 anos ensinando a arte do rebozo imagem: Lela Beltrão/Coletivo Buriti/Reprodução

Thamires Andrade

Do UOL, em São Paulo

Peça-chave do vestuário da pintora mexicana Frida Kahlo (1907-1954), o rebozo é um xale de algodão feito em tear manual, com tamanho suficiente para cobrir todo o corpo da mulher. A peça não serve apenas para aquecer os ombros, mas também é usada pelas parteiras para preparar a gestante para o parto, auxiliar o bebê a se posicionar no colo do útero, acelerar a recuperação do pós-parto e até carregar a criança, como se fosse um sling.

Esse conhecimento é difundido pela parteira mexicana Naolí Vinaver, que atualmente mora no Brasil. "O rebozo é uma tecnologia simples e complexa ao mesmo tempo. Quem não conhece acha que é coisa de parteira da roça, mas faz 30 anos que viajo pelo mundo dando cursos e palestras ensinando a usá-lo e sempre recebo e-mails e cartas com depoimentos de sucesso", contou a parteira ao UOL durante o 3° Siaparto (Simpósio Internacional de Assistência ao Parto), que aconteceu em São Paulo, de 1º a 4 de junho.

Com o rebozo, a parteira faz a "manteada", técnica de relaxamento que consiste em balançar a gestante com ajuda da peça. "Podemos usar o rebozo antes da gestação para aliviar eventuais desconfortos das gestantes, como pinçamento no nervo ciático e dores lombares. Colocamos o acessório ao redor do corpo da mulher e a mexemos indiretamente. Também podemos dobrar a peça e colocar por cima da área lombar, por exemplo, e puxar e alongar a coluna, ou colocar atrás do pescoço para aliviar o peso da cabeça", afirmou Naolí.

Arquivo Pessoal
O rebozo pode ser usado para dar apoio à mulher durante o trabalho de parto imagem: Arquivo Pessoal
De acordo com a parteira mexicana, a técnica despinça nervos e ligamentos, auxiliando as futuras mães a voltarem a se locomover sem dificuldades, por exemplo.

"O rebozo nessa situação deixa a mulher confortável, mesmo que ela esteja no fim da gestação. Também ensinamos a técnica ao companheiro ou familiares", disse. Segundo Naolí, não é complicado aprender a usar o acessório, no entanto, é preciso entender o básico de anatomia, fisiologia e da relação que acontece internamente entre mãe e bebê.

No trabalho de parto, o rebozo pode ser usado para ajudar a criança a se posicionar dentro do útero. "Com a peça, conseguimos ajeitar o bebê, caso a cabeça dele não esteja bem aplicada no colo do útero, além de iniciar o trabalho de parto ou auxiliar a mulher que já está cansada. Os movimentos da peça estimulam e aumentam a energia e a intensidade do parto, sem causar nenhum desconforto ou sequela", falou Naolí.

O rebozo ainda é útil para dar apoio às parturientes em diversas posições durante o trabalho de parto, bem como alongar a pelve durante as contrações. No entanto, nessa ocasião, o xale deve ser utilizado por uma parteira, doula, obstetriz ou médica que conheça a técnica. 

"Não existe uma contraindicação para usar o rebozo no trabalho de parto, no entanto, se a gravidez for de risco ou se a bolsa tiver rompido e o bebê estiver alto não é interessante usar pelo risco do prolapso do cordão umbilical [quando este precede a criança na passagem pelo canal de parto]. Nunca ouvi nenhum caso de que essa técnica provocou qualquer prejuízo", contou Naolí.

No pós-parto, a peça desempenha uma função importante no "ritual de fechamento do corpo" da mulher. "A mãe recebe uma massagem e um banho de ervas bem quente, durante o qual ela deve beber chás. Depois, ela é embalada em lençóis e cobertores e fica deitada, suando, por uma hora. Na sequência, veste uma roupa limpa e nós usamos o rebozo para 'fechar' o corpo dela. Esse conjunto de práticas dura mais ou menos quatro horas", explicou a parteira mexicana.

Segundo Naolí, o ritual ajuda a desinchar, a aumentar a produção de leite e até a melhorar as dores da amamentação. "A mulher se sente abraçada e energizada quando passamos o tecido em alguns lugares do corpo, como cabeça, ombros, quadris, pelve, peito e pés. Quem recebe o ritual fala que é mágico, que se sente completa e integrada novamente. O ideal é fazer de dez a 20 dias depois do parto, pelo menos três vezes", contou.

Outra utilidade do rebozo após o fim da gestação é poder usar a peça para carregar a criança, como um sling. Mas, de acordo com Naolí, o acessório também pode contribuir para acabar com as cólicas.

"Para tanto, os pais devem embalar a criança com um rebozo, com os braços para dentro, deixando só a cabeça para fora. Pegar um outro xale, esticá-lo e colocar o bebê em uma extremidade. Um pai pega uma ponta do tecido e o outro segura a outra. Daí só rolar o bebê de um lado para o outro, suavemente. O movimento faz com que o bebê se acalme e a cólica passe [veja vídeo abaixo]", falou.

Ainda que nunca tenha presenciado o bebê vomitar ou se sentir mal após rodar no rebozo, Naolí recomenda que os pais façam a técnica antes de colocá-lo para mamar, para que ele fique mais aliviado em relação às cólicas e possa se alimentar adequadamente.

O segredo do rebozo é a união do comprimento da peça com o tecido com o qual ela é fabricada. Apesar disso, para Naolí, as pessoas devem usar o que tem na mão.

"Claro que ter o original é melhor, mas algumas manobras podem ser feitas com um lençol. Ele precisa ter 70 centímetros de largura e dois metros de comprimento. O ideal é que ele também não seja escorregadio nem muito grosso, caso precise ser enrolado", afirmou.

Para quem tiver interesse em ter um rebozo, a parteira encomenda a peça do México e a envia pelos Correios. Basta mandar um e-mail para: naoli@amanascer.com.

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