Bebês

Pais modernos veem licença estendida como passo importante para igualdade

Fernando Maia/UOL
Raoni Lotar e Betania Dumoulin cuidam juntos da filha Nina, na foto com um mês imagem: Fernando Maia/UOL

Melissa Diniz

Do UOL, em São Paulo

Junho foi um mês especial para Raoni Lotar, 35, gerente de marketing da Coca-Cola no Rio de Janeiro, e sua esposa Betania Dumoulin, 35. A primeira filha do casal, Nina, nasceu no dia nove e Raoni pôde acompanhar de perto seus primeiros 20 dias de vida, graças à licença-paternidade estendida.

Facultativa, a medida vale desde março para companhias privadas que fazem parte do Programa Empresa Cidadã e desde maio para funcionários públicos. Antes disso, os homens que se tornavam pais tinham direito a apenas cinco dias de licença.

Raoni explica que ter mais tempo para ficar com a filha foi fundamental para que ele encontrasse seu papel como pai. “Foi uma experiência muito boa. Eu e minha esposa nos preparamos bastante para isso, fizemos cursos de banho e amamentação, arrumamos o quartinho e estávamos ansiosos pelo parto. Se não fosse a licença, levaria muitos meses para acumular 20 dias com a bebê e esse tempo foi fundamental para encontrar minha função nos cuidados diários.”

E essa função, afirma orgulhoso, é cuidar da higiene de Nina.  “Além da troca de fraldas, assumi os banhos, sempre com métodos variados, de chuveiro, de ofurô ou de banheira. Ela adora e me sinto muito bem por poder executar essa tarefa.”

Segundo ele, ao ver um pai cuidando da filha as pessoas estranham.  “Ainda enxergam o homem apenas como o provedor. Esses dias fomos levar a Nina tomar vacina e, mesmo ela estando em meu colo, a enfermeira só falava com a minha esposa, como se eu não estivesse ali.”

Mas nos novos modelos de família, explica Raoni, as responsabilidades do casal são compartilhadas. “É estranho, pois o esforço de Betania tem sido menos valorizado do que o meu. Espera-se muito mais da mãe quando se trata de cuidar dos filhos e precisamos mudar isso.”

Em busca de uma participação igualitária de pais e mães na vida dos filhos, o Twitter passou a oferecer, a partir de julho, licença-paternidade de 20 semanas aos funcionários brasileiros, período idêntico ao oferecido às mulheres que trabalham na companhia, e bem maior do que o ofertado aos homens pelas empresas no Brasil.

Mundo mais igualitário

Roberto Setton/UOL
Gustavo Ranieri e a esposa Bianca Tavares compartilham os cuidados da filha Liz, na foto com um mês imagem: Roberto Setton/UOL

O coordenador de conteúdo Gustavo Ranieri, 34, casado com Bianca Tavares, 23, de São Paulo, não considera o termo “participar” apropriado quando se trata de cuidar da filha Liz, dois meses. “Prefiro compartilhar, pois se trata de uma parceria em que os dois contribuem. Na minha opinião não existe isso de papel de pai ou papel de mãe.”

Gustavo afirma ter a sorte de fazer parte de uma nova geração de homens que acredita em um mundo muito mais igualitário. “Sou um cara presente em tudo em minha casa. Adoro cozinhar, lavo as roupinhas da bebê no tanque e limpo a casa. Além disso, eu e minha esposa revezamos quem vai levantar de madrugada quando a Liz chora.”

Para ele, ter direito à licença de 20 dias foi algo sensacional. A Livraria Cultura, empresa em que trabalha, já oferecia 15 dias de afastamento a seus funcionários que se tornassem pais e incluiu mais cinco após a sanção da lei. “Pude estreitar mais o vínculo com a minha filha, especialmente nos primeiros dias, quando a criança começa a se familiarizar com rostos e ambientes. Estar presente me permitiu vivenciar a nova rotina da casa, ir junto ao pediatra e ter pleno contato com a bebê.”

Acostumado a passear pelo bairro onde mora com a filha no sling (faixa de pano usada para carregar o bebê junto ao peito), Gustavo afirma que os olhares de surpresa dos vizinhos são comuns. “Quando eu passo, todos viram para olhar. Imagino que pensem: onde está a mãe dessa criança?”.

Apegado à bebê, ele diz que sentiu a volta ao trabalho após a licença. “Foi muito difícil, a sorte é que moro perto e chego muito rápido em casa. Nesses primeiros dias, vejo as fotos que minha esposa manda e dá muita saudade. É interessante como nosso foco munda depois que nasce um filho.”


Falta pouco para o time ficar completo

Roberto Setton/UOL
Uelton com os filhos Yasmin, 11, Matheus, 9, Guilherme, 7, Beatriz, 4, e a esposa Laís, grávida de gêmeos imagem: Roberto Setton/UOL

O preparador de fabricação Uelton Dias Rodrigues, 33, não teve muito tempo para ficar com os filhos Yasmin, 11 anos, Matheus, nove anos, Guilherme, sete anos, e Beatriz Manoela, quatro anos, quando eles nasceram. Mas agora que a esposa Laís Aparecida Costa, 27, está grávida de gêmeos, ele poderá passar 40 dias com Pedro e Davi, que devem nascer em outubro. “Das outras vezes só deu para ficar no hospital, mesmo assim, passei noites em claro e troquei as fraldas. Agora estarei mais presente.”

A Natura, empresa em que ele trabalha, decidiu dar a seus funcionários o dobro de tempo que a lei instituiu. Uelton comemora. São dois e, embora Laís tenha tido quatro partos normais, desta vez a médica recomendou uma cesárea. Por isso, ela vai precisar ainda mais de mim enquanto estiver se recuperando.”

Uelton conta que seus colegas estranham o tamanho da licença e imaginaram que tanto tempo longe do trabalho pudesse atrapalhá-lo. “No começo, eu fiquei preocupado, mas procurei me informar e, ao contrário do que muitos imaginam, a empresa valoriza e até estimula os pais a ficarem com a família. Estou muito feliz.”

 

Topo