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Cama compartilhada entre casal e filho divide pediatras, entenda o porquê

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Apesar de facilitar a amamentação noturna, dividir a cama com o bebê pode aumentar risco de morte imagem: Getty Images

Beatriz Vichessi

Colaboração para o UOL, em São Paulo

Muitas dúvidas assombram os pais na criação dos filhos. Uma delas é a prática da cama compartilhada entre o casal e a criança. Alguns pediatras são entusiastas da ideia, que facilita a amamentação noturna, enquanto outros a condenam, listando motivos como o risco de morte a que a criança é exposta.

Confira a seguir o que dizem e como se justificam.

Família dormindo junto

Para o pediatra e neonatologista Carlos Eduardo Correa, o maior benefício de mãe e filho dormirem na mesma cama é facilitar a amamentação noturna. “É pesado e cansativo a mulher ter de se levantar e ir até outro quarto uma, duas ou várias vezes por noite, para amamentar. Muitas desistem do aleitamento noturno por causa disso, e a criança é prejudicada”, diz.

Segundo o médico, outro benefício relatado pelos pais é que os filhos ficam mais calmos quando dormem junto aos adultos. No mais, de acordo com Correa, a cama compartilhada facilita a observação da criança durante o sono.

“Defendo que a prática deve ser uma decisão da família. Não julgo uma mãe melhor porque dorme com o filho nem pior porque dorme separada”, fala.

Outro profissional que defende fortemente o compartilhamento da cama é o pediatra espanhol Carlos González, especialista em amamentação pela Universidade de Londres e assessor da iniciativa Hospital Amigo da Criança do Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância).

No livro “Bésame Mucho - Como Criar seus Filhos com Amor” (editora Timo), ele apresenta diversos estudos a respeito, revelando, por exemplo, que a cama compartilhada é uma prática presente em várias culturas, como entre famílias da Guatemala originárias de etnia maia. Entre os japoneses, dormir com os pais é normal também, tal como entre os imigrantes asiáticos que moram na Inglaterra.

Embora muita gente critique o compartilhamento, defendendo que quanto mais a criança ficar acostumada a dormir com os pais, mais insegura será, Correa declara que criança que recebe afeto cresce segura e dá conta de sair da cama dos adultos quando for a hora.

“Se não fizessem o mínimo esforço para tirar as crianças da cama dos pais, elas mesmas sairiam mais cedo ou mais tarde. (...) tenho certeza de que nenhum de meus leitores sente, neste momento, o menor desejo de voltar a dormir cada noite entre seu pai e sua mãe”, escreve González.

Ele ainda defende que as crianças acordam chorando à noite e procuram a companhia dos pais, não porque aprenderam a fazer isso por repetição, mas porque esses são comportamentos inatos, próprios de uma determinada idade, e que desaparecem sozinhos no momento adequado. 

Para Correa, quem adere à prática deve encostar a cama na parede para não permitir que a criança caia ou então colocar o colchão no chão. A criança não deve compartilhar o leito com alguém que seja fumante (o tabaco aumenta muito o risco de morte súbita do lactente), que faça uso de remédio (ou drogas) que alterem a consciência  ou que seja extremamente obeso, para evitar que, dormindo, o adulto role na cama e passe por cima do bebê ou esmague-o.

“Não conheço nenhum caso de morte infantil provocado pela cama compartilhada”, afirma Correa. González ainda alerta que se a cabeceira da cama tiver barras deve ser forrada temporariamente para a cabeça da criança não ficar presa. Os cobertores precisam ser leves, e o colchão deve ser feito de outro material, que não de água.

Sobre a relação entre insônia e cama compartilhada, apontada em estudos, González diz que não é o hábito de a família dormir reunida que causa problemas de sono e, sim, o contrário. “Em uma sociedade na qual a cama compartilhada costuma ser mal vista, os pais recorrem a ela apenas quando os outros métodos para fazer os filhos dormirem tenham falhado, ou seja, quando a criança é propensa a chorar ou a acordar ou demora muito para dormir.”

Cada um no seu quarto

“A cama do casal é para o casal, não para os filhos”, afirma o neuropediatra Christian Muller, presidente da Sociedade de Pediatria do Distrito Federal e membro do Departamento de Pediatria do Desenvolvimento e Comportamento da SBP (Sociedade Brasileira de Pediatria).

Segundo ele, o que mais pesa contra a prática de pais e filhos dormirem juntos são os riscos de sufocamento e morte. O hábito é rechaçado com veemência pela SBP. “Crianças morreram, morrem e infelizmente continuarão morrendo enquanto se continuar sugerindo a cama compartilhada”, fala Muller, apesar de não apresentar estudos que comprovem a afirmação.

Para ele, a questão do estreitamento do vínculo mãe e filho não compensa o risco a que a criança é exposta. E mais: ele afirma que o afeto tem de ser estimulado no convívio e não durante o sono. O pediatra diz que estabelecer que pais dormem em um quarto e crianças em outro é aproveitar a oportunidade para ensiná-las as posições de cada um na hierarquia familiar, ensinando o respeito.

A pediatra e neonatologista Monica Picchi, mestre em medicina pela USP (Universidade de São Paulo), também é contrária à cama compartilhada. “Na primeira vez que a criança pede para dormir com os pais, eles acham que tudo bem. Na segunda, também. Pensam que ela pode ter se assustado com um pesadelo, por exemplo. Na terceira, imaginam que possa estar doente ou com saudade da mãe. E assim a criança acaba instalando-se na cama do casal. É difícil negar abrigo aos filhos, mas sempre que a cena se repete, a situação se torna prejudicial para todos”, diz.

Isso porque os movimentos de todos ficam restritos, e os adultos passam a noite com medo de machucar a criança, além de dormirem mal. Quando alguém se mexe na cama, o outro logo desperta. “No fim das contas, ninguém aproveita totalmente a noite de sono. Estudos indicam maior associação entre sono de má qualidade com obesidade e hiperatividade. Não dormir bem impacta no desenvolvimento da estatura. É durante o descanso noturno que ocorre maior liberação do hormônio de crescimento, que só entra na circulação após algumas horas de sono continuo”, fala.

Para a médica, compartilhar a cama com os filhos também pode atrapalhar a vida íntima do casal.  “Além disso, dormir com os pais deixa as crianças mais dependentes e inseguras”, diz.

Para não atrapalhar a amamentação noturna e fortalecer o vínculo familiar, Monica recomenda que mãe e bebê durmam no mesmo quarto até por volta dos 30 dias de vida da criança.

“Assim que ele crescer um pouco, dormir profundamente e os pais se sentirem seguros, está na hora de a mudança acontecer. Não há idade certa, porém, quanto antes, melhor”, afirma.

Outro profissional que vê mais contras do que prós a respeito da cama compartilhada é José Luiz Setúbal, pediatra do Hospital Infantil Sabará, em São Paulo. Para ele, se existe a possibilidade de a criança dormir em um berço, não há nenhuma vantagem ou benefício para ela ou para os pais que todos durmam juntos. “O casal precisa manter sua intimidade e a criança tem também direito a ter a dela.”

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