Infância

Técnica usada por príncipe William e Kate para falar com George evita birra

Pete Souza/AFP/Reprodução
O príncipe William e o casal Obama agacham-se para falar como o príncipe George, em foto de abril deste ano imagem: Pete Souza/AFP/Reprodução

Melissa Diniz

Do UOL

O príncipe William tem chamado a atenção da imprensa internacional por sempre aparecer agachado quando conversa com o filho, George, 3, em eventos públicos. O hábito, também compartilhado por Kate --mulher do herdeiro do trono britânico--, tem como base uma técnica de comunicação conhecida como escuta ativa, desenvolvida pelos psicólogos americanos Carl Rogers e Richard E. Farson, em 1957.

William parece levar o método tão a sério que chegou a quebrar o protocolo, abaixando-se durante o desfile aéreo da RAF (força aérea real), realizado em junho, na comemoração dos 90 anos da avó, a rainha Elizabeth II. Na ocasião, ele respondia às perguntas do filho sobre as acrobacias dos aviões e levou uma bronca da monarca, que ordenou que ele se levantasse. Até o presidente americano Barack Obama agachou-se para falar com George, quando visitou a família real, em abril deste ano.

Segundo a psicóloga Gabriela Malzyner, mestre em psicologia clínica, as vantagens da escuta ativa ficam evidentes quando nos imaginamos de joelhos, tendo de olhar para cima enquanto outra pessoa adulta fala conosco. “Colocar-se na mesma altura do interlocutor permite uma comunicação horizontal, linear. Isso aumenta nossa capacidade de ouvir e de ter empatia, por isso recomendamos usar a técnica ao falar com crianças”, explica.

De acordo com a psicoterapeuta infantil Paloma Vilhena, o “olho no olho” libera ocitocina, o hormônio mais importante nas relações afetivas, que provoca bem-estar e fortalece as interações. Além disso, a conversa torna-se menos intimidadora, pois o adulto reconhece o que a criança está falando como legítimo e valioso, fortalecendo a autoestima infantil.

“Grande parte das dificuldades entre pais e filhos tem a ver com falhas na comunicação. Escutar é diferente de ouvir. Quando escutamos, nós nos comprometemos com o outro, colocando-nos inteiramente à sua disposição. Ouvir é perceber o som pela audição e, muitas vezes, apenas esperar a vez de falar. Ouvir é passivo, escutar é ativo.”

De acordo com Paloma, quando uma criança é escutada, aprende que pode falar o que realmente sente e pensa, sem medo de represálias. Ela também desenvolve a capacidade de escutar e de validar a opinião alheia e irá buscar relacionamentos futuros nos quais seja tratada de forma respeitosa.

Mais diálogo, menos birra

Reprodução/Twitter/KensigntonRoyal
Kate também se abaixa para falar com o filho imagem: Reprodução/Twitter/KensigntonRoyal

Para a psicopedagoga Quézia Bombonatto, ex-presidente da ABPp (Associação Brasileira de Psicopedagogia), usar a escuta ativa previne as temidas birras infantis. “A birra acontece exatamente porque a criança aprendeu que a única forma de chamar atenção dos pais é gritando e esperneando. Esse comportamento é reforçado quando, por exaustão, os adultos acabam cedendo. Quando a criança é ouvida e respeitada, não faz birra.”

Quézia afirma que outro ponto importante na escuta ativa é a modulação do tom de voz, pois, estando na mesma altura da criança, não é necessário falar alto, muito menos gritar. 

“É comum que a criança tente acessar os pais enquanto eles fazem outra tarefa. Nessa hora, a recomendação é parar e prestar atenção. Se o adulto nem olha para a criança, ela se sente desvalorizada. O mesmo acontece quando os pais tentam repreender o filho, gritando algo de outro cômodo. Não vai funcionar.”

Outro erro comum é achar que assunto de criança não importa. “Muitas vezes, ao contar alguma experiência, a criança elabora o que aconteceu e compreende melhor seus sentimentos. Isso desenvolve a autoconfiança e fortalece o vínculo, cria-se um sistema de troca e de respeito mútuo”, diz Quézia.

Engana-se quem pensa que ao se colocar na altura da criança o adulto perde a autoridade. “Há um mito de que se coloca limite gritando, usando a força, e todos nós sabemos que os melhores chefes não são os que gritam, muito pelo contrário, são os que sabem dialogar respeitando os outros. Ao agir com violência, os pais assustam, mas não educam”, afirma Gabriela.

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