Adolescência

Adolescentes contam como a religião que escolheram influencia no dia a dia

Do UOL, em São Paulo

Ser adepto de uma religião pode exigir uma série de mudanças na rotina para seguir os preceitos pregados. Os jovens nem sempre são bons em cumprir regras e ter de abdicar de passeios com os amigos, dentre outras atividades. No entanto, há muitos adolescentes guiados pela fé que não se incomodam em mudar a vida por causa da crença que seguem. Veja relatos: 

Esther Karina Duran, 15, de São Paulo (SP)

Arquivo Pessoal
imagem: Arquivo Pessoal
"Sou evangélica. Eu me converti há um ano e meio. Uma amiga me levou à igreja e gostei, acabei ficando. Desde então, mudei meu modo de viver. Não uso roupa extravagante, curta demais ou com decote. Não é que a igreja proíba, mas, para mim, é uma questão de bom senso. Também não fico mais, mesmo que seja com um garoto do qual goste. É uma decisão minha, porque quero me guardar. Com o mesmo objetivo de me preservar, escolhi não escutar músicas do mundo, só as da igreja. É claro que por causa das minhas escolhas sofro preconceito da maioria dos meus amigos da escola, do prédio e mesmo de parentes que não são cristãos. No começo, eles estranharam muito, ganhei apelido de crente e de pastora. Agora todos estão mais acostumados. De qualquer jeito, acabo passando mais tempo com os amigos da igreja, que acreditam nas mesmas coisas que eu. Temos muitos jovens lá e nos divertimos bastante juntos."

Jonatas Alves, 22, Santo André (SP) 

"Sou cristão da Igreja Adventista do Sétimo Dia. Guardo do pôr do sol da sexta-feira ao mesmo período do sábado. Isso significa que, nesse intervalo de tempo, não posso me dedicar às mesmas atividades dos outros dias da semana. Tenho de servir a Deus ou ao próximo. Vou à igreja, faço alguma obra de caridade e por aí vai. Minha maior dificuldade é arrumar emprego,  pois não posso trabalhar depois de um certo horário da sexta-feira. Até agora, abri mão de três vagas. E só consegui permanecer na faculdade, pois deu para conciliar o horário. Além disso, tenho de recusar convites dos amigos para sair de sexta à noite e para participar dos campeonatos de futebol aos sábados. Isso foi difícil para mim, agora me habituei e meus amigos também já entendem a minha escolha, embora nem todos concordem com ela. O importante é que nunca me arrependi das decisões que tomei e ainda tomo, porque acho que estou fazendo a coisa certa."

Alessandra Cardoso, 15, Sapucaia do Sul (RS) 

Arquivo Pessoal
imagem: Arquivo Pessoal
"Eu me converti com 14 anos e sou a única muçulmana da minha família. Não tenho muitos amigos, ninguém que siga a mesma religião que eu. Então, faço contato pela internet com pessoas que têm afinidade comigo e com o que penso. De modo geral, o que sofro mais é com o preconceito por causa da ignorância das outras pessoas sobre a minha religião. Já fui chamada de terrorista várias vezes, na rua mesmo. Por isso, até evito sair. Por conta da minha crença, tenho uma vida mais introspectiva do que a maioria dos jovens da minha idade. Tenho de seguir certas regras: rezo cinco vezes por dia, por exemplo, e sexta-feira é o dia de ouvir o sheiks, na mesquita. Outra diferença é que nunca vou ficar ou namorar um garoto. Quando tiver alguém, será para noivar e, em seguida, casar."

Juliana Cerbino, 23, Rio de Janeiro (RJ)

"Sou católica e tenho vários interesses, gosto de ver vídeos, séries, de ler livros, como todo jovem. A diferença básica que percebo entre mim e as minhas amigas é que coloco a igreja acima de tudo. Recentemente, aconteceu um show de um cantor que é o meu predileto e caiu no mesmo dia da festa do padroeiro da minha cidade, São Sebastião. Não pensei duas vezes em ficar na igreja. Normalmente, vou à missa duas vezes por semana, temos um grupo de jovens lá. Balada não vou, pois não gosto. Não uso drogas pelo mesmo motivo. Tenho namorado, mas, quando estamos em casa, rezamos juntos, não tem essa de conversinha tola e leviana nem obscenidades."

Lethicia Cavallaro, 16, São Bernardo do Campo (SP)

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imagem: Arquivo Pessoal
"Eu me converti à umbanda há mais ou menos dois anos, depois que fui com a minha mãe ao centro. Atualmente, não só frequento como estou desenvolvendo a minha mediunidade. Eu me encontrei totalmente na religião e vou toda semana. Ela exige preparação para o trabalho: 24 horas antes de ir para o centro, não posso consumir bebida alcoólica nem comer carne vermelha. As relações sexuais também estão proibidas no período. Nos outros dias, posso ter vida normal como qualquer adolescente. Para mim, a maior questão é o preconceito, já que muita gente desconhece a umbanda. Tenho amigas evangélicas, católicas, budistas, mas procuro nem discutir religião com elas. Até fiz alguns amigos na umbanda, mas não gostaria de ter de abrir mão das amizades mais antigas, principalmente da escola."

Jessica Barros, 16, Osasco (SP)

 "Sou evangélica e, pela minha religião, posso fazer o que quiser, mas sei que nem tudo me convém. Em geral, abro mão de ir a festas, não uso drogas, esse tipo de coisa. Tenho alguns amigos que seguem esse caminho, que se deixam levar por uma felicidade momentânea. Porém, sempre que posso, aconselho-os. É claro que muitas vezes sou criticada pelas escolhas que faço, mas não me abalo. Muitas pessoas que antes me atiravam pedras, hoje, entendem a minha decisão. Na realidade, não sou diferente das outras meninas da minha idade, apenas adotei uma rotina mais disciplinada: vou à igreja duas vezes por semana e faço orações em casa, diariamente. Mas ser cristão não é deixar de ser jovem: a gente encontra o pessoal da igreja no parque, vai a acampamentos. Com o tempo, essa turma da igreja passa a ser uma família."

Emília Carim, 18, Porciúncula (RJ)

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"Meu pai é muçulmano e minha mãe não segue nenhuma religião, apenas crê em Deus. Virei católica por causa da minha irmã, que se encontrava com um grupo de jovens na igreja para orar. Fui ver como era e gostei, tanto do ambiente quanto das pessoas. Hoje em dia, só faço meus programas de domingo depois de ir à missa e não abro mão de rezar às terças e sábados nos grupos de oração. Para isso, às vezes, deixo de sair com outros amigos que não são cristãos. Não encaro como um sacrifício. Minha religião é bastante aberta, posso fazer tudo o que quiser. Algumas coisas não faço pelo simples medo de ser discriminada. É o caso da tatuagem, por exemplo. No mais, a religião não afeta minha rotina. Procuro tolerar as crenças dos outros e por isso acho que os amigos respeitam a minha. A partir do momento em que acontece a intolerância religiosa, já se perde o sentido da religião, pois todas ensinam o amor. E amar inclui respeitar o próximo."

Gabriele Moura, 15, Santa Cruz do Rio Pardo (SP)

"Por ser evangélica, tenho algumas restrições. Não bebo e não posso ter relações sexuais a menos que estiver casada. Quando namoro, preciso da benção do pastor. No mais, posso me divertir como qualquer jovem, desde que respeitando alguns limites com bom senso. Nas festas da igreja, por exemplo, nós nos divertimos muito. Oramos, mas depois cantamos e dançamos. Os amigos da igreja são os que me apoiam, os de fora nem sempre compreendem. Alguns acham estranho agir diferente, porém respeitam a minha escolha."

Eric de Moura, 21, Mauá (SP)

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"Sou cristão da Igreja Adventista da Promessa. Cumprimos a lei moral expressa nos dez mandamentos, que inclui a guarda literal do sábado como dia de descanso e a celebração a Deus. Por isso, minha maior dificuldade sempre foi deixar de sair com os amigos aos sábados para me dedicar à igreja. Com o tempo, fui me acostumando, marcava os passeios nos outros dias. Além disso, temos diferenças em relação ao estilo de vida. Não vou para balada, não bebo e guardo a castidade até o casamento. Mas nunca ofendi ou fui ofendido por conta disso, sempre houve respeito por parte das pessoas que escolhi para serem meus amigos. Hoje em dia, o sábado é um dia ainda mais especial, pois virei missionário e tenho todas as horas ocupadas com cultos, ensaios e reuniões. Depois que o sol se põe, posso até sair com os amigos de outras religiões, sem problemas."

Thainá Cristina de Souza da Cruz, 20, Natal (RN)

"Por ser evangélica, tenho uma vida um pouco diferente da maioria dos meus amigos. A primeira coisa é que não saio como eles, vou de casa para o colégio e vice-versa. Por causa disso, já fui chamada de antissocial, muitos dizem que sou desconectada do mundo, que sou calada, que só falo com as meninas da igreja. Tudo o que faço é em nome da minha fé. Já tive vontade de fazer coisas que não posso, como ouvir música do mundo, ver TV, usar blusa regata ou maquiagem, mas tenho um propósito mais forte para seguir as minhas convicções. Há sete anos, conheci um garoto da minha igreja, filho de pastor. Nós nos apaixonamos. Como nos guardamos, acabamos casando cedo, aos 18 anos, e hoje já temos uma filha. Sei que a maioria das garotas da minha idade ainda não tem uma família, mas sou feliz assim."

Cauan Silva, 12, Recife (PE)

"Meus pais são cristãos e conheci o Islã estudando história. Decidi por conta própria virar muçulmano há quatro meses. Isso mudou muito a minha vida. Conheci pela internet os jovens muçulmanos com quem converso, Meus amigos não religiosos e os que têm outra crença praticamente pararam de falar comigo. Não me chamam para nada, nem mesmo para praticar esportes. E isso eu posso fazer, desde que não sejam modalidades violentas. Essa mudança me chateou. No começo, sofri muito, agora acostumei. Meu interesse principal é seguir todas as leis que conheço e as que estou aprendendo na religião. Eu me concentro muito no momento das minhas orações, faço minhas preces em casa e, quando há uma comemoração na mesquita, meus pais me levam, sempre que possível."

Ana Federige, 16, Ribeirão Pires (SP)

"Sou evangélica e na minha religião não me proíbem de nada. Por outro lado, sei que preciso ter respeito, comigo mesma e com os outros. Então, não faço coisas que muitos jovens fazem, como beber e ficar com garotos. Também não uso roupa curta nem decote, mas ninguém me obrigou. Na verdade, além de frequentar a igreja, trabalho lá, então, minha responsabilidade é maior, preciso dar o exemplo. Na comunidade fora da igreja, não participo de festas que são focadas na adoração de santos, como festas juninas, justamente por não crer em santos. Ainda assim, posso dizer que tenho uma boa convivência com quem não é da minha religião, apenas não saímos juntos, pois pensamos diferente."

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