Adolescência

Mães contam como reagiram ao saber que as filhas eram homossexuais

Bruno Santos/ UOL
Luiza (direita), de São Paulo, tinha apenas 13 anos quando contou à mãe, Cristina, sobre sua homossexualidade imagem: Bruno Santos/ UOL

Melissa Diniz

Do UOL, em São Paulo

A intimidade com as mães quase sempre permite um diálogo franco e menos pudor na hora de se revelar homossexual. Talvez por isso elas tenham sido, para essas seis garotas, as primeiras a saber. Algumas aceitaram de cara. Outras precisaram de tempo para entender que ser lésbica não é errado, não é uma escolha, nem motivo de decepção. Veja como essas mães venceram suas dúvidas e temores e provaram que o amor é maior do que qualquer preconceito.

Cristina Dias, 31, atendente de telemarketing, mãe de Luiza, 15

“Luiza tinha 13 anos quando me contou que era homossexual. Ela me mandou uma mensagem privada pelo Facebook expressando seus sentimentos. Disse que estava apaixonada por uma colega da escola e que sofria pela menina. Minha filha é muito tímida e tem dificuldades para se abrir, essa foi a maneira que entrou para me dizer. Apesar de eu ser bissexual e ela saber disso desde pequena, na época, fiquei com um pouco de medo de que pudesse sofrer violência porque a sociedade é muito dura com quem é gay. Mas deixei claro, desde cedo, que a apoiava e a aceitava como é. A relação dela com a garota, que foi sua namorada por um ano, não foi fácil. Elas tinham muitos conflitos, pois a família da menina não aceitava e acabaram terminando. Eu tive a Luiza com 16 anos e meu relacionamento com o pai dela durou pouco. Por causa disso, nós sempre moramos com minha mãe e meu irmão, que são muito conservadores e nunca aceitaram a homossexualidade dela. Houve uma época em que ela passou a se vestir de maneira mais masculina e isso os incomodou. A situação melhorou quando nos mudamos e passamos a morar só nós duas. Nosso vínculo se estreitou, pois ela se sentiu acolhida. Hoje, ela tem liberdade para trazer outros amigos gays a nossa casa e conversamos mais. Talvez por ser uma pessoa menos combativa, eu procuro evitar conflitos e sempre a oriento a ser discreta, principalmente na rua. Ouvir palavrões e xingamentos, infelizmente, é o mínimo que acontece quando um casal de meninas anda de mãos dadas.”

Márcia Leal, 51, funcionária pública, mãe de Raquel, 23

Arquivo pessoal
A funcionária pública Márcia Leal, 51, de Goiânia-GO, aceitou bem a homossexualidade da filha Raquel imagem: Arquivo pessoal

“Aos 13, Raquel começou a manifestar interesse pelos meninos da escola, mas, certa vez, aos 15, ela chegou chorando para mim e dizendo que tinha medo de ser homossexual, porque começou a sentir atração por meninas. Ela tinha receio de não se enquadrar e de acabar sofrendo preconceito. Achei que fosse apenas uma fase de experimentação, que ela estava se conhecendo. Nessa época, ela tinha um amigo gay que estava com problemas na família. Então eu falei que a gente precisava acolher o rapaz e, a partir daí, minha filha começou a conviver e sair mais com amigos homossexuais. Foi então que criou coragem para contar ao pai, mas ele não aceitou. Não aceita até hoje. Apesar de ser muito feminina, ela quis afrontá-lo e mudou um pouco a forma de se vestir, passou a usar roupas de menino, tentando se impor. Por fim, acabamos nos separando e ele saiu de casa. Um dos motivos foi o fato de eu tê-la defendido. Mas, protegê-la foi a melhor coisa que eu fiz, caso contrário ela seria infeliz. Filho é filho e a sexualidade não afeta em nada o amor que sentimos. Hoje, nós vivemos em paz. Sinto que depois dessa primeira fase, de autoafirmação, ela compreendeu que não precisa brigar com ninguém para ser quem é. Eu sempre me relacionei bem com a namorada, mas sou de uma outra geração e ainda fico um pouco desconfortável com demonstrações públicas de afeto, mas isso é um problema meu, não dela.”

Marisa Hannickel, 53, empresária, mãe de Paula, 23

Arquivo pessoal
Marisa, de Sorocaba-SP, com a filha Paula (centro), mestranda em direito criminal, e sua namorada Mariana imagem: Arquivo pessoal

“Não vou dizer que foi fácil receber a notícia de que Paula era homossexual. Ela me contou aos 18 anos. Os pais sonham que os filhos cresçam, casem, tenham filhos, e quando descobrimos algo diferente da expectativa que havíamos criado, assusta um pouco. Por isso chorei muito e passei um período inconformada. Apesar disso, admirei a sinceridade dela. Ela me disse que não iria esconder nada de mim, que não queria ter que mentir, como alguns amigos faziam. A sorte é que meu marido é psicólogo de formação e tem uma cabeça muito mais aberta do que a minha. Ele aceitou rápido e esse apoio foi fundamental para que eu compreendesse que não havia nada de errado com a nossa filha. Minha preocupação como mãe sempre foi que ela sofresse discriminação e pudesse ser alvo de violência na rua, porque, infelizmente, a sociedade é muito preconceituosa, principalmente no interior, onde moramos. Algumas pessoas ainda têm uma visão negativa do homossexual, pensam que é alguém pervertido. Isso é um equívoco. Minha filha é uma pessoa extremamente ética, responsável, educada, amorosa e só me dá orgulho. Ela namora há quatro anos e a namorada convive conosco, é uma menina maravilhosa de quem gostamos muito.”

Danuza Buzollo, 58, arquiteta, mãe de Beliza, 24, e Bruna, 29

Arquivo pessoal
Danuza, que vive nos EUA, com Beliza (esquerda), estudante de publicidade, e Bruna, engenheira de som imagem: Arquivo pessoal

“Eu já havia percebido que Beliza tinha uma tendência à homossexualidade, mas aguardei que viesse me falar. Um dia, durante o jantar, quando estávamos só nós duas, ela me contou. Sentiu segurança porque eu sou uma pessoa aberta a ouvir. Na época, ela tinha 19 anos. Eu lidei com naturalidade e calma, mas penso que, para isso, contou muito meu jeito de ser e minha visão de mundo mais esclarecida. Meu pai era jornalista e sempre tivemos muito acesso à informação. Por conta disso, lido bem com a diversidade. O pai dela também aceitou com naturalidade, mas, claro, ficou preocupado com o preconceito.  Eu também me preocupei. Sempre pedia para ela não se expor muito e que prestasse atenção às postagens que fazia em mídias sociais. A humanidade evoluiu muito nestes últimos cinco anos, mas ainda temos muito trabalho pela frente. As três irmãs aceitaram bem, sendo que Bruna, 29, empresária e engenheira de som, também é homossexual e tudo aqui escrito vale para ela, mas a Beliza foi a primeira a me contar. Eu tenho uma filha inteligente e talentosa, adorável, que faz quadrinhos com a temática LGBT...e homossexual. Como posso ir contra a própria natureza dela? Estamos vivendo novos tempos, novas formas de amar e o importante é ela ser feliz, assim sou feliz também. Eu nem consigo imaginar como deve ser rejeitar uma filha só por ela não ser heterossexual. Se eu pudesse dar um conselho a outras mães e pais que passam por esta situação, diria: lembrem-se que ela é sua filha, ela ama vocês e vocês também a amam. Aceitem, ela nasceu assim. Ela não é física nem mentalmente doente e não existem ‘culpados’. Procurem conhecer o assunto com profundidade, leiam, conversem muito. A homossexualidade sempre existiu só que hoje é divulgada e vivida sem ‘armários’.”

Maria do Carmo Lima da Costa, 61, aposentada, mãe de Thais, 24

Arquivo pessoal
Para Maria do Carmo, de São Paulo, a orientação sexual de Thais não importa, desde que ela seja feliz imagem: Arquivo pessoal

“Thais me contou que era homossexual quando fez 18 anos e, para mim, na hora, foi um choque. Não esperava e nem desconfiava. Mas depois, com o passar dos dias, meses e anos, fui me acostumando com a ideia. Jamais desprezei minha filha por isso e nem cogitei colocá-la para fora de casa, como sei que algumas pessoas fazem. Acolher os filhos como eles são é dever dos pais, respeitando-os enquanto seres humanos, com suas próprias escolhas. Eu só quero que ela seja feliz e que ache uma pessoa que a trate com carinho e amor. O mais importante é que que nossos filhos tenham valores e que sejam pessoas de bem, a orientação sexual não importa. Nós conversamos muito e gosto de dar conselhos, ela é uma menina ótima, namora outra garota que já é de casa, vem sempre aqui, almoça conosco e, para mim, não faz diferença. Só há uma questão que me incomoda, é que em nossa família nem todos aceitam. Minha filha é tudo na minha vida, jamais a deixarei sofrer.”

Inês Silva, 48, secretária executiva, mãe de Andreia, 24

Arquivo pessoal
Inês, de Salvador-BA, levou um tempo para aceitar a homossexualidade da filha Andreia. Hoje, é militante LGBT imagem: Arquivo pessoal

"Em janeiro de 2012, minha filha Andreia tinha 19 anos. Ela havia acabado de voltar de uma viagem à Disney e estava muito mais madura. Assim que retornou, terminou o namoro com o filho de uma amiga minha. Para mim, aquilo foi um choque. Então, começou um clima de mistério entre nós. Senhas na internet, portas fechadas. Éramos tão próximas e aquilo me deixou perturbada. Aproveitei que um dia ela saiu e deixou o email aberto... Movida pela curiosidade, não tive dúvidas. Olhei sua caixa de entrada e me deparei com uma mensagem toda em inglês. Recorrendo ao Google tradutor, descobri o que ela tanto escondia. Andreia, lésbica? Fiquei desconcertada e tivemos uma briga horrível, violenta. Estava tão amargurada que não via o quanto eu era preconceituosa. Achava que não era preconceito, porque os de fora eu aceitava. Mas, minha filha? Pensei que tivesse errado em sua criação e fiquei muito preocupada imaginando o que as pessoas iriam falar quando soubessem. Diante de tantas dúvidas e receios, entrei em depressão e acabei tentando o suicídio. Por sorte, fui socorrida a tempo. Hoje sei que fui egoísta e não percebi o sofrimento que estava causando à minha família. Passei por um tratamento psiquiátrico e minha recuperação levou um ano. Por muito tempo, tentei me convencer de que era apenas uma fase. Para minha surpresa, meu filho André, na época com 23 anos, também se revelou homossexual e tive outro baque. Foi então que meu marido Alfredo, que antes eu pensava ser machista e homofóbico, pelas piadas que sempre contava, teve o discernimento necessário para me auxiliar a perceber que não havia nada de errado com nossos filhos. Ele foi meu alicerce para que eu 'saísse do armário' para ajudá-los a enfrentar o mundo. Aprendi, no meu tempo, que ser gay não é uma opção e sim uma condição. Foi aí que decidi militar para ajudar outras mães e filhos a se entenderem. Hoje, sou coordenadora do grupo Mães Pela Diversidade, da Bahia. Andreia vive no Canadá, tem uma namorada que amo de paixão e André e o namorado estão sempre conosco. Somos uma família feliz.”

 

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