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Bebê Phelps no Instagram: pais são donos de identidade digital de filho?

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Michael Phelps comemorando a conquista do ouro nos 200m borboleta, na Rio 2016, com a mulher, Nicole, e o filho, Boomer imagem: Martin Bureau/AFP

Do UOL, em São Paulo

Enquanto o pai faz história nas piscinas, Boomer Phelps, filho do nadador americano Michael Phelps --o maior vencedor da história dos Jogos Olímpicos-- vira hit no Instagram. O bebê de três meses já acumula 508 mil seguidores na conta criada em meados de junho, quando tinha apenas um mês de vida.

O filho do nadador não é o primeiro herdeiro de celebridade a ganhar perfil em uma rede social ainda na primeira infância. No Brasil, Valentina, a filha de dois anos de Mirella Santos com o humorista Wellington Muniz, o Ceará, também está no Instagram desde os nove meses e coleciona cerca de 60 mil seguidores. Melinda, filha do cantor Michel Teló com a atriz Thais Fersoza, nascida em 1º de agosto, também garantiu seu perfil na rede, embora ainda não tenha postagens.

Outro exemplo são as gêmeas Maya e Kiara, filhas da Miss Brasil 2007 Natália Guimarães e do cantor Leandro, do KLB, que entraram um pouco mais tarde na rede, aos dois anos. O perfil criado há pouco mais de um ano pelos pais celebrou recentemente os 200 mil seguidores.

Reprodução/Instagram
Boomer Phelps em foto publicada em seu perfil no Instagram imagem: Reprodução/Instagram

Mas é bom dizer que esse comportamento não é exclusivo dos famosos. “Conheço algumas pessoas que já registraram os endereços nas redes sociais com o nome e sobrenome dos filhos. Alguns deles escolheram o nome da certidão em função da disponibilidade de registro nas redes sociais”, diz o advogado Leonardo Serra de Almeida Pacheco, especializado em direito digital pela Fundação Getúlio Vargas.

O intuito desses pais é compilar todos os momentos da vida de uma pessoa em crescimento em uma plataforma digital. No futuro, o filho verá cada passo seu fotografado, filmado e eternizado na internet. A dúvida que fica é: essa exposição pode afetar a criança, quando ela tiver consciência da identidade digital que os pais criaram para ela?

Para a educadora e antropóloga Adriana Friedmann, coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Simbolismo, Infância e Desenvolvimento, é a personalidade da criança que pode ser afetada. “Há a chance de ela crescer com altas expectativas sendo colocadas no que diz respeito à imagem, estética e comportamento”, afirma.

A socióloga Poliana Jacqueline Oliveira Queiroz, mestre em antropologia social pela Universidade Federal de Mato Grosso, concorda. “A exposição pode minimizar o poder de escolha da criança, que talvez não se identifique com a ‘fama’ criada por sua imagem fofa de bebê.”

Reprodução/Instagram
Mirella Santos e a filha, Valentina, em foto no perfil da menina no Instagram imagem: Reprodução/Instagram

Em determinada fase da vida, o filho também pode se tornar vítima de bullying, dependendo do tipo de intimidade que foi revelada pelos pais no passado. “Um adulto tem maturidade para lidar com um vídeo constrangedor, como um concurso de lambada da década de 1980, mas a criança, não. E grupos de crianças e adolescentes podem ser bastante cruéis”, declara Pacheco.

E uma vez on-line, não há como assegurar que só pessoas escolhidas vejam o material divulgado. “A exclusão total de um conteúdo da internet é possível na teoria, embora, na prática, seja improvável, especialmente no caso de algo que viralizou”, afirma o advogado.

Pai, mãe e filho: uma coisa só

Para os pais, pode ser difícil perceber os pontos nocivos da entrada precoce do filho no universo digital. Isso porque a vida da prole se confunde com a dos genitores.

“Postar a foto do meu bebê recém-nascido é uma forma de colocar na roda a minha vivência da maternidade, a minha alegria, o meu orgulho e a ternura do momento que eu mesma estou vivendo”, afirma a socióloga e antropóloga Maria Elisa Maximo, pesquisadora do Grupo de Estudos em Antropologia do Ciberespaço da Universidade Federal de Santa Catarina.

Nesse sentido, expor o filho é o mesmo que se expor. “Mas é fácil perdemos de vista que as crianças são elas próprias indivíduos que precisam ser respeitados”, diz Maria Elisa.

A antrópologa pondera que as redes sociais apenas potencializaram algumas práticas adotadas por pais há tempos. “Sempre exibimos nossos bebês e filhos. Desde o convite para a visita na maternidade às fotos organizadas em álbuns que circulavam pela família inteira. Há também as festas de aniversário homéricas e as sessões de filmes caseiros exibidos nos encontros familiares. Todas essas foram formas que encontramos para ganhar projeção por meio das nossas crianças”, fala Maria Elisa.

Compartilhar fotos e vídeos dos filhos é saudável desde que os adultos tenham dimensão de onde essas imagens podem ir parar, o que pode servir como filtro daquilo que deve ou não ser publicado na rede. Manter o perfil restrito a conhecidos, por exemplo, ajuda a controlar a exposição.

Por fim, quando a criança já entende o que significa estar na internet, convém consultá-la sobre cada divulgação. “Costumo mostrar para o meu filho as fotos que publico dele. Digo que compartilhei com meus amigos e que eles gostaram, comentaram etc.”, diz Maria Elisa Maximo.

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